Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

UE sobreviverá ao Brexit, afirma Barroso 

Ex-presidente da Comissão Europeia afirma que bloco está em um processo de integração de 'grande força'

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 05h00

Diante de um inevitável Brexit, a União Europeia deverá chegar a um acordo de consenso com o Reino Unido sobre sua saída do bloco, segundo o ex-presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Apesar das duras negociações, no fim, para ele, os 27 membros do bloco e Londres alcançarão um “denominador comum”. “É a lógica da União Europeia, negocia de maneira difícil, mas no fim prevalece a cultura do compromisso”, disse Barroso ontem, em uma conversa com jornalistas em São Paulo. 

Atualmente presidente não executivo do Goldman Sachs International, Durão Barroso reconhece que esse será um novo desafio à União Europeia que, na sua opinião, está melhor hoje depois de enfrentar “crises sem precedentes”, em referência à crise financeira da dívida soberana (também conhecida como a crise da zona do euro). 

Sem dúvida, segundo ele, a notícia do Brexit não foi boa e causou “grande desapontamento”, mas ele ponderou que a União Europeia está em um processo de integração de “grande força”, especialmente após a vitória do europeísta Emmanuel Macron na França e das derrotas de movimentos nacionalistas no continente. “A União Europeia já existia antes do Reino Unido e continuará existindo sem o Reino Unido”, afirma. 

Os resultados desse processo de separação, porém, são incertos, na avaliação do ex-primeiro-ministro português, uma vez que até mesmo dentro do Reino Unido há dificuldade em estabelecer qual é a posição a seguir. 

Ele observa que há divisões dentro dos dois principais partidos britânicos (trabalhistas e conservadores) sobre o assunto. Há aqueles que não querem o Brexit, mas têm de respeitar o referendo que o aprovou, e há aqueles que querem a saída, mas em versões diferentes: mais branda ou mais dura. 

“O Reino Unido é um país muito importante, vai continuar na Europa e parte do espaço europeu. Seria inteligente de ambos os lados encontrar o mais construtivo acordo possível.” 

Para o português, há também espaço para uma maior integração, em alguns aspectos. “Estão aparecendo hipóteses que antes não existiam, como por exemplo no setor de Defesa”, afirma. 

Ele explica que o governo britânico sempre foi muito crítico em relação às iniciativas nessa área por acreditar que algumas decisões poderiam tirar credibilidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). 

Antiglobalização. O cenário que levou ao Brexit, para Durão Barroso, não é diferente daquele que deu vitória a Donald Trump nos Estados Unidos. Eles se aproximam também do que ocorre na Rússia, na Turquia e na Venezuela, que é o fortalecimento de tendências nacionalistas em uma reação à globalização. 

Em geral, avalia, as pessoas estão inquietas e ansiosas com relação ao futuro e percebem que suas próprias instituições nacionais não têm força suficiente nessa situação. Cenário que na sua opinião leva ao desespero, à demagogia, ao populismo e ao nacionalismo. 

“Os Estados Unidos e o Reino Unido estavam perto do pleno emprego, o que mostra que não é só uma questão econômica, mas tem aí uma dimensão cultural e de identidade, no sentido amplo”, afirma Barroso, acrescentando que há países com elevada taxa de desemprego cuja população rejeita o populismo. 

Para ele, o que há nesse momento é uma acomodação entre “fluxo e fricção”. “Por um lado, há as trocas comerciais, de investimento, financeiras, de movimento de pessoas e de turismo, do tráfego aéreo. Mas também há resistência, há fricção. Quem vai ganhar?”, questiona, respondendo logo em seguida acreditar na primeira opção. 

 

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