AFP PHOTO / Petras Malukas
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UE teme Rússia e fim de equilíbrio pós-Guerra Fria

Diplomatas europeus avaliam que crítica de Trump ao bloco rompe tradição; países bálticos organizam defesas temendo ação de Moscou

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2017 | 17h07

GENEBRA - Em um dos corredores da ONU que dá acesso à suntuosa sala da conferência de desarmamento, um grupo de embaixadores falava à voz baixa na noite de sexta-feira. O assunto era o impacto que os poucos dias de presidência de Donald Trump provocaram no equilíbrio de poder global. Ali, diplomatas africanos, asiáticos e europeus concordaram que o status quo pós-Guerra Fria pode estar perto de uma transformação profunda. 

Em poucos dias, Trump colocou em questão a existência da ONU, ameaçou agências nos bastidores, trocou diretores e insultou governos estrangeiros. Na ONU, funcionários passaram a mapear todos os programas da entidade e a avaliar quais poderiam ser eventualmente anulados por pressão dos EUA, incluindo forças de paz.

O colunista James Kirchick lembra que o apoio americano ao processo de integração europeia é historicamente bipartidário. “Presidentes americanos, de ambos os partidos nos EUA, de Harry Truman a Richard Nixon, Reagan ou Obama, todos apoiaram uma Europa integrada, ligada aos EUA por valores democráticos compartilhados e por uma aliança militar e comercial com base no princípio da segurança coletiva”, escreveu. “Esse compromisso com uma Europa em paz está ameaçado.”

O principal motivo da turbulência é a aproximação entre Trump e Vladimir Putin. Os sinais desse impacto já estão sendo avaliados tanto pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) quanto pela ONU. Na Ucrânia, aumentaram os confrontos entre tropas apoiadas por russos e forças governamentais. Entre as chancelarias europeias, o temor é o de que Trump reconheça a anexação da Crimeia, por parte dos russos. Trump não deu sinais de que faria isso.

O governo ucraniano admite já que a aliança sólida no Conselho de Segurança entre europeus e os EUA pode ter acabado. Volodymyr Yelchenko, embaixador da Ucrânia na ONU, só espera que “a retórica de campanha e a realidade sejam diferentes”. 

Báltico. Para Bruxelas, o reconhecimento pelos EUA da anexação da Crimeia por Moscou estimularia os russos a repetir o ato, especialmente nos países bálticos. Na Letônia, o governo se mobiliza para uma eventual invasão. “Teremos armas no ministério e estaremos prontos para nos defender”, prometeu o ministro de Defesa letão, Janis Garisons. Seu país ampliou a Guarda Nacional em 8 mil homens desde a eleição de Trump. 

Na Estônia, o governo registrou 25 mil voluntários para uma milícia de defesa do país, enquanto a Lituânia publicou um guia sobre o que os cidadãos devem fazer se o país for invadido pela Rússia. “Os sonhos de que os EUA ou Deus nos protegeriam acabaram”, disse Artis Pabriks, ex-chefe da pasta de Defesa da Lituânia e hoje membro do Parlamento Europeu.

Outro impacto da aliança entre Putin e Trump poderia ser na Síria. Mediadores da ONU não escondem que a união entre os dois pode significar o fim do confronto, mas também pode representar o término do apoio aos grupos rebeldes pelos EUA e uma vitória de fato do regime de Bashar Assad.

O homem escolhido para ser o embaixador de Trump na Europa, Ted Malloch, deu o tom da nova administração. “Em minha carreira como diplomata, eu ajudei a derrubar a União Soviética”, disse à BBC. “Talvez tenha outra união que precise um pouco de ajuda”, afirmou, numa referência à União Europeia. 

Para lembrar

Bloco criticou o republicano

O presidente da Comissão Europeia, o polonês Donald Tusk, criticou na semana passada o presidente americano, Donald Trump. “A mudança em Washington coloca a União Europeia em uma situação difícil, com a nova administração parecendo querer colocar em dúvida os últimos 70 anos da política externa dos EUA”, escreveu Tusk. O polonês não fala em nome da Europa. Mas, em seu texto, afirmou que acreditava que a maioria dos líderes do bloco concorda com sua avaliação. Nas últimas semanas, Trump criticou a chanceler alemã, Angela Merkel, e disse que a política para refugiados europeia é “horrorosa”.

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