UE tenta estrangular o Irã

O passo foi dado. Os chanceleres da União Europeia decidiram punir o Irã. São medidas sem precedentes: congelamento dos ativos do banco central e embargo ao petróleo do país, que é suspeito, com razão, de estar produzindo armas nucleares. A ideia é estrangulá-lo, sufocá-lo, privando-o de sua fonte de receita essencial: o petróleo.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2012 | 03h08

A França, convencida de que os Estados Unidos não querem uma queda de braço com o Irã, está na dianteira da decisão. Paris acredita que Israel, inquieto, e com bons motivos, por ter próximo de suas fronteiras um país munido da arma absoluta, estaria decidido a bombardear as instalações nucleares do Irã até o fim do ano, mas antes das eleições presidenciais americanas, em novembro. Conclusão: a França quer subjugar o Irã imediatamente, debilitando-o economicamente.

A decisão não foi fácil. Era preciso evitar uma desestabilização do mercado mundial de petróleo e também levar em conta as dificuldades de alguns países europeus que dependem do bruto iraniano. Isso explica por que o embargo só entrará em vigor a partir de 1.º de julho, para que os consumidores do petróleo iraniano possam encontrar outras fontes de abastecimento.

A União Europeia importa apenas 5,8% do seu petróleo do Irã. Apenas três países correm o risco de ter complicações. A Itália, que compra dos iranianos 13% do petróleo que consome. A Espanha, cujo porcentual é de 15%. E a Grécia, o pior caso, que importa 34% de seu consumo do Irã.

É na Ásia, porém, que o petróleo iraniano tem seus melhores clientes. O Japão também levou um "puxão de orelhas" para aplicar essas medidas. A Índia está circunspecta. No caso da China, a recusa é clara. "A China não é o único país a ter um intercâmbio comercial com o Irã", afirmou o premiê Wen Jiabao, na quinta-feira, no fim de uma viagem pelos países do Golfo. "É preciso proteger o comércio internacional."

Sem o apoio chinês, a iniciativa perderá boa parte de sua eficácia. Por isso, a União Europeia tenta in extremis tranquilizar os chineses. Bruxelas enviará uma carta a Teerã com um convite para uma retomada de discussões, ou melhor, para "aparentar" um reinício de conversa. Ninguém tem ilusões.

Ao mesmo tempo, a UE negocia com a Arábia Saudita para conseguir que Riad compense o déficit de fornecimento, aumentando sua própria produção. Os sauditas, em princípio, concordam. Nesse caso, o embargo poderá ser implementado e deverá debilitar, e muito, o Irã, "cuja produção já vem caindo em razão da falta de novos contratos com empresas estrangeiras", segundo a revista Pétrostratégies .

Resta uma incógnita: o Estreito de Ormuz, pelo qual transita 40% do petróleo transportado por mar no mundo. Em dezembro, os iranianos já ameaçaram bloquear a passagem, o que tecnicamente não seria nenhum problema para a Marinha iraniana.

No entanto, uma intervenção do Irã pode desencadear uma resposta perigosa da frota americana presente na região. Os EUA dizem que estão preparados para essa situação. Uma nova crise teria efeitos devastadores sobre o preço do produto. Por outro lado, especialistas estimam que haverá uma estagnação da demanda por petróleo em 2012. A Agência Internacional de Energia revisou para baixo, pelo quinto mês seguido, sua previsão de consumo mundial. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.