Últimas etapas dos esforços das guerras

É difícil mostrar otimismo com relação a Iraque e Afeganistão, mas a retirada americana desses dois países permitirá aos EUA destinar os recursos a outras ameaças internas e externas

RICHARD N. HAASS, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2010 | 00h00

Por quase uma década, a política externa americana foi dominada pelas guerras no Iraque e no Afeganistão. No início de 2011, com 50 mil soldados americanos ainda presentes no Iraque e outros 100 mil no Afeganistão, pode parecer que esta era não está chegando ao fim. Mas está.

O Iraque, a segunda "guerra por opção" mais cara da história americana (a primeira foi a do Vietnã), está atingindo para os americanos um patamar de esforço que não mais absorverá substanciais recursos militares e econômicos nem receberá mais uma significativa atenção doméstica em potencial. Todos os soldados americanos devem deixar o Iraque até o fim de 2011.

Mesmo que milhares de soldados fiquem para trás, como parece provável, seu número será pequeno e seu papel se limitará a aconselhar e treinar as forças do Exército e da polícia do Iraque e à realização de missões contra terroristas. Após oito anos, 4.300 americanos mortos e mais de US$ 1 trilhão, os iraquianos serão novamente os responsáveis pelo futuro de seu país, para melhor ou pior.

O desempenho inicial de um Iraque administrado por iraquianos não é muito entusiasmante. É verdade que foram realizadas no país algumas eleições relativamente justas, a vida política é ativa e a economia está crescendo. Mas a dificuldade apresentada pelos líderes iraquianos em formar um governo após as eleições do primeiro semestre é um sinal desanimador.

De fato, uma cultura política de concessões mútuas não se enraizou no país, que permanece dividido pela geografia, etnicidade, religião e política. Não existe consenso em relação à partilha da riqueza potencial proveniente das vastas reservas energéticas iraquianas. Os curdos, ao norte, agem com verdadeira autonomia; ainda não está definido onde termina seu domínio e onde começa a autoridade do governo iraquiano. A influência iraniana é fortíssima no sul do Iraque e considerável no centro do país.

Além disso, o Iraque ainda sofre com ataques a bomba que ocorrem com certa regularidade, e milhões de iraquianos tornaram-se desabrigados ou refugiados. Em resumo, apesar de as condições no Iraque terem melhorado significativamente em relação a cinco anos atrás, a probabilidade de uma piora na situação é maior do que a de uma melhora.

O Afeganistão avança muito mais lentamente em se tratando da redução da presença dos soldados americanos. O governo Barack Obama deve tirar do país um pequeno número de soldados em julho, data escolhida pelo presidente para o início da retirada militar americana do Afeganistão. Mas este será apenas o início de um processo prolongado e gradual de redução do efetivo americano, que deve durar quatro anos - e possivelmente mais.

Ninguém sabe qual será o resultado que os americanos terão para apresentar após mais de uma década de sacrifícios e investimentos no Afeganistão. Em termos de dinheiro e vidas, o esforço total dos EUA no Afeganistão terá sido menor do que no Iraque, mas ainda assim não deixa de ser substancial.

É difícil demonstrar otimismo em relação ao Afeganistão, levando-se em consideração a resistência do Taleban, a fraqueza e a corrupção que afetam o governo do país e a realidade de que o Paquistão continuará a ser um santuário para o Taleban e outros grupos armados que buscam se instalar em território afegão (ou mais). É quase impossível vislumbrar um Afeganistão minimamente semelhante a um país normal.

Independentemente disso, a decisão de reduzir o envolvimento americano de maneira decisiva no Iraque e de modo gradual no Afeganistão terá consequências importantes para os EUA - e muitas delas serão bem-vindas. Uma delas é financeira. A política americana atual para o Iraque e o Afeganistão custa cerca de US$ 150 bilhões anuais, o equivalente a mais de 20% dos gastos dos EUA com a defesa. O corte desta soma vai liberar recursos para outras necessidades do Departamento de Defesa e para a redução do déficit, sem dúvida a maior ameaça atual à segurança dos EUA.

A redução do número de soldados no Iraque e no Afeganistão também vai permitir que o Exército americano comece a se recuperar destes dois conflitos. Nem os soldados nem o equipamento militar podem manter o nível de desempenho que tem sido exigido deles. O recrutamento e a retenção de indivíduos especialmente qualificados nas Forças Armadas americanas vai aumentar conforme os dois conflitos perderem intensidade, e muitas medidas militares modernizadoras que foram adiadas poderão finalmente ser adotadas.

Fundamentalmente, a redução do envolvimento americano no Iraque e no Afeganistão permitirá o reequilíbrio da política externa americana e da política de defesa do país. Os dois conflitos absorveram uma fatia desproporcional dos recursos dos EUA - militares e econômicos, sem dúvida, mas não podemos nos esquecer do tempo e da atenção dos funcionários do governo e dos diplomatas.

No curto prazo, fazer menos no Iraque e no Afeganistão vai permitir que os EUA se concentrem nas duas ameaças externas mais imediatas ao país: o Irã e a Coreia do Norte.

No longo prazo, os EUA precisam do apoio internacional e doméstico para acordos regionais e globais capazes de administrar os problemas que definem a era atual, desde a difusão dos materiais nucleares e do terrorismo até a manutenção de uma economia mundial aberta e a desaceleração da mudança climática. Isso exigirá uma política externa que se concentre nas potências emergentes do século 21, muitas das quais se localizam na Ásia.

Parece que os EUA desperdiçaram a oportunidade de moldar o sistema internacional na primeira década do novo século. Iraque e Afeganistão mostraram-se apenas distrações estratégicas e, principalmente no caso do Afeganistão, os EUA devem resistir às pressões pelo prolongamento de uma presença militar substancial.

Existe agora uma oportunidade para reorientar a política externa americana e concentrá-la naquilo que é mais importante. É do interesse dos EUA e do restante do mundo que tal oportunidade não seja desperdiçada. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EX-DIRETOR DE PLANEJAMENTO DE MEDIDAS NO DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA E ATUALMENTE É PRESIDENTE DO CONSELHO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. PUBLICOU O LIVRO O "WAR OF NECESSITY, WAR OF CHOICE: A MEMOIR OF TWO IRAQ WARS" (GUERRA POR NECESSIDADE, GUERRA POR OPÇÃO: UMA MEMÓRIA DE DUAS GUERRAS NO IRAQUE)

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