Último brasileiro não sai de casa há oito dias

Após férias no Brasil, mecânico de aviões voltou à Líbia dois dias antes de a crise estourar

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

O mecânico de aviões André Luís Claro Poças passa 28 dias trabalhando na Líbia e outros 28 dias em férias no Brasil, para onde vai com passagens compradas pela companhia, a Petroair, estatal líbia de transporte aéreo para o setor do petróleo. Poças voltou de suas últimas férias no dia 13 - dois dias antes de começarem os protestos que levaram a um levante sem precedentes contra o ditador Muamar Kadafi. Há oito dias, não sai de casa.

Hoje, Poças é o único brasileiro de que a embaixada tem notícia ainda na Líbia - com exceção dos diplomatas e dos jornalistas que vieram cobrir o conflito.

"Eu não imaginava que isso pudesse acontecer", recorda Poças, que não foi o único surpreendido pelas proporções que o confronto assumiu. Ele conta que, alguns dias antes de voltar do Brasil, recebeu email de um colega da refinaria onde trabalha, em Sirte, cidade localizada entre Benghazi, o principal reduto da oposição, e Trípoli, a capital ainda dominada por Kadafi. Teoricamente um alvo militar, a refinaria está isolada.

A pista de pouso usada pelos aviões que transportam seus funcionários foi interditada por obstáculos - Poças não sabe se pelo governo ou pela oposição.

As estradas não oferecem segurança nem para o percurso de 600 quilômetros a oeste, onde fica Trípoli, nem para os 250 quilômetros rumo a leste, onde se encontra Benghazi.

Forças fiéis ao regime de Kadafi e dos rebeldes disputam o controle sobre todos os acessos. A saída pelo mar também está fechada.

Incomunicável. Para aumentar o isolamento, Poças está sem internet e não consegue fazer ligações de seu celular. É a sua mulher que liga todos os dias, de São José dos Campos, onde mora com seus dois filhos, um de 20 outro de 18 anos. Geralmente ela só consegue completar a ligação de madrugada, por causa das linhas congestionadas. Técnicos em telecomunicações disseram ao Estado que o governo restringiu em 60% a capacidade das linhas telefônicas.

O brasileiro conta que a situação ao redor da refinaria e na cidade mais próxima, Jedabia, a 70 km de distância, é tranquila. O mecânico, de 44 anos, mora na Líbia desde 2007, quando o país comprou o primeiro avião da Embraer. Em 2010, mais dois jatos do mesmo modelo, RJ-170, foram adquiridos. Poças conta que, desde o início dos confrontos, os três aviões foram levados para o aeroporto militar de Mitiga.

Empresas brasileiras com apoio do Itamaraty retiraram da Líbia um total de 3.500 pessoas, entre brasileiros e cidadãos de muitos outros países. O último grupo saiu no sábado do porto de Benghazi num navio com 148 pessoas, fretado pela construtora Queiroz Galvão, em direção à Grécia (mais informações abaixo). O outro brasileiro que ainda restava, Fernando Silva Farias, funcionário da empresa franco-alemã Schlumberger, embarcou também no sábado para o Brasil.

Países como a Grã-Bretanha organizaram operações de guerra para retirar seus cidadãos da Líbia. Aviões militares britânicos pousaram no deserto para resgatar os nacionais que não conseguiam sair por terra, pelo mar ou pelo aeroporto de Benghazi. Todos chegaram à Europa e estão bem.

Barco chega em Malta

Uma embarcação italiana com cerca de 1.750 funcionários da Odebrecht, de várias nacionalidades, chegou ontem à ilha de Malta. A maioria era natural de países asiáticos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.