Air Force/Master Sgt. Donald R. Allen/Handout via REUTERS (arquivo)
Air Force/Master Sgt. Donald R. Allen/Handout via REUTERS (arquivo)

EUA completam retirada do Afeganistão, pondo fim à guerra mais longa de sua história

Tropas americanas deixaram o país pouco antes da meia noite de 31 de agosto no horário afegão, data limite estipulada por Biden para a retirada

Beatriz Bulla / Correspondente em Washington, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2021 | 17h51

WASHINGTON - Os Estados Unidos completaram nesta segunda-feira, 30, sua retirada do Afeganistão, horas antes do prazo estipulado pelo presidente Joe Biden e depois de um atentado que matou mais de 180 pessoas. O último avião deixou Cabul pouco antes da meia noite no horário local, tarde de hoje no Brasil. 

"Estou aqui para anunciar que completamos nossa retirada do Afeganistão", disse o general Kenneth Mckenzie nesta tarde, quando já passava da meia noite de 31 de agosto em Cabul. A data foi estabelecida como limite pelo presidente dos EUA, Joe Biden, para a saída dos militares americanos. "Isso significa não só o fim do componente militar da retirada como também o fim de uma missão de 20 anos que começou pouco depois do 20 de setembro." 

Ainda há cerca de 250 americanos no Afeganistão que esperam pela possibilidade de sair do país, além de afegãos aliados que contam com a ajuda dos americanos para deixar a capital por medo da retaliação do Taleban.

Vários foguetes foram lançados contra o aeroporto de Cabul na segunda-feira. "Os soldados do califado atacaram o aeroporto internacional de Cabul com seis foguetes", anunciou o EI-K em um comunicado. A origem dos foguetes não foi confirmada, mas uma fonte que trabalhou para o Departamento de Segurança do governo afegão derrubado pelos taleban há duas semanas afirmou que os foguetes foram lançados a partir de um veículo na zona norte de Cabul.

Moradores das proximidades do aeroporto confirmaram que ouviram o som da ativação do sistema de defesa de mísseis e viram estilhaços caindo do céu, o que indicaria que ao menos um foguete foi interceptado. A Casa Branca confirmou o ataque.

No domingo 29, um ataque de drone militar dos Estados Unidos em Cabul matou ao menos 10 civis, entre eles crianças. Horas depois do ataque, funcionários do Departamento de Defesa afirmaram que o drone explodiu um veículo carregado com explosivos, eliminando uma ameaça ao aeroporto de Cabul do EI-K. Mas na casa de uma família de Cabul, na segunda-feira 30, sobreviventes e vizinhos disseram que o ataque matou 10 pessoas, incluindo sete crianças, um trabalhador de uma organização humanitária americana e uma pessoa contratada pelas forças armadas dos EUA.

O general do exército dos Estados Unidos, Hank Taylor, disse que desde 14 de agosto mais de 122 mil pessoas foram retiradas de Cabul, incluindo 5.400 americanos. O presidente Joe Biden estabeleceu esta terça como data-limite para a retirada das tropas do Afeganistão, o que significará o fim de duas décadas de uma operação militar iniciada como represália pelos atentados de 11 de setembro.

No sábado 28, o exército britânico terminou a retirada de mais de mil civis afegãos vinculados ao Reino Unido, com medo de novos ataques após o atentado da quinta-feira da semana passada. O governo do Reino Unido confirmou que não seria possível retirar todos os aliados no país. 

Assistência médica

O retorno do Taleban ao poder, do qual foram afastados em 2001, desencadeou uma tentativa desesperada de fuga de afegãos em voos organizados pelos países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos.

Um avião com assistência médica da Organização Mundial da Saúde (OMS) pousou no Afeganistão na segunda-feira. É o primeiro carregamento de suprimentos médicos que pousa no Afeganistão desde que o país está sob o controle dos taleban, disse a OMS.

Em nota, a OMS informou que o avião, fornecido pelo governo do Paquistão, chegou a Mazar-i-Sharif vindo de Dubai com 12,5 toneladas de medicamentos e material médico a bordo.

O grupo EI-K, rival dos taleban, representa uma grande ameaça na reta final da retirada, como demonstrou o ataque suicida contra o aeroporto na quinta-feira da semana passada, que matou mais de 100 pessoas, incluindo 13 soldados americanos.

Acusações

Ao longo da guerra no Afeganistão, as tropas dos Estados Unidos foram acusadas de matar civis em seus ataques aéreos, um dos motivos que provocaram a perda do apoio local. No domingo isso pode ter acontecido novamente.

Nos últimos anos, o braço do EI no Afeganistão e Paquistão executou alguns dos ataques mais violentos nestes países, com massacres de civis em mesquitas, praças, escolas e hospitais.

Embora os grupos sejam sunitas radicais, os dois mantêm uma profunda rivalidade e ambos reivindicam a verdadeira representação da jihad.

O atentado da quinta-feira 26, a ação mais violenta contra os Estados Unidos no Afeganistão desde 2011, provocou um reforço da cooperação entre as forças americanas e os taleban para proteger o aeroporto da capital.

No sábado 28, combatentes taleban escoltavam um fluxo constante de afegãos dos ônibus até o terminal de passageiros, onde as pessoas eram entregues a soldados americanos para a retirada.

De volta ao poder

O movimento islamita radical Taleban, que deu abrigo ao grupo terrorista Al-Qaeda, promete uma versão mais moderada do regime fundamentalista imposto entre 1996-2011.

Muitos afegãos, especialmente aqueles que trabalharam com as missões estrangeiras ou para o governo derrubado, temem a nova versão taleban e tentaram fugir na operação de retirada organizada pelas potências ocidentais.

O Taleban afirmou que vai autorizar a presença de mulheres nas universidades durante seu governo, mas estudando separadas dos homens. O grupo fundamentalista islâmico havia prometido não proibir meninas e mulheres de frequentarem a escola, como fez em seu regime anterior. "O povo do Afeganistão continuará tendo ensino superior de acordo com as regras da sharia (lei islâmica) que proíbe classes mistas", disse o ministro do Ensino Superior do Taleban, Abdul Baqi Haqqani, em uma assembleia com membros do alto escalão do grupo, no domingo 29.

A permissão, ainda que sob influência da sharia, está dentro do discurso de moderação que o grupo tenta emplacar. A mudança de atitude, porém, é vista com ceticismo. Segundo uma estudante que trabalhou na cidade universitária durante o último governo, não havia mulheres na reunião —o ministro falou apenas com professores e alunos do sexo masculino. Para ela, isso mostra a prevenção sistemática da participação das mulheres nas decisões e a distância entre as palavras do Taleban e suas ações. 

O número de universitários aumentou nos últimos 20 anos, principalmente entre mulheres que estudam com homens e participam de seminários ministrados por professores do sexo masculino. Desde que se pronunciou pela primeira vez após a tomada de poder, o grupo fundamentalista trabalha em uma campanha para tentar convencer o país e o mundo de que não repetirá no governo anterior.

Na sua primeira entrevista coletiva desde a tomada de Cabul, o porta-voz Zabihullah Mujahid disse que o Taleban quer paz, negou represálias contra antigos adversários e afirmou que os direitos das mulheres serão protegidos —mas a ressalva, dentro do "arcabouço do Islã", já estava clara nesse primeiro pronunciamento. Nesta época, a declaração de Mujahid foi reforçada por uma fala de Enamullah Samangani, membro da comissão cultural do Taleban, a jornais paquistaneses. "O Emirado Islâmico não quer que as mulheres sejam vítimas. Elas devem estar na estrutura do governo de acordo com a sharia." Apesar das garantias, não estava claro como seria essa estrutura.

No passado, a interpretação radical da lei islâmica levou a extremos em regiões controladas por grupos como o Taleban, o Estado Islâmico ou o governo da Arábia Saudita. Sob o governo do grupo fundamentalista no Afeganistão, por exemplo, mulheres eram alvo prioritário da repressão brutal.

Ainda que haja gradações diferentes de aplicação, por via de regra as mulheres são relegadas a papéis subalternos na vida pública e elevadas à condição de "rainhas do lar". No poder, o Taleban levou esse aspecto ao paroxismo. A educação de meninas tinha de ser feita em casa, não havia saúde pública para mulheres e os corpos totalmente cobertos por burcas simbolizavam ao Ocidente tal repressão.

As burcas são tradicionais entre pashtuns, a etnia majoritária do Afeganistão à qual o Taleban pertence, mas sua obrigatoriedade chocou o mundo. Na prática, elas seguiram sendo usadas por muitas mulheres nos últimos 20 anos, principalmente fora de Cabul. O Taleban afirmou que iria exigir o uso de hijab, o véu que cobre a cabeça e os ombros e deixa o rosto à mostra.

Ao longo das duas décadas de presença ocidental, houve avanços. Escolas e hospitais abriram para mulheres, elas integraram as Forças Armadas e a polícia, e os EUA gastaram US$ 780 milhões em programas de inclusão.

No domingo 29, os taleban anunciaram que seu líder supremo, Hibatullah Akhundzada, está em Kandahar, sul do Afeganistão, e planeja fazer uma aparição pública em breve. / COM AFP, REUTERS e NYT

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