Ronald Wittek/EFE
Ronald Wittek/EFE

Ultra-direita bate partido de Merkel em eleição regional na Alemanha; esquerda vence

Dier Linke, de esquerda, consegue maioria dos votos no Estado de Turíngia, na antiga Alemanha Oriental; AfD, de extrema-direita, fica em segundo lugar, a frente da União Democrata-Cristão, de Merkel

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 19h47

BERLIM - O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) derrotou os conservadores da chanceler Angela Merkel na disputa pela segunda posição nas eleições regionais deste domingo, 27, no estado de Turíngia, na antiga Alemanha Oriental, nas quais o partido Die Linke, de esquerda, ocupou a primeira posição, segundo pesquisa de boca de urna divulgada. 

O resultado segue os recentes sucessos da AfD nos estados do leste de Saxônia e Brandemburgo, onde subiu para o segundo lugar no dia 1º de setembro, e representa um revés para a União Democrata-Cristã (CDU) de Merkel.

O Die Linke (Partido de Esquerda, em alemão) alcançou 29,7% dos votos, segundo resultados de pesquisa divulgados pela rede de televisão ARD. O AfD ganhou 23.8%, o CDU, 22.5%, o Partido Social Democrata (SPD), 8,5%, os Verdes, 5,4% e o Partido Democrático Liberal (FDP), 5%. O resultado deve dificultar a construção de coalizões.

Após ganhar assentos no parlamento nacional pela primeira vez em 2017, o AfD tenta agora criar impulso no leste e fez campanha em Turpingia pela “Mudança” (Wende, em alemão), adotando a palavra usada para descrever a queda da Alemanha Oriental comunista. 

“Os cidadãos de Turíngia votaram pelo Wende 2.0”, disse o líder da AfD no Estado, Bjoern Hoecke, após a divulgação da primeira pesquisa com os resultados do pleito. “Este é um sinal claro de que grande parte da Turíngia diz: ‘isso não pode continuar, precisamos de renovação’. Isso deve ser levado a sério”, afirmou Hoecke, um ex-professor de história anti-imigração, ao canal ARD. 

Polarização política

Tanto a CDU, de Angela Merkel, quanto o SPD, que juntos formam uma inusitada “grande coalizão” a nível nacional, perderam votos em relação à última eleição regional na Turíngia, em 2014.

A AfD mais que dobrou sua votação, enquanto os votos no Die Linke também avançaram, refletindo a polarização política do Estado, que teve os partidos dos dois extremos do espectro político com os melhores desempenhos.

"No coração geográfico da Alemanha, mesmo todos os partidos de centro combinados não formariam maioria”, disse o diretor-geral da consultoria Teneo, Carsten Nickel, sobre o resultado, que marcou uma noite difícil para os líderes da CDU em Berlim.

“À luz de outra forte demonstração da extrema-direita, o debate da CDU sobre o caminho certo para o mundo pós-Merkel certamente continuará”, acrescentou Nickel.

Após quase um ano de a CDU a ter escolhido como líder, Annegret Kramp-Karrenbauer não conseguiu impor sua autoridade no partido e os membros estão debatendo se ele é a pessoa certa para suceder Angela Merkel como chanceler.

Bodo Ramelow, que se tornou o primeiro premiê estadual do Die Linke em 2014, quando se uniu ao SPD e aos ecologistas dos Verdes na Turíngia, disse à rede de televisão alemã ARD que se vê "claramente fortalecido". "Meu partido claramente tem o mandato para governar, e eu o aceitarei”.

A pesquisa de boca de urna deste domingo, 27, no entanto, mostrou que a combinação pode não alcançar maioria, o que significa que Ramelow provavelmente terá que formar uma nova coalizão para manter-se à frente do govenro do Estado.

Nenhum dos partidos quer formar uma coalizão com a AfD. Um dos diversos movimentos nacionalistas que atingem a Europa, a AfD é o terceiro maior partido na atual legislatura a nível nacional na Alemanha, atrás da CDU e do Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda.

Hoecke, líder da Afd, recebeu críticas de líderes judeus e políticos tradicionais por chamar o memorial do Holocausto de Berlim de “monumento da vergonha” e pedir que escolas ensinem sobre o “sofrimento alemão” durante a Segunda Guerra Mundial.

A postura ultra-direitista de Hoecke vem rompendo a unidade da AdD. Seu movimento para puxar o partido mais para a direita tem alarmado membros mais moderados do partido, cientes de que sua posição anti-imigração agressiva dificilmente deve ganhar força entre eleitores no lado ocidental da Alemanha.   

Em julho, membros do AfD condenaram o aumento da influência de Hoecke no partido. A disputa pela direção futura do partido deverá atingir seu ápice na conferência do partido, em dezembro. 

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