Juan Medina/Reuters
Juan Medina/Reuters

Ultradireita avança em eleição na Espanha 

Partido extremista Vox levará radicais de volta ao Parlamento espanhol após 36 anos 

João Paulo Carvalho, Especial para o Estado / Jaén, Espanha , O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 05h05

Em nenhum outro lugar da Espanha a súbita ascensão dos ultradireitistas do Vox é tão significativa quanto na Andaluzia, região que já foi reduto do socialismo espanhol. Em 2015, o partido radical tinha 3 mil filiados no país todo. Hoje, são 50 mil – 2 mil apenas em Sevilha, maior cidade andaluz. 

Durante as celebrações da Semana Santa, data religiosa mais importante da Espanha, as pautas pelas ruas da cidade de Jaén, na Andaluzia, eram duas: as eleições gerais, que serão realizadas neste domingo, 28, e a ascensão do Vox. “Só roubaram por aqui. Acho que agora é a hora de uma mudança drástica. Precisamos de um governo firme, que faça com que o país cresça”, diz a aposentada Marisol Soledad Olmo Villar, de 88 anos. “Chega. Estamos no limite. Queremos uma Espanha livre da ameaça do socialismo.”

A poucos metros dali, jovens com idade entre 18 e 25 anos se reúnem próximo à catedral de Jaén. O intuito é promover um debate sobre política. “Meu voto é do Vox, claro. As pessoas pensam que os eleitores do partido são todos velhos e conservadores. Preciso de emprego e quero um país melhor para meus filhos. Aqui tem muito imigrante. Não acho certo. Está mais do que justificado”, afirma o estudante Juan Ortega, de 23 anos.

Representação

Em dezembro, pela primeira vez em 36 anos, uma força de ultradireita obteve representação parlamentar na Espanha. O partido político Vox conquistou ao todo 12 cadeiras no Congresso regional de Andaluzia, reduto historicamente da esquerda. Até então, o país, que no século 20 passou por três décadas da ditadura de Francisco Franco, vinha resistindo à onda populista de direita que chegou à Europa. 

Com a vitória regional, o Vox, liderado por Santiago Abascal, deu um passo gigante para eleger representantes nacionais e ser peça fundamental no próximo governo. Algo que, há alguns anos, era inimaginável para um partido considerado pequeno.

“É impossível que o Vox tenha votos suficientes para formar o governo e indicar o primeiro-ministro da Espanha. A intenção do partido não é essa. O objetivo é crescer e conquistar visibilidade nacional. Seria o primeiro partido de extrema direita a entrar no Legislativo desde 1982, quando Blas Piñar, do Força Nova, que reivindicava a herança do franquismo, deixou o cargo de deputado”, afirma o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Nacional de Madri, Jaime Pastor Verdú.

Em fevereiro, o premiê espanhol, o socialista Pedro Sánchez, convocou eleições antecipadas depois que sua proposta de orçamento foi derrotada no Parlamento por uma aliança de partidos de direita – PP (Partido Popular) e Ciudadanos – mais os independentistas catalães. 

A eleição é a quarta em oito anos e deve favorecer a formação de uma maioria parlamentar conservadora, que inclui o Vox. As últimas pesquisas divulgadas previam 8% de intenções de voto para a legenda. Isso seria o suficiente para o partido garantir entre 25 e 30 assentos no Parlamento.

Nas ruas de Madri, dezenas de jovens adeptos do Vox distribuem panfletos e oferecem informações sobre o partido. A estratégia é persuadir a classe trabalhadora, que ainda está indecisa. “Eu acredito no Vox e em suas ideias para a Espanha. Esse discurso da esquerda não dá mais”, afirma o estudante Rafael Herrera, de 27 anos. 

A panfletagem quebra o paradigma de que apenas a elite conservadora e mais velha da Espanha é adepta das ideias do Vox, como bem lembra o professor Verdú. “Há de tudo. É impossível estereotipar. Claro que o público mais velho ainda é majoritário. Os jovens, porém, também gostam das ideias do Vox porque se sentem representados. Há um descontentamento geral da juventude com o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e o PP, que dominaram politicamente a Espanha nos últimos anos”, diz.

Fundado em 2013 por ex- militantes do PP, o Vox defende uma política de imigração mais severa e faz críticas à União Europeia. Nos últimos anos, a Espanha se tornou rota de imigrantes e de refugiados que tentam chegar à Europa pelo Mediterrâneo. O Vox ainda rejeita leis que protejam as mulheres contra a violência doméstica, também é contra o aborto e o casamento gay. A principal bandeira da legenda é seu posicionamento contrário ao separatismo catalão. Javier Ortega, secretário-geral do Vox, quer que os partidos secessionistas sejam banidos da Espanha.

Redes sociais 

Pequeno, o partido Vox, que até dezembro não tinha representação parlamentar, faz das redes sociais seu maior trunfo. O perfil da legenda do Instagram conta com mais de 250 mil seguidores. O Vox também mantém um contato direto com seus eleitores por mensagens de WhatsApp. 

O número de filiados ao partido já passa de 15 mil e Madri deve ganhar uma nova sede até a metade do ano. Para tentar superar a imagem de rigidez, o Vox conta com o apoio de figuras públicas de renome: um comediante, um ex-apresentador de TV e um toureiro estão entre as personalidades que aderiram ao partido mais recentemente. 

Muito da popularidade do Vox nos últimos anos se deve à imagem de um líder virtuoso e de retórica poderosa. Santiago Abascal é elegante e inteligente. Filho de um político basco do Partido Popular (PP, conservador), sofreu diversas ameaças de morte e chegou a carregar uma pistola para se proteger.

Na semana passada, o Vox se envolveu em uma polêmica. Às vésperas dos debates mais importantes da TV, um na emissora Antena 3, do grupo Atresmedia, e outro na televisão estatal, TVE, a junta eleitoral impediu o partido de participar. 

O órgão alegou problemas de “proporcionalidade”, de acordo com as pesquisas de intenção de voto. A decisão foi tomada depois da reclamação de alguns partidos regionais. 

“Lamentável. Isso é vergonhoso”, declarou o Vox, em nota oficial à imprensa. Desta forma, os debates contaram apenas com três candidatos: Pedro Sánchez, do Partido Socialista (PSOE), Pablo Casado (PP), Albert Rivera, do Ciudadanos, e Pablo Iglesias, do Podemos. 

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