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Gilles Lapouge
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Um acordo para o Irã

Até Le Figaro (jornal de direita) felicitou o socialista François Hollande no dia seguinte ao acordo nuclear assinado com o Irã pelo grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha). Após mais de um ano em que todos começávamos o dia com um artigo do Figaro esbravejando contra Hollande e seu grupo, hoje, tudo mudou. E achávamos já ter visto de tudo!

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2013 | 02h08

De fato, a França teve papel importante desde que, em 2002, foi descoberto o programa nuclear iraniano não declarado. Depois disso, a estratégia de Paris nunca mudou: por um lado, evitar que o Irã construísse a bomba atômica, e ao mesmo tempo, impedir que Israel, e quem sabe os EUA, bombardeassem instalações iranianas.

Além disso, no início do mês, a França bloqueou um acordo que Barack Obama, ansioso por obter a recompensa pela paciência que teve com o Irã durante cinco anos, estava prestes a assinar. Paris acaba de obter ganho num ponto fundamental, o reator de plutônio de Arak.

Mas não exageremos: o verdadeiro vencedor ao longo de todo o processo são os EUA. Os jornais nos informaram que os homens de Obama preparavam sigilosamente o acordo sem nada informar aos aliados havia muito tempo, antes mesmo que o moderado Hassan Rohani fosse eleito presidente do Irã em 14 de junho. Portanto, desde a época de Mahmoud Ahmadinejad.

No Irã, o acordo de Genebra consolidará a autoridade de Rohani perante o líder supremo, Ali Khamenei, que lhe deu plena liberdade de ação, e principalmente perante a irredutível Guarda Revolucionária. Ele conta com o apoio maciço da opinião pública iraniana, esgotada depois das loucuras que converteram um país rico numa "imensidão de ruínas", em razão das sanções.

Os aiatolás não pararam de insultar o "Grande Satã" (os EUA), mas o povo iraniano continuava fascinado pelos EUA, seu estilo de vida, tecnologia digital, roupas, comportamento. É para lá que os iranianos ricos sonham em enviar os filhos. Agora, o acordo de Genebra facilitará a chegada da tão esperada tecnologia americana, particularmente no setor petrolífero, e o desbloqueio do dinheiro iraniano. O comércio e, portanto, a economia deverão florescer.

Poderemos prever também mudanças profundas no mapa geopolítico do Oriente Médio, e portanto mundial? Seguramente, pelo menos se o acordo perdurar. Uma nova potência regional sobe agora ao palco: o Irã, que desperta a admiração de várias capitais islâmicas, porque soube conduzir esses acordos com sucesso, sem entretanto atenuar seu discurso anti-Israel. Os países do Golfo (Arábia Saudita e Catar) terão de aceitar que um novo interlocutor participe do diálogo da região com os EUA e o Ocidente.

A chegada desse novo ator influirá em todos os dramas que abalam permanentemente a região. Trata-se de um peso pesado. O Irã é um país culturalmente muito evoluído. É muito mais populoso do que a Arábia Saudita e seus recursos naturais são importantes.

Se o acordo assinado em Genebra não fracassar, a possível redistribuição dos papéis deverá satisfazer os EUA. Depois de tantos anos de silêncio, inatividade ou complacência em relação à Arábia Saudita e ao Catar, Washington começa a mostrar irritação com o jogo duplo dos dois países entre Ocidente e Islã. Uma potência como o Irã pode agora servir de contrapeso às monarquias do Golfo.

Alguns imaginam que o Irã tentará uma abertura na direção da Arábia Saudita. Ao que tudo indica, Hassan Rohani gostaria de restabelecer alguns vínculos menos arriscados com os países do Golfo. Mas outro obstáculo ameaça travar os esforços: a questão religiosa. E quanto a Israel, às vésperas da possível reorganização? Israel está bastante preocupado. E não há dúvida de que sua preocupação é plenamente legítima. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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