Um alerta para Erdogan

Protestos complicam planos do premiê, que terá dificuldade para obter apoio dos turcos

É JORNALISTA, SULE, KULU, , THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, SULE, KULU, , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2013 | 02h05

"A história mostra que, se as nações não conseguem trabalhar para que todos vençam, seu destino é todos saírem perdendo", disse o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, no primeiro aniversário de sua reeleição, em 2007. "Defendemos a liberdade, a justiça, a democracia e o bem-estar de todos". Na ocasião, ele prometeu que seu partido, conhecido pelas iniciais AKP, acolheria todas as camadas da sociedade e chegou até a agradecer àqueles que não votaram nele.

Cinco anos depois, ele é cada vez mais criticado por desrespeitar o estilo de vida dos cidadãos e interferir em suas opções pessoais. Seu governo elaborou e aprovou leis sem consultar a sociedade. Uma lei restringindo a venda de bebida alcoólica foi aprovada dia 24 pelo Parlamento por meio de uma emenda de última hora.

Duas semanas depois, de novo sem consultar a população, ele iniciou a demolição de um parque muito popular como parte do projeto de reforma da Praça Taksim. O protesto de um pequeno grupo que se opunha à demolição transformou-se numa mobilização em massa por todo o país depois de a polícia reprimir com força excessiva os manifestantes.

Complô. Como um político competente, inteligente e experiente, Erdogan superou inúmeras crises no passado, incluindo uma tentativa de golpe militar, em 2007, mas não conseguiu avaliar o quadro atual. Nos últimos dias, ele tem afirmado que os manifestantes foram mobilizados pela oposição, especialmente o bloco ultranacionalista e secular liderado pelo Partido Republicano do Povo (CHP).

Segundo Erdogan, o problema não é o parque, mas uma campanha coordenada contra ele por aqueles que se opõem a suas medidas políticas por razões partidárias. O que, para ele, é compreensível, uma vez que seus oponentes ignoram as realizações importantes do AKP. Contudo, um rápido exame é suficiente para confirmar que a oposição que tomou conta da Praça Taksim é diferente.

Trata-se de um movimento completamente apartidário, formado por liberais, conservadores, independentes e até mesmo eleitores do AKP. Sua causa foi depois ofuscada por alguns grupos violentos, que prejudicaram a imagem pública dos protestos realizando atos de vandalismo, pilhagens e atacando mulheres que usavam véus. Mas o grupo que protestava no início, como também aquelas pessoas que participaram de outras manifestações, formavam uma camada representativa da sociedade.

Erdogan continua refratário, mas tem recebido críticas até mesmo dentro do próprio AKP. É o caso do vice-premiê Bülent Arinç. Ele afirmou que as autoridades deveriam se comunicar com os manifestantes em vez de atacá-las com gás lacrimogêneo. Arinç elogiou abertamente o tribunal administrativo local que ordenou a suspensão do projeto da praça em meio aos protestos.

O ministro da Educação, Nabi Avci, disse que o governo fez o que a oposição secular não conseguiu durante anos: em cinco dias, a repressão produziu uma massa de manifestantes contra o governo. Conseguiu unir até torcedores de times de futebol arquirrivais de Istambul.

Tensão política. Os protestos atingem Erdogan numa época inoportuna. Ele está em campanha para mudar a Constituição e dar mais poderes ao presidente, que hoje tem um papel cerimonial. Quando as manifestações irromperam, ele ainda não havia convencido a população, mas a sociedade turca aprendeu, nos seus mais de dez anos de governo, que ele sempre consegue, cedo ou tarde, implementar seus planos.

Agora, muitas pessoas expressam abertamente sua preocupação com o sistema presidencial almejado por Erdogan. Os recentes protestos devem complicar seus planos para disputar a presidência e será difícil para ele convencer e conquistar apoio das massas que ele agora se recusa a ouvir.

Ao contrário de Erdogan, o presidente turco, Abdullah Gul, disse que "democracia não significa somente eleições" e garantiu que "a mensagem dos manifestantes foi recebida". "O que for necessário será feito", disse Gul. O vice-premiê Arinç também adotou um tom conciliatório e se desculpou pelo uso excessivo da força policial.

A tensão diminuiu, mas a Turquia não será a mesma depois dos protestos. Embora Erdogan afirme que a maioria do país o apoia, com base em recente pesquisa, ele precisa levar em conta as multidões antes de tomar qualquer decisão sobre a vida pessoal dos cidadãos.

Erdogan recebeu um cartão amarelo - uma advertência para retornar ao seu programa de reformas e abrir os canais de comunicação com todos os segmentos da sociedade, incluindo os que não votaram nele. A oposição, que gostaria que o premiê recebesse um cartão vermelho, terá de esperar até a próxima eleição, em 2015. A menos que ele encontre uma forma de chegar à presidência antes disso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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