Um alívio para Gaza, mas não a solução

Organizações de ajuda humanitária e comunidade internacional pedem a entrada de mais produtos no território; palestinos exigem fim total do cerco

IAN BLACK, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

A resposta da comunidade internacional à decisão de Israel de abrandar o bloqueio à Faixa de Gaza foi fria, enquanto que os palestinos exigiram a suspensão total do cerco. Para as organizações de ajuda a medida é inadequada.

A decisão israelense, tomada após a cólera provocada pela sua sangrenta intercepção da Frota da Liberdade, acaba com as restrições à entrada de alimentos e alguns outros produtos no território. Mas o bloqueio continua no caso de materiais de construção, urgentemente necessários.

As expectativas de um desbloqueio bem mais amplo, levantadas pela disputa envolvendo o assassinato de nove ativistas turcos pelos comandos israelenses, foram frustradas, em parte porque o anúncio feito por Israel não continha muitos detalhes. Israel continua mantendo um bloqueio marítimo rigoroso para impedir que armas sejam contrabandeadas para Gaza.

Autoridades da União Europeia disseram estar decepcionadas com a decisão. O Hamas, no controle de Gaza desde 2007, rechaçou as medidas como triviais. Segundo a Autoridade Palestina, na Cisjordânia, o bloqueio tem que acabar completamente.

Ehud Barak, ministro da Defesa de Israel, alertou o Líbano que será responsabilizado por qualquer "confronto violento", já que uma nova frota com ajuda deve zarpar para Gaza. Os organizadores dizem que o Mariam, transportando mulheres árabes e europeias, e o Naji al-Ali, partirão de Beirute nos próximos dias e tentarão furar o bloqueio. A decisão de Israel não reduzirá a pressão para melhorar as condições de vida dos 1,5 milhão de habitantes de Gaza, que vivem com ajuda humanitária limitada e produtos contrabandeados do Egito.

Para especialistas, uma questão-chave é o que significa a promessa de "expandir a entrada de materiais para projetos civis sob supervisão internacional". Se ela se refere apenas à ONU o impacto será limitado. O anúncio feito não faz menção a prazos nem monitoramento de produtos com "dupla utilidade" pela comunidade internacional. Tampouco se refere à abertura de fronteiras, à permissão de exportações, à livre movimentação de pessoas e à ajuda tão necessária para a reconstrução de uma economia dilacerada.

"A medida anunciada é um passo bem-vindo, mas ainda é muito pequeno, não é a grande abertura esperada pela população de Gaza", disse Olga Ghazaryan, da Oxfam. Para Salam Kahaan, da organização Save the Children, "apenas abrandar o bloqueio, permitindo a entrada de mais produtos, não basta. O que dizer das crianças doentes que necessitam de atendimento médico urgente fora de Gaza? Elas e suas famílias poderão atravessar a fronteira?"

O anúncio deixa claro que Israel não pretende pôr fim à sua punição coletiva da população de Gaza, apenas aliviá-la", disse Malcom Smart, da Anistia Internacional. "Não é suficiente."

A chefe da política externa da UE, Lady Ashton, insistiu para que Israel garanta que "muito mais produtos cheguem a Gaza". Em privado, os diplomatas disseram temer semanas ou meses de negociações pela frente.

O problema político espinhoso é que EUA e União Europeia insistem no fim de um bloqueio "inaceitável e insustentável", mas compartilham com o objetivo de Israel de tentar enfraquecer o Hamas, que tem mais ou menos mantido um cessar-fogo de facto desde a guerra do ano passado. O Hamas ainda detém o soldado israelense Gilad Shalit. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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