Shannon Stapleton/ Reuters
Shannon Stapleton/ Reuters

Um ano após ataque ao Capitólio, alto escalão de Trump segue sem punição

Departamento de Justiça dos EUA não dá sinais de que pretende indiciar ex-presidente ou pessoas do seu entorno que incentivaram insurreição popular

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2022 | 05h00

WASHINGTON - O Departamento de Justiça dos EUA diz que a investigação do ataque de 6 de janeiro de 2021 contra o Capitólio é a maior de sua história. Autoridades realizaram mais de 700 prisões e estimam que até 2,5 mil pessoas possam ser indiciadas.Mas uma grande sombra ainda paira sobre o inquérito, que não parece punir a elite política que incentivou a insurreição.

Até agora, o secretário de Justiça, Merrick Garland, não deu sinais de que pretende processar o ex-presidente Donald Trump e seus aliados, que ajudaram a fomentar o caos com alegações sem fundamento de fraude eleitoral. 

No Congresso, apenas a comissão especial da Câmara dos Deputados, dominada pelo Partido Democrata e formada para investigar o ataque, sinalizou disposição de recomendar os indiciamentos de Trump e de alguns aliados. Mas não será fácil. Mesmo os processos contra aqueles que invadiram o Capitólio estão cercados de desafios. 

O primeiro deles é como aplicar a Justiça individualmente a centenas de réus que se juntaram para formar uma turba violenta, além de superar tribunais sobrecarregados e condições precárias das prisões de Washington, onde alguns estão detidos sem direito a fiança. 

Um ano após a invasão, agentes federais de quase todos os Estados analisaram relatórios de informantes, testemunhos, postagens e mensagens obtidas com autorização da Justiça. Eles viram 14 mil horas de gravações de TVs, circuitos de segurança e câmeras corporais usadas por policiais. 

Ao todo, 225 pessoas foram acusadas de atacar ou atrapalhar a polícia. Cerca de 275 foram indiciadas por obstruir a certificação da eleição presidencial de 2020. Pouco mais de 200 pessoas foram acusadas de crimes comuns, na maioria invasão e conduta desordeira. 

Apelações

Até agora, mais de 160 réus – cerca de 20% dos indiciados – se declararam culpados; e aproximadamente metade já foi sentenciada. Robert Palmer, que arremessou um extintor de incêndio contra policiais, foi condenado a mais de 5 anos, a maior pena até agora. Em novembro, Jacob Chansley – conhecido como “Xamã do QAnon”, que invadiu o Senado vestindo um capacete com chifres – foi condenado a 41 meses, e está apelando da sentença.

Longe das manchetes, porém, há muitas condenações de menor destaque: pedreiros, avós, universitários, artistas, líderes religiosos e caminhoneiros que admitiram ter entrado ilegalmente no Capitólio. Muitos evitaram a cadeia, sentenciados a penas de liberdade condicional ou prisão domiciliar. Outros receberam sentenças brandas de algumas semanas.

Diante de um juiz, os acusados de crimes menos graves expressaram arrependimento. Alguns caíram em prantos. Em um dos julgamentos, o réu desmaiou. Outros juraram que nunca mais participariam de uma insurreição política. 

Desde o início, porém, os promotores têm enfrentado um problema: nunca na história congressistas precisaram fugir durante a certificação eleitoral. Portanto, qual lei deveria enquadrar esses crimes? A preferida foi a obstrução do Congresso, com frequência aliada a acusações de invasão, vandalismo e agressão. 

Alto escalão

 Ainda não está claro se os advogados de Trump – Sidney Powell e Rudolph Giuliani –, que disseminar mentiras sobre a eleição, serão indiciados. Enquanto isso, o ex-presidente e seus aliados continuam tentando reescrever a história da insurreição por meio de uma campanha de desinformação. “A verdadeira insurreição aconteceu em 3 de novembro, na eleição presidencial, não no 6 de janeiro, que foi um dia de protesto contra o resultado fraudado”, disse Trump. 

Alguns comentaristas e políticos conservadores qualificaram os participantes do ataque como “turistas” ou “mártires”, qualificando-os como “presos políticos”. Eles também culpam agentes do FBI e militantes de esquerda, que teriam invadido o Capitólio disfarçados de eleitores de Trump. 

Muitos réus, porém, testemunharam nos tribunais que se sentiram traídos pelo ex-presidente. Na audiência em que foi sentenciado, por exemplo, Palmer afirmou que havia percebido recentemente que a narrativa de fraude era falsa. “Na verdade, os tiranos eram eles, que estavam desesperados para se manter no poder a qualquer custo”, disse. / NYT, COM TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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