AP Photo/David Goldman
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Um ano após massacre em Orlando, feridas dos parentes das vítimas ainda não cicatrizaram

Dor provocada pela lembrança do atentado faz com que muitas pessoas optem por deixar a cidade durante estes dias

O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2017 | 15h13

ORLANDO, EUA - Os atos em homenagem aos 49 mortos no massacre da boate Pulse, em Orlando no dia 12 de junho de 2016, ainda representam para os parentes das vítimas e sobreviventes uma grande "dor" e reabrem as feridas provocadas pela ação, fazendo com que muitos optem por deixar a cidade durante estes dias.

A assistente social Nancy Rosado, policial de Nova York durante 21 anos, aproveita a experiência adquirida após os atentados às Torres Gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, para estar perto das famílias e vítimas de Orlando e tentar "dar sentido ao que não tem".

Nancy, que faz parte da comunidade LGBT e é porto-riquenha - como grande parte das vítimas daquela noite -, explica que este aniversário é um momento difícil para muitos dos afetados pela ação, que também deixou 58 feridos.

Ela explicou que os últimos dias estão sendo "muito duros" porque, após um ano, a dor é a mesma. De fato, com tantas homenagens, a mãe de uma das vítimas chegou a lhe dizer: "É como se quisessem me dar o meu filho em pedacinhos”. "Recuperar-se dos traumas leva tempo, tem que ir devagar", diz Nancy.

Um exemplo deste "conflito" é o caso de Víctor Alberto Báez, que saiu ileso do massacre ocorrido na boate, mas perdeu duas amigas, Amanda Alvear e Mercedes Flores. Mesmo sem se machucar, as sequelas psicológicas ainda persistem e ele não consegue suportar a ideia de estar em Orlando durante estes dias tão emocionantes.

A mãe dele, Iris Febo, comenta que seu filho decidiu sair da cidade após ver os vídeos que a polícia local divulgou no fim de maio, com as imagens captadas pelas câmeras dos agentes que intervieram na operação e até mesmo a morte do assassino, Omar Mateen.

Nos vídeos aparece o próprio Báez, que se salvou ao se esconder durante mais de uma hora em um pequeno armazém do local, onde ficou debaixo de uma tábua de madeira e permaneceu totalmente às escuras enquanto ouvia os disparos e os gritos das vítimas.

Por isso, nestes dias toda a família viajou para "muito longe" de Orlando, querendo evitar que o jovem tivesse que reviver os trágicos momentos sofridos há um ano.

Assim como ele, outros sobreviventes optaram por deixar a cidade, enquanto 29 deles viajaram para Boston, em Massachusetts, onde no fim de semana foi realizada a tradicional marcha do Orgulho Gay, que homenageou as vítimas.

Desde o massacre, Báez tentou seguir sua vida do modo mais normal possível e continuou trabalhando e estudando, o que, na opinião de sua mãe, ajudou a "passar este tempo" da melhor maneira possível. "Foi muito duro. Houve momentos bons, mas outros em que houve recaídas. Se eu as tive, imagine ele?", explica Iris.

A mãe revela que a psicóloga que atende Báez está "impressionada" com as memórias tão vívidas que o jovem ainda tem daquelas trágicas horas e não quis relembrar estes dias em Orlando.

Nancy comenta que, apesar do medo provocado pelo massacre na boate, os mais jovens da comunidade LGBT saem e enchem as casas noturnas, talvez porque sejam mais "corajosos".

Enquanto isso, e após estes 12 meses, os afetados pelo incidente estão mais "tranquilos", vão perdendo o medo e deixando de se preocupar com o que está a sua volta. Uma certa tranquilidade que compartilha a família de Eric Iván Ortiz-Rivera, uma das vítimas do ataque. A irmã dele Frances explica que sua mãe está "muito bem e, dentro de um todo, tranquila" e que "encarou todo o processo em paz".

Esse espírito é o que lhe permitiu viajar esta semana de Porto Rico para participar ativamente nos atos em homenagem a seu filho e às outras 48 vítimas inocentes do massacre. / EFE

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