Um ano após o terremoto, 800 mil haitianos seguem desabrigados

Economia do país, o mais pobre das Américas, sofreu contração de 7% em 2010

estadão.com.br,

11 de janeiro de 2011 | 23h08

Mulher lava roupa em meio a destroços. Foto: Kena Betancur/Reuters

 

PORTO PRÍNCIPE - Entulho espalhado por toda a parte, corpos sendo recuperados sob casas demolidas, desabrigados vagando sem objetivo nas ruas da capital Porto Príncipe e uma população inteira sem esperança de futuro, vivendo sob as mínimas condições de higiene e nutrição. Essa é a imagem do Haiti um ano depois de o país ser devastado por um terremoto de magnitude 7.

 

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Doze meses depois da tragédia de 12 de janeiro de 2010, pouco parece ter mudado no Haiti. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), 800 mil haitianos seguem desabrigados e vivem em condições miseráveis. A maioria dos sobreviventes - cerca de 1,3 milhões - vive em campos de desabrigados, que somam cerca de 1.150.

 

A reconstrução segue como o principal desafio do Haiti. Menos de 5% do entulho produzido elas demolições foi retirado das ruas. Os haitianos sofrem com falta de abrigos, de alimentos, de água potável. A atuação do governo é praticamente nula, há pouquíssima força policial e a pouca infraestrutura do país sofreu danos irreparáveis.

 

"Nós temos o suficiente para sobreviver, mas não o bastante para viver", disse Dieusin St. Vil, um alfaiata de Porto Príncipe. Tudo do que ele sua família dispõem vem da caridade de governos e organizações não-governamentais estrangeiros. "Do governo haitiano, não vem nada. Para que vive nas barracas, não há futuro. Só o presente".

 

A economia do Haiti já era a pior do hemisfério, mas sofreu uma contração de 7% em 2010, segundo o Banco Mundial. Sem locais para se construir, as obras de novas moradias ainda engatinham. Além disso, apenas 15% dos abrigos temporários necessários foram construídos, com poucas instalações permanentes de água e saneamento básico.

 

"A comunidade internacional não fez o bastante para apoiar o governo e as lideranças no Haiti", informou o grupo de ajuda internacional Oxfam em um relatório recente. "Agências de ajuda continuam a contornar as autoridades locais no que diz respeito à assistência e os doadores não consultam o povo haitiano para coordenar as ações", continuou.

 

Não bastassem os problemas trazidos e agravados pelo tremor, um surto de cólera passou a assolar o país a partir de outubro, piorando a situação da população haitiana. Mais de 3.500 pessoas morreram por conta da doença entre as mais de 155 mil que foram contaminadas.

 

Além da carência sanitária, há carência política. Com as eleições de novembro mal resolvidas, não há previsão sobre quando ocorrerá o segundo turno, nem mesmo quem serão os candidatos que o disputarão. O clima de instabilidade, consequentemente, mergulhou o país em uma nova crise - desta vez, de segurança pública.

 

O envio de ajuda, intenso logo após o desastre, perdeu força nos meses seguintes, e o Haiti voltou a cair no esquecimento. A ajuda imediata da comunidade internacional somou US$ 3,5 bilhões. Na conferência de doadores, em 31 de março, mais de US$ 5,3 bilhões foram prometidos para o país para um período de 18 meses. Apenas US$ 824 milhões foram entregues até agora.

 

A falta de progresso visível leva o ceticismo aos haitianos. "Parece que passou uma semana depois do terremoto. Tivemos o terremoto, então a cólera, então as eleções, agora a crise depois das eleições. Viramos uma nação dividida, uma nação que perdeu a solidariedade", disse Mario Viau, diretor de uma rádio na capital.

 

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