Um ano de papado latino

Pouco mais de um ano depois de eleito papa, o carismático Francisco continua fazendo onda. Foi capa da Rolling Stone e Personagem do Ano da revista Time. Até a badalada The Advocate, porta-voz da comunidade homossexual americana, estampou o pontífice na sua capa, num fundo azul celeste.

Mac Margolis,

18 Maio 2014 | 02h05

Teólogos, líderes políticos e vaticanistas não param de comentar o primeiro ano de Francisco. O religioso argentino ostenta 13 milhões de seguidores na sua conta Twitter. Seu antecessor, o sisudo Bento 16, que assumiu o posto em abril de 2005 e renunciou em fevereiro de 2013, tinha 3 milhões acompanhando seus tuítes.

Menos claro é o que o primeiro papa latino-americano pretende fazer com todo esse capital político para encantar a um rebanho contundido e cada vez mais vacilante.

Para alguns, Francisco está renovando a casa de São Pedro. Outros o veem como revolucionário, com seus brados contra o capitalismo selvagem e votos para "uma igreja pobre para os pobres". Para os fiéis em crise, soam moralizantes suas declarações contundentes tanto contra a pedofilia quanto contra os sacerdotes que a acobertam.

No gesto e nas palavras, o jesuíta faz jus à fama de despojado. Que outro pontífice telefonaria para a residência de uma fiel, como fez o papa semanas atrás? "É o padre Bergoglio chamando", anunciou-se.

Poderia parecer populismo religioso. De fato, foi estratégia pastoral. A fiel argentina havia escrito a Roma para perguntar se ela, apesar de casada com um homem divorciado, poderia receber a comunhão.

O Vaticano não confirma nem nega a conversa. Foi o marido da fiel que a divulgou na sua página no Facebook, assim como a resposta afirmativa do papa. Mas ninguém ignorou o sismo doutrinal. Não será Francisco a acusar de adúltera - como reza a tradição católica - uma devota que está a procura de bênção.

Por essas e outras, Francisco criou a fama de desbravador - e de camaleão. Seu antecessor fez de tudo para blindar a Igreja contra heresias modernas, tais como ordenar mulheres ou admitir a união entre homossexuais. Francisco, político hábil, não desmente a doutrina, mas calibra sua missão pastoral para os novos tempos.

Se quando prelado na Argentina ele travou briga de foice contra a legalização da matrimônio entre os sexos, batalha que perdeu para a Cristina Kirchner, agora contemporiza. "Se alguém é gay e procura o Deus quem sou eu de julgar", disse, para aplausos da bancada arco-íris.

Arriscado é. Para a ala ultraconservadora da igreja, Francisco é um herege. Já para quem anseia revolucionar a fé, ele é uma promessa tíbia de mudanças, com tudo ainda por fazer. Mas é essa vocação, de acolher um mundo em transição sem romper com o ensinamento milenar, que carimba o papado do argentino.

Regime militar. Esta é uma prática bem latino-americana. Foi fornida nos tempos de chumbo, quando o jesuíta Jorge Mario Bergoglio teve de conciliar o arrocho da ditadura militar argentina com os anseios de um bispado politizado.

Ora conseguiu escorar seus sacerdotes que desafiavam a ordem militar, ora aplacar a fúria dos generais, que não admitiam desaforo de batina. Ainda houve quem o acusasse de fazer jogo duplo e até de entregar dois de seus subordinados à masmorra da junta.

Essa dúvida anuviou sua carreira e a seguiu até Roma, até que um dos padres, vítima dos militares, se pronunciou, isentando-o de qualquer culpa.

Pastoral num país conflagrado não é fácil. Mas foi bom treinamento para as trincheiras de Roma. Francisco segue na corda bamba, entre a doutrina empoeirada e uma congregação em debandada.

Segundo uma pesquisa da Latinobarometro, o número de católicos na América Latina caiu de 80% em 1995 para 67% no ano passado, mas a confiança na igrejas subiu dez pontos, para 78%. Francisco ainda não conseguiu reverter o êxodo. Mas já levantou o astral de quem ficou.

É COLUNISTA DO 'ESTADO' E CHEFE DA SUCURSAL BRASILEIRA DO PORTAL DE NOTÍCIAS 'VOCATIV'

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