AP Photo/Vahid Salemi
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Um ano depois, acordo nuclear com Irã está sob risco com posse de Trump

Apesar de especialistas não acreditarem em anulação do pacto, eles projetam endurecimento nas relações dos dois países; futuro secretário de Estado de Trump quer 'revisão completa' do acordo

O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2017 | 08h17

WASHINGOTN - Um ano após a sua entrada em vigor, o histórico acordo sobre o programa nuclear iraniano corre riscos com a chegada à Casa Branca de Donald Trump, hostil ao pacto, considerado como um dos grandes êxitos do presidente americano, Barack Obama, e do colega iraniano, Hassan Rohani.

Em 16 de janeiro de 2016, grande parte das sanções internacionais impostas ao Irã foram revogadas em troca de restrições ao programa nuclear da República Islâmica, disposições previstas no acordo assinado seis meses antes entre Teerã e seis potências mundiais (Estados Unidos, Rússia, China, Grã-Bretanha, França e Alemanha).

O primeiro aniversário do acordo, nesta segunda-feira, 16, ocorre na mesma semana da posse do novo presidente americano, Donald Trump, marcada para a sexta-feira. Durante a campanha, Trump prometeu anular o acordo, e recentemente voltou a qualificá-lo de "horrível". 

Além disso, seu gabinete contará com personalidades abertamente anti-Irã, como o futuro secretário de Estado, Rex Tillerson, que quer uma "revisão completa" do acordo. "Os Estados Unidos fizeram tudo que puderam para atrasar os avanços do Irã" após o acordo, e sua "hostilidade aumenta a cada dia", afirmou no domingo Abas Araghchi, vice-ministro das Relações Exteriores que foi chefe dos negociadores iranianos do pacto.

Mas seja "Obama ou Trump", o presidente dos Estados Unidos "é obrigado a anular as legislações contrárias" ao acordo, garantiu. Para Fuad Izadi, professor da Faculdade de Estudos Mundiais da Universidade de Teerã, a chegada ao poder do republicano se traduzirá "certamente" em um "endurecimento da atitude" americana.

Os especialistas não preveem, porém, uma anulação do acordo, que levou anos de complicadas negociações para ser alcançado. 

Apesar de que "a situação irá se agravar, o acordo não será destruído (...), já que isso seria estúpido. Até o primeiro-ministro israelense (Binyamin Netanyahu) e os 'falcões' americanos dizem que não se deve fazer isso", afirmou Naser Hadian, professor de relações internacionais da Universidade de Teerã. Segundo este especialista, haverá um reforço das sanções americanas vinculadas aos direitos humanos no Irã, ao seu apoio ao "terrorismo" no Oriente Médio e ao seu programa balístico.

Mas uma eventual ação de Trump contra o acordo nuclear chocaria com a oposição dos países europeus, da Rússia e da China, que se declaram satisfeitos com sua implementação.

O vice-ministro do Petróleo iraniano, Amir Hosein Zamaninia, destacou no domingo que o acordo teve "resultados significativos para o país" mas "não transformou os Estados Unidos em amigo do Irã". Segundo o ministério, em nove meses o Irã dobrou suas exportações de petróleo e gás, o que levou à entrada de US$ 29 bilhões no país.

A suspensão das sanções também permitiu atrair grandes grupos internacionais, como o anglo-holandês Shell e, no setor automotivo, os franceses PSA e Renault.

Mas para o cidadão comum, a situação não mudou realmente. A inflação foi reduzida a menos de 10%, mas o desemprego voltou a crescer e já chega a 12,7% da população ativa, 27% entre os jovens com menos de 29 anos. / AFP

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