Middle East Monitor / Reuters
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Um ano depois da morte de Khashoggi, empresas desistem de boicote a sauditas

Arábia Saudita tem promovido eventos de entretenimento com artistas internacionais, reduziu as restrições aos direitos das mulheres e anunciou que turistas dos Estados Unidos e outros países podem obter vistos para visitar o país

Reed Albergotti, Josh Dawsey e Kareem Fahim, The Washington Post

02 de outubro de 2019 | 11h00

ISTAMBUL e WASHINGTON - Quando a Arábia Saudita acolheu uma conferência de investimentos importante semanas após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em outubro do ano passado, executivos de algumas das maiores instituições financeiras do mundo se desculparam e não foram ao evento temendo uma publicidade negativa que manchasse suas companhias.

Um ano depois e os ativistas de direitos humanos afirmam que o reino ainda tem de fazer justiça e responsabilizar as autoridades sauditas do alto escalão do reino pelo assassinato do colunista do The Washington Post ou revelar onde está seu corpo.

Mas líderes empresariais se mostram muito mais clementes. Dentro de algumas semanas executivos importantes de companhias como Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Citigroup e Black Rock retornarão ao reino para participar de uma conferência denominada Davos in the Desert.

Mais de 150 executivos confirmaram sua presença, incluindo 40 representando instituições americanas. O dirigente de fundo soberano da Rússia está na lista juntamente com outros executivos que representam grandes bancos, empresas de tecnologia, conglomerados e empresas contratadas no campo da defesa da Índia, Oriente Médio, Europa e Estados Jared Kushner, assessor da Casa Branca e genro do presidente Donald Trump também participará do encontro, liderando uma delegação americana, de acordo com fonte ligada a ele.

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Larry Fink, diretor executivo do Black Rock, que se retirou no ano passado do evento Future Investment Initiative, decidiu retornar à Arábia Saudita num esforço para promover mudanças no reino, onde o príncipe da Coroa, Mohammed bin Salman, tenta eliminar a dependência do seu país do petróleo, entendendo que uma maior integração e diversificação econômicas ajudarão o país a criar uma economia mais moderna e sustentável. Fink escreveu em sua página no Linkedin que também acha que o envolvimento corporativo e o diálogo público podem contribuir para essa evolução.

No ano passado, a Arábia Saudita trabalhou incansavelmente para mudar de assunto depois que agentes sauditas mataram Khashoggi no consulado saudita em Istambul, num complô que, segundo conclusão da CIA, foi aprovado pelo príncipe da Coroa.

O assassinato de Khashoggi deixou o governo na sua pior crise de relações públicas desde os atentados de 11 de setembro de 2001, quando o reino foi vilipendiado ao se saber que 15 dos 19 terroristas que perpetraram os ataques eram cidadãos sauditas.

Desde o assassinato de Khashoggi a Arábia Saudita tem promovido eventos de entretenimento importantes com artistas internacionais, reduziu as restrições aos direitos das mulheres e anunciou recentemente que, pela primeira vez, turistas dos Estados Unidos e outros países podem obter vistos para visitar o país.

No seu esforço para virar a página, o governo conta com aliados influentes, incluindo líderes políticos e empresariais. Trump é o mais

proeminente defensor do príncipe da coroa, afirmando que a parceria dos Estados Unidos com a Arábia Saudita e as vendas de armas para o reino não devem ser ameaçadas pelo assassinato de Khashoggi.

Líderes de bancos também têm um poderoso incentivo para manter relações cordiais com os sauditas – por exemplo, a muito esperada oferta pública inicial da Aramco, empresa estatal de petróleo. Analistas calculam que a companhia deverá ter uma valorização entre US$ 1,5 trilhão a US$ 2 trilhões, e o príncipe afirmou que gostaria de colocar em bolsa cerca de 5% da Aramco, a companhia mais lucrativa do mundo.

De acordo com informação do The Wall Street Journal, no início deste mês, a Aramco escolheu nove bancos para subscreverem seu registro, incluindo JPMorgan Chase, Goldman Sachs e Citigroup, cujos executivos sêniores devem participar da conferência em outubro, segundo a lista obtida pelo Post.

Rob Runyan, porta-voz do Citigroup, não disse se Michael Corba, diretor executivo que consta da lista,  pretende participar do evento.

Brian Marchiony, porta-voz do JPMorgan Chase, também não confirmou a presença de Carlos Hernandez, diretor global da instituição.

“Acho que muitas pessoas mudaram de ideia”, disse Karen Young, do American Enterprise Institute, referindo-se à atitude da comunidade empresarial com relação à Arábia Saudita diante do assassinato de Khashoggi.

Ao mesmo tempo a Arábia Saudita ainda luta para atrair investimento estrangeiro por razões não ligadas à péssima publicidade por causa dos abusos de direitos humano ou qualquer evento político, disse ela. O investimento externo no país já atingiu baixas históricas no final de 2017, quando o governo reuniu centenas de membros da família real e executivos de empresas e os aprisionou no hotel Ritz-Carlton em Riad, que o governo alegou ser uma ofensiva anticorrupção.

Desde a morte de Khashoggi no ano passado, o investimento estrangeiro na verdade aumentou, disse Young, citando a flexibilização gradual da evasão de capital e medidas moderadas adotadas pelo governo saudita para melhorar o ambiente de negócios.

Para os investidores sempre existe uma consideração do risco político; mas eles ficaram bem mais preocupados com os recentes ataques a instalações petrolíferas sauditas, que Estados Unidos e a Arábia Saudita culpam o Irã – do que a publicidade negativa gerada pelo assassinato de Khashoggi.

Um convite para o evento Future Investment Initiative, enviado por Yasir al-Rumayyan, diretor do fundo soberano da Arábia Saudita que foi nomeado chairman da Aramco, promete uma rede inigualável de CEOs, líderes mundiais e especialistas no evento. O convite, que foi examinado pelo The Post, não faz referência à recente agitação no país.

Adam Coogle, pesquisador do Human Rights Watch, estudioso do Oriente Médio, disse que o envolvimento de empresas estrangeiras com a Arábia Saudita não deve alterar o tratamento duro dos dissidentes e ativistas por parte do reino, não obstante declarações ao contrário de alguns líderes empresariais. “A noção de que a simples presença de mais empresas internacionais se traduziria em reformas no campo dos direitos humanos é ingênua”, disse ele.

“Até agora não se observou melhoras em temas importantes como a liberdade de expressão, estado de direito ou participação política e eu diria que essas áreas até pioraram sob o governo de MBS”, acrescentou Coogle, referindo-se ao príncipe da coroa.

As autoridades sauditas têm insistido que pretendem punir os responsáveis pelo assassinato de Khashoggi, apontando para o processo de 11 indivíduos que, afirmam, estão ligados ao crime.

O público e jornalistas estão impedidos de assistir ao julgamento dos 11 implicados, mas diplomatas dos Estados Unidos e outros membros do Conselho de Segurança das Nações Unidos foram autorizados, junto com mais um representante da Turquia.

Um setor que parece afastado da conferência de investidores é o Vale do Silício. No ano passado, representantes do Google, Uber e outras companhias de tecnologia planejavam participar do evento, mas a morte de Kahshoggi os levou a cancelar sua participação.

Um dos poucos aguardados é Jim Breyer, conhecido por conduzir o primeiro grande investimento de capital e risco no Facebook. A Magic Leap, com sede na Flórida, que vende fones de ouvido para computadores e é financiada em parte pelo fundo soberano saudita está enviando o seu diretor de produto, segundo a lista dos convidados.

Ausente na lista está Masayoshi Son, fundador e diretor executivo do SoftBank, empresa de capital de risco fundada com importante apoio financeiro do fundo soberano saudita. No ano passado, Son cancelou sua participação no evento. Mas ficou hospedado num hotel vizinho e teve reuniões com outros executivos participantes da conferência.

Son disputou com seus investidores sauditas no caso de quem ditaria as regras no caso do Vision Fund, de US$ 100 bilhões, segundo fonte familiarizada com o caso, observando que alguns membros da realeza saudita se irritaram com os contratempos. Por exemplo, Uber e Slack, que receberam grandes investimentos do Vision Fund, viram os preços de suas ações despencarem após a muito esperada IPO no início deste ano. 

O SoftBank é também o principal investidor da WeWork, cujo diretor executivo se demitiu recentemente depois de retardar o registro em Bolsa da companhia devido ao seu péssimo desempenho financeiro.

Outras firmas de financiamento de companhias de tecnologia e empreendedores contatados pelo The Post afirmaram que não pretendiam participar da conferência na Arábia Saudita porque o fluxo abundante de dinheiro já disponível no setor de tecnologia tornava o financiamento pelo reino desnecessário, e não valia a pena a dor de cabeça em termos de relações públicas.

Se líderes do setor de tecnologia se mantiverem afastados, isso prejudicará um dos principais objetivos da conferência, que é posicionar os investimentos em tecnologia na vanguarda da transformação econômica do país, disse Robert Mogielnick, do Arab Gulf

States, em Washington.

“Os sauditas estão muito atrás de outros Estados do Golfo Pérsico na criação de uma economia impulsionada pela tecnologia e o conhecimento. Mas a conferência tem outros objetivos importantes, como dar à economia do pais capacidade de se recuperar  depois de sucessivas tempestades econômicas e políticas – a controvertida campanha anticorrupção, a morte de Khashoggi, o envolvimento na guerra no Iêmen, a intensificação de tensões com o Irã, e os ataques em 14 de setembro às instalações da Aramco”,  afirmou.

Para os sauditas a grande questão e enviar a mensagem de que o país é seguro e o evento também é seguro. Os ataques contra as instalações petrolíferas juntamente com as investidas de um grupo rebelde iemenita contra aeroportos e outras áreas no sul da Arábia Saudita colocam em dúvida a segurança do Estado, opinou Mogielnicki.

O sucesso da conferência também depende da capacidade do reino de gerar entusiasmo no caso de outras iniciativas, incluindo a IPO da Aramco, projetos de turismo e entretenimento, e em torno de assuntos não relacionados com notícias sobre Jamal Kashoggi, acrescentou Mogielnicki. / Tradução de Terezinha Martino  

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