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Um antigo radical no gabinete do premiê

Britânico de origem paquistanesa integrou grupo extremista e hoje combate o discurso do terror

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

27 de março de 2016 | 05h00

Quando precisa falar sobre extremismo em seus discursos, o primeiro-ministro David Cameron tem a ajuda de Maajid Nawaz. O consultor, de 37 anos, de ascendência paquistanesa e nascido em Essex, interior da Grã-Bretanha, é um dos conselheiros do premiê sobre o tema, que conhece como poucos.

Quem conversa com o cortês fundador de uma ONG – a primeira do mundo criada para combater o extremismo – e membro do Partido Liberal britânico, não imagina que ele já foi líder de uma organização extremista e esteve pronto para morrer pela causa jihadista. 

Recrutado ainda na adolescência, com pouco mais de 15 anos, Nawaz passou a integrar o grupo radical islâmico Hizb al-Tahrir. Assim como o Estado Islâmico, o grupo tem base radical sunita e prega a criação de um califado regido pela lei islâmica (sharia). Em seus 13 anos na milícia, Nawaz teve papel de liderança na formação e disseminação da narrativa agressiva contra o Ocidente. 

No Oriente Médio, ajudou a formar novas células, mas no Egito seu trabalho chamou a atenção das autoridades e ele acabou preso. Entre sessões de tortura e momentos em que tinha certeza de que morreria, como relatou em seu livro Radical (lançado no Brasil pela editora Leya), teve uma epifania. Ao reconquistar a liberdade, passou a dedicar a sua vida a combater aquilo que o cativou: a ideologia extremista islâmica. 

Desde que lançou seu livro na Grã-Bretanha, em 2007, e fundou a organização Quilliam com um amigo, a questão do extremismo islâmico entranhado nas comunidades muçulmanas europeias só cresceu. Os atentados nos últimos meses, como os de Paris e o de Bruxelas, evidenciaram o desafio de se combatê-la. 

Mudanças. Ao mesmo tempo, segundo explicou Nawaz em entrevista ao Estado, os países se tornaram mais conscientes do problema, que ele atribui, em parte, à dificuldade de inserção daqueles que não se identificam com os países em que nasceram. 

Questionado por que tantos jovens, assim como ele, decidem se juntar aos grupos radicais, ele diz que é uma combinação de fatores, sobre a qual ele discorre em seu livro, e tem a ver com um sentimento de pertencimento, misturado a uma crise de identidade e à eficaz propaganda de recrutas carismáticos.

 

Na sua opinião, o Estado Islâmico elevou o recrutamento a outro patamar ao conseguir “transformar o terrorismo em uma marca” da qual as pessoas querem fazer parte. “A maneira como eles fazem isso, especialmente utilizando a internet, faz com que o extremismo se torne menos sobre recrutar, e mais sobre atrair as pessoas. Quando um produto se torna uma marca, como por exemplo, a Coca-Cola, as pessoas automaticamente começam a beber pelo simples fato de ela já ter uma reputação, uma ideia criada.” 

No livro, Nawaz fala de toda sua experiência, da dificuldade de se identificar na sociedade em que nasceu e como passou a ser percebido e tratado diferente, de um dia para o outro, pelos colegas da escola. Ao lidar com situações hostis, como ser barrado da partida de futebol que sempre jogou, se viu diante de uma situação na qual seus pais, paquistaneses, aconselharam “dar a outra face”. 

“As gerações anteriores acreditavam que não tinham o direito de lutar porque eram visitantes: eram imigrantes”, escreveu Nawaz em seu livro.

A diferença de comportamento entre as gerações, explicou ele, criou uma crise de identidade entre pais e filhos. “As primeiras gerações que chegaram aqui não necessariamente sofreram uma crise de identidade porque elas se identificavam com seus países de origem. Mas seus filhos sofreram por não se identificarem nem com o país de origem de seus pais, nem como parte da sociedade em que nasceram. É onde a vulnerabilidade emerge”, afirmou Nawaz ao Estado. 

Hoje, ele faz um trabalho de conscientização com a sociedade civil e aconselha o gabinete do premiê britânico na elaboração e formulação de leis que ajudem a compreender o debate sobre extremismo. Também faz parte da sua missão mostrar que a religião não está relacionada ao extremismo e nem todo muçulmano é radical. 

Para isso, explicou, ele tenta em seu trabalho conscientizar a própria comunidade muçulmana na Grã-Bretanha, que, segundo ele, deve mostrar que também está combatendo o extremismo. “O mínimo que podemos fazer é ter mais e mais muçulmanos envolvidos na sociedade, trabalhando com todos e desafiando o extremismo.” 

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