Um apartheid no Zimbábue?

Partidários do presidente Robert Mugabe querem criar uma bolsa de valores destinada apenas para empresas de negros

Aislinn Laing *, Christian Science Monitor - O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h06

Mais de uma semana depois de o homem forte do Zimbábue, Robert Mugabe, ter sido reeleito para mais cinco anos na presidência do país, seus ministros e os chefes partidários estão reivindicando um "mandato" para redistribuir a riqueza, assumir o controle de minas e bancos pertencentes a estrangeiros num valor aproximado de US$ 9 bilhões e criar um novo mercado acionário aberto somente a empresas pertencentes a negros.

Os novos planos, que, ao menos retoricamente, decorrem de promessas de campanha que Mugabe fez no primeiro semestre do ano, estão alvoroçando a capital zimbabuana, Harare, e encobrindo as vozes da oposição que afirmam que as eleições de 31 de julho foram fraudadas.

Em Harare, anúncios de página inteira em jornais publicados pelo partido de Mugabe falam de um plano quinquenal que moverá o Zimbábue para "um modelo de transferência de riqueza único, pelo qual pessoas comuns se encarregarão da economia".

Os críticos chamaram o novo mercado acionário paralelo exclusivo para negros de ideia "imatura" e uma espécie de "apartheid na Bolsa de Valores", enquanto as ações do mercado acionário real despencavam. Mas não está claro se o governo fará com bancos, minas e outras empresas o que fez com fazendeiros brancos dez anos atrás. A questão central é a política que Mugabe arquitetou, também conhecida como "reforma agrária", que foi planejada para corrigir vantagens de riqueza e propriedades, principalmente fazendas, pertencentes a brancos. Na prática, ela provocou um imenso êxodo da população rural branca à medida que fazendas magníficas eram confiscadas.

As dúvidas e temores sobre a extensão das ações que Mugabe empreenderá deixaram em suspenso qualquer direção mais liberal e aberta para a nação e suas empresas - e esmagaram os desejos de alguns dos 4 milhões de exilados e expatriados zimbabuanos de voltar para casa, segundo analistas.

Um economista zimbabuano, John Robertson, entrevistado pelo jornal The Guardian, falando sobre o proposto mercado acionário exclusivamente "negro", declarou: "Estamos introduzindo o apartheid na atividade da Bolsa de Valores. Eles (os governantes) estão tentando se apropriar de ativos que pertencem a brancos. Querem ter a certeza de levá-los para um mercado onde não possam ser readquiridos pelas pessoas de quem foram confiscados. Estão tendo uma atitude incrivelmente racista".

No dia 5, escrevi o seguinte: "Os zimbabuanos retornaram ao trabalho, hoje, nesta capital nublada e subjugada, enquanto a disputa sobre a vitória folgada de Robert Mugabe nas eleições continuava animada - e em meio a afirmações de pessoas próximas a Mugabe de que as eleições são um mandato para expropriar bancos e empresas pertencentes a estrangeiros".

Mugabe retornou ao poder para seu sétimo mandato com 61% dos votos, enquanto seu partido, Zanu-PF, conquistou dois terços dos assentos parlamentares. Na sede do partido de Mugabe começou a disputa pelos postos-chave no governo desocupados por membros do Movimento para a Mudança Democrática (MDC, na sigla em inglês) que participou de uma coalizão conflitiva com o partido governante nos últimos cinco anos como parte de um acordo costurado após as eleições violentas e contestadas de 2008.

Um ministro sênior do governo de Mugabe disse que eles dariam andamento a um plano para assumir o controle de empresas estrangeiras no país, incluindo bancos e mineradoras, na esteira de sua vitória eleitoral expressiva. Saviour Kasukuwere, o jovem ministro encarregado de desenvolvimento, indigenização e delegação de poderes, disse que esse controle do governo por aqueles dos círculos de Mugabe era uma "resposta seletiva" às sanções ocidentais que persistem sobre Mugabe e seus aliados próximos, que impediram Harare de obter empréstimos de bancos internacionais.

Com as potências ocidentais se alinhando para condenar a condução das eleições, há escassos indícios de que elas serão levantadas no futuro próximo. "Não o faremos como resposta ao que pessoas estão dizendo sobre nossas eleições, mas decidimos fazer essa política (de assumir o controle) porque é a única maneira de avançarmos a despeito de qualquer medida sobre sanções", disse Kasukuwere.

"Temos um novo mandato conferido a nosso partido pelo povo. Estamos criando a capacidade para as pessoas fazerem coisas para elas mesmas e criar empregos. Assumir uma participação majoritária em companhias estrangeiras criará esses empregos."

Ele descartou sugestões de que, tendo conduzido sua campanha com a "indigenização" - uma prática de redistribuição de terras que se marcou em grande parte pela apropriação do controle de fazendas pertencentes a brancos - como uma promessa de campanha durante as eleições, o Zanu-PF agora aliviaria seus planos de expandir a política para o bem da estabilidade econômica.

"Não estamos implementando a indigenização para desestabilizar, mas para fazer nossa economia crescer e desenvolver nossa nação. Digam os críticos o que disserem, isso não nos incomoda - precisamos trabalhar duro agora para desenvolver nosso país, criar empregos e ajudar nosso povo", disse ele.

Questionado sobre relatos de que havia sido desaconselhado anteriormente a expropriar bancos estrangeiros pelo chefe do Banco Central do Zimbábue, Gideon Gono, ele disse: "Nosso manifesto afirma claramente que essa política cobre todos os setores de nossa economia. Não haverá exceções."

Dada a brutal reação contra partidários da oposição em eleições passadas, alguns analistas estão dizendo que uma simples ameaça hoje basta para apagar qualquer ardor revolucionário.

Há evidências de que a retaliação contra os que apoiaram o MDC começou. Na sede do movimento no centro de Harare, na noite do dia 4, cerca de 15 militantes se reuniram em busca de segurança após supostamente terem sido expulsos de um dos bairros populares mais antigos da cidade por seguidores do Zanu-PF.

Do lado de fora da Harvest House, a sede do MDC, soldados da tropa de choque usando capacetes, escudos e bastões estavam sentados na carroceria de um caminhão monitorando a situação. "Os homens do Zanu-PF vieram às nossas casas entoando seus slogans e disseram que nós teríamos que sair senão eles nos matariam", disse Steven Mutsipa, um trabalhador do partido. "Eles têm revólveres, facões e porretes", disse seu amigo, que se apresentou apenas como Simon. "A polícia não nos ajudará porque é do Zanu-PF. Já fomos espancados muitas vezes no passado, por isso saímos."

*Aislinn Laing é jornalista

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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