REUTERS/Ismail Coskun/
REUTERS/Ismail Coskun/

Um ataque contra o caráter cosmopolita de Istambul

Se confirmado que ação foi obra do EI, fica provado que o grupo, que diz defender o Islã, mata mais muçulmanos do que supostos infiéis

TIM ARANGO SABRINA TAVERNISE CEYLAN YESINSU, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2016 | 05h00

Um homem trabalhava como tradutor e levava turistas de volta ao aeroporto. Uma mulher que trabalhava no terminal e se casaria em 10 dias. Ali se encontravam motoristas de táxi e um agente alfandegário. Um casal turco que trabalhava no aeroporto. Todos morreram no ataque suicida no Aeroporto Ataturk. As vítimas refletem o caráter cosmopolita e internacional de Istambul, cujo aeroporto é um dos mais movimentados do mundo, centro de chegada e partida de dezenas de milhões passageiros por ano, com conexões para Europa, Oriente Médio, África e outros.

Ao contrário de Bruxelas, onde um atentado terrorista em março fechou o aeroporto belga durante dias, em Istambul haviaa determinação de se retornar à normalidade. Sob um céu ensolarado na manhã de ontem, carros chegavam ao terminal onde ocorreu o ataque como em um dia qualquer. Mas os vestígios permaneciam: faixas colocadas pela polícia demarcavam a área onde ocorreu uma das explosões, no saguão de chegada de passageiros. Trabalhadores com uniforme amarelo erguiam barreiras na calçada, instalando uma cerca de metal de dois metros de altura dividindo a rua da entrada do aeroporto.

Os sobreviventes falavam de pânico e confusão e dos disparos vindos na sua direção. Um jovem disse que se dirigia para o detector de metais na noite de terça-feira quando ouviu o tiroteio. E ficou exposto aos disparos quando os atiradores avançaram. Ele viu uma pessoa cair no chão e se escondeu sob um dos aparelhos de raio X.

A maioria de vítimas é de muçulmanos, turcos ou viajantes de países muçulmanos. Se for confirmado que o atentado foi obra do Estado Islâmico, isso indica mais uma vez que o grupo, que afirma estar defendendo o Islã e combatendo as potências ocidentais, mata muito mais muçulmanos em campos de batalha do Iraque e Síria ou em atentados terroristas na região, do que não muçulmanos.

Esse ataque lança uma sombra sobre uma cidade que até recentemente exibia autoconfiança, projetando-se como um agitado centro multicultural de arte, com uma cozinha magnífica e uma história deslumbrante como antiga capital imperial. Mas uma série de atentados terroristas no último ano, alguns atribuídos ao EI e outros a militantes curdos, dizimaram a imagem criada com esmero de um paraíso em uma região perigosa e prejudicaram também seu florescente setor de turismo.

O caos envolvendo a Turquia, incluindo a série de ataques e o fluxo enorme de refugiados que esgotou os recursos do país, ilustra como a guerra civil na Síria se propagou e desestabilizou nações vizinhas.

Internamente, a Turquia enfrenta uma onda crescente de tensão, com profundas divisões entre islamistas que apoiam o presidente Recep Tayyip Erdogan e turcos seculares e nacionalistas que se opõe ao que consideram um regime cada vez mais autoritário liderado por Erdogan. Para piorar as coisas, uma guerra que a Turquia trava há mais de três décadas contra os militantes curdos, retomada no ano passado, transformou cidades a sudeste do país em zonas de guerra.

Na manhã de ontem, o primeiro ministro Binali Yildirim declarou que as primeiras indicações são de que o Estado Islâmico foi o autor do atentado no aeroporto, mas as autoridades não forneceram nenhuma informação sobre os terroristas.

Depois de outros ataques, as autoridades turcas se equivocaram, culpando curdos ou o EI. O que forneceu ao governo turco pretexto para investir ainda mais contra os militantes curdos, o que se tornou mais prioritário para a Turquia do que combater o EI.

Mas, de acordo com alguns analistas, esse recente atentado pode mudar a estratégia da Turquia com relação ao Estado Islâmico. Os EUA e outros aliados têm acusado o país de não adotar medidas suficientes de combate ao grupo militante e mesmo de ajudar no seu avanço, permitindo que combatentes e armas atravessem o território turco como parte de sua política de apoio aos rebeldes sírios.

“Fiquei impressionado com a rapidez com que o governo disse que foi obra do Estado Islâmico”, disse Soli Ozel, colunista turco e professor da Universidade Kadir Has, em Istambul. “Para mim, é indicação de que finalmente aprenderam o que têm feito de errado”. 

O ataque ocorreu um dia depois de a Turquia, que rompeu com vários vizinhos nos últimos anos, procurar uma reconciliação com Israel e Rússia. Uma das razões para a retomada das relações com esses países foi ajudar o setor de turismo em dificuldades, o que tem dado resultados: na quarta-feira, a Rússia anunciou que suspenderá a proibição de viagens à Turquia e adotará medidas para normalização das relações econômicas. Mais de 4 milhões de russos viajaram para a Turquia em 2014 - só os alemães viajaram mais. Moscou também proibiu importações de frutas, legumes e outros produtos, mas tal proibição também será suspensa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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