Um banquete de informações

Uma análise prolongada do material divulgado pelo WikiLeaks permite obter uma noção das prioridades, do caráter e dos processos de pensamento dos EUA

Timothy Garton Ash ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

Artigo

É o sonho do historiador. E o pesadelo do diplomata. Aqui estão, para todos verem, as confidências de amigos, aliados e rivais, acompanhadas pelas avaliações francas de diplomatas americanos, às vezes brilhantes, a seu respeito. Nas próximas semanas, os leitores de jornais de todo o mundo poderão desfrutar de um verdadeiro banquete da história do presente.

Em geral, o historiador precisa esperar de 20 a 30 anos para descobrir esses tesouros. Aqui, os despachos mais recentes têm pouco mais de 30 semanas. E que descobertas! Este tesouro contém mais de 250 mil documentos. Como todos os pesquisadores de arquivos sabem, o acesso a fontes tão variadas de informações possibilita um conhecimento muito peculiar. Uma análise prolongada permite obter uma profunda noção das prioridades, do caráter, e dos processos de pensamento.

A maior parte deste material consiste de informações de cunho político, provenientes do mundo todo, além de instruções de Washington. É importante lembrar que não temos aqui as principais categorias de sigilo. Mesmo assim, trata-se de um régio banquete.

Não surpreende que o Departamento de Estado esteja fazendo tanto alarde. Mas, pelo que vi, os profissionais do serviço secreto dos EUA não precisam se envergonhar. Sem dúvida, há, marginalmente, ecos de transações duvidosas, principalmente em relação à condução da "guerra ao terror" nos anos Bush. Há perguntas específicas que devem ser feitas e respondidas. Mas, na maior parte, trata-se de diplomatas cumprindo suas obrigações: descobrir o que está acontecendo nos lugares para os quais foram destinados, trabalhar para defender os interesses de sua nação e a política do seu governo.

Na realidade, minha opinião pessoal sobre o Departamento de Estado subiu vários pontos. Nos últimos anos, achava o serviço secreto americano pouco motivado, intratável, principalmente se comparado a outros braços mais autoconfiantes do governo dos EUA, como o Pentágono. Mas o que temos aqui muitas vezes é da mais alta qualidade.

O homem que agora é o diplomata de mais alto escalão dos EUA, Willian Burns, contribuiu na Rússia com um relato extremamente divertido sobre um extravagante casamento no Daguestão, do qual participou o presidente da Chechênia, que dançou "com sua automática folheada a ouro enfiada na parte posterior da cintura dos seus jeans". As análises de Burns sobre política russa são agudas. Assim como os relatos de seus colegas de Berlim, Paris e Londres. Em um despacho de 2008 de Berlim, o então governo de coalizão de cristãos-democratas e social-democratas da Alemanha é comparado ao "casal que se odeia, mas continua junto pelos filhos". E nós, britânicos, deveríamos analisar seriamente essa neurótica obsessão por nosso "relacionamento especial" com Washington. É inquietante encontrar telegramas assinados por Hillary Clinton que sugerem que diplomatas americanos estão sendo solicitados a fazer coisas comumente pedidas a agentes de níveis inferiores - como vasculhar cartões de crédito e detalhes biométricos de funcionários de alto escalão da ONU.

Em sentido mais amplo, o que constatamos em todo este intenso intercâmbio diplomático é que a preocupação com a segurança e o contraterrorismo impregnou todos os aspectos da política externa americana na última década. Mas também podemos constatar a gravidade das ameaças, e o fato de que o Ocidente tem um controle mínimo sobre elas.

Há um clima devastador quanto ao programa nuclear iraniano e a dimensão da preocupação, não apenas dos israelenses, mas acima de tudo árabe a este respeito; à vulnerabilidade dos estoques nucleares do Paquistão aos ataques dos criminosos islâmicos; à anarquia e a corrupção no Afeganistão; à Al-Qaeda no Iêmen; e às histórias reais sobre o poder da máfia russa que fazem o romance mais recente de John Le Carré parecer sóbrio.

Há um interesse do público em conhecer estas coisas. O Guardian, o New York Times e outros veículos mais responsáveis se esforçam por tentar garantir que nada do que eles publicam coloque em risco as pessoas. Deveríamos pedir ao WikiLeaks que fizesse a mesma coisa.

Mas resta uma pergunta. Como é possível realizar um trabalho diplomático nessas condições? Um porta-voz do Departamento de Estado está certo quando afirma que as revelações "criarão tensões nas relações entre nossos diplomatas e nossos amigos no mundo todo". Existe um interesse público em entender como o mundo funciona e o que é feito no nosso interesse, e há um interesse público na condução confidencial da política externa: dois interesses públicos conflitantes.

Entretanto aposto que o governo americano se arrependerá, e terá de rever urgentemente sua bizarra decisão de colocar toda uma biblioteca com a correspondência diplomática recente em um sistema computadorizado militar tão fantasticamente seguro que um sujeito de 22 anos poderia baixá-lo num CD. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD E ESCRITOR

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