Um bilionário se diverte

Entre os milionários, assim como entre os demais seres comuns dos nossos dias, há de tudo. Gente dotada de grande talento e de enorme capacidade de trabalho, que amealhou fortunas prestando considerável contribuição à humanidade - como Bill Gates ou Warren Buffett - e, além disso, destina boa parte de sua imensa riqueza a obras de beneficência. E existem imbecis racistas como Donald Trump, ridículo personagem que não sabe o que fazer com seu tempo e com seu dinheiro e se diverte neste momento como aspirante republicano à presidência do país, insultando a comunidade hispânica dos Estados Unidos - mais de 50 milhões de pessoas - que, segundo ele, não passa de uma malta infecta de ladrões e estupradores. 

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

10 de agosto de 2015 | 03h00

Os disparates de um palhaço endinheirado não teriam maior importância se as besteiras que Trump espalha aos quatro ventos em sua campanha política - entre elas os insultos ao senador John McCain, que lutou no Vietnã, foi torturado e passou anos num campo de concentração dos vietcongues - não tivessem tocado num nervo do eleitorado americano e não o tivessem catapultado ao primeiro lugar entre os pré-candidatos do Partido Republicano. 

Ao que se constata, entre esses, somente Jeb Bush, casado com uma mexicana, se atreveu a criticá-lo. Os demais olharam para o outro lado e pelo menos um deles, o senador Ted Cruz, do Texas, apoiou suas diatribes. Mas, por sorte, a resposta da sociedade civil dos Estados Unidos às obscenidades de Trump foi contundente. Várias emissoras de televisão romperam com ele, como a Univision e a Televisa, as lojas da Macy’s, o empresário Carlos Slim, muitas publicações e grande número de artistas de cinema, cantores, escritores - até mesmo o chef espanhol José Andrés, muito conhecido nos EUA, que pretendia abrir um dos seus restaurantes num hotel de Trump e negou-se a fazê-lo depois de suas declarações racistas. 

Será bom ou ruim que o tema racial, até agora evitado nas campanhas políticas americanas, venha à luz, passando a ser protagonista na próxima eleição presidencial? Há quem considere que, apesar das vergonhosas razões que levaram Trump a servir-se dele - vaidade e soberba - não é ruim que o tema seja abertamente ventilado, em vez de supurar à sombra, sem que ninguém o conteste e refute as falsas estatísticas em que tenta apoiar seu racismo anti-hispânico. 

Talvez essas pessoas tenham razão. Por exemplo, as afirmações de Trump permitiram que diferentes institutos de pesquisa dos EUA demonstrassem que é absolutamente falso que a imigração mexicana esteja crescendo sistematicamente. Pelo contrário, o Departamento do Censo (segundo um artigo de Andrés Oppenheimer) acaba de informar que nos últimos dez anos o fluxo migratório procedente do México caiu de 400 mil para 125 mil pessoas no ano passado. E a tendência continua sendo decrescente. 

O problema é que o racismo nunca é racional, jamais se respalda em dados objetivos, mas em preconceitos, suspeitas e medos inveterados do “outro”, do que é diferente, que tem outra cor de pele, fala outra língua, adora outros deuses e tem costumes diferentes. Por isso, é tão difícil derrotá-lo com ideias, apelando para a sensatez. Todas as sociedades, sem exceção, alimentam em seu seio esses sentimentos obscuros, contra os quais frequentemente a cultura é ineficaz, até mesmo impotente. Ela os minimiza, desde logo, e frequentemente os sepulta no inconsciente coletivo. Eles, no entanto, nunca chegam a desaparecer por completo - e, sobretudo nos momentos de confusão e de crise, atiçados por demagogos políticos ou fanáticos religiosos, costumam aflorar à superfície e produzir os bodes expiatórios nos quais grandes setores, às vezes até a maioria da população, se exime de suas responsabilidades e descarrega toda a culpa dos seus males no “judeu”, no “árabe”, no “negro” ou no “mexicano”. 

Remover essas águas impuras dos submundos irracionais é extremamente perigoso, pois o racismo é sempre fonte de violências atrozes e pode chegar a destruir a convivência pacífica e minar profundamente os direitos humanos e a liberdade. É muito provável que, apesar da incultura que transparece em tudo que Trump diz e faz - a começar por seus horríveis e conspícuos arranha-céus -, ele chegue a intuir que seus insultos aos americanos de origem latina ou hispânica são absolutamente infundados e os perpetre perfeitamente consciente do dano que isto pode infligir a um país que, seja dito de passagem, foi e continua sendo um país de imigrantes, ou seja, de maneira frívola e irresponsável. 

Saber ganhar dinheiro, como um campeão do xadrez ou dando chutes numa bola, não pressupõe nada mais que uma habilidade muito específica para determinada tarefa. Pode-se ser milionário sendo - para todo o resto - um idiota irrecuperável e um inculto pertinaz. Tudo parece indicar que Trump pertence a essa variante lamentável da espécie. 

Mas seria também muito injusto concluir, como fizeram alguns diante das intemperanças retóricas do magnata imobiliário, que o racismo e os demais preconceitos discriminatórios e sectários são a essência do capitalismo, seu produto mais refinado e inevitável. Não só não é assim, como os Estados Unidos são a melhor prova de que uma sociedade multirracial, multicultural e multirreligiosa pode existir, desenvolver-se e progredir a um ritmo muito notável, criando oportunidades que atraem às suas plagas gente de todo o planeta. 

Os Estados Unidos são a nação mais importante do nosso tempo graças a essa miríade de pobre gente que, desesperada por não encontrar incentivos nem oportunidades em seu próprio país, migrou para matar-se de trabalhar incansavelmente e, enquanto criava um futuro, construiu um grande país, a primeira potência multicultural da história moderna. 

Assim como irlandeses, escandinavos, alemães, franceses, espanhóis, italianos, japoneses, índios, judeus e árabes, os hispânicos contribuíram de maneira muito efetiva para tornar os EUA o que são. Se em qualquer país, hoje, é uma loucura falar de uma sociedade totalmente pura, sem misturas, mais ainda isso é verdade nos EUA. Pela flexibilidade do seu sistema que concede oportunidades a todos os que querem e sabem trabalhar, a sociedade foi se renovando ininterruptamente, assimilando e integrando gente dos quatro pontos cardeais. 

Nesse sentido, os EUA são a sociedade mais avançada do nosso tempo, o exemplo que mais cedo ou mais tarde deverão seguir - abrindo suas fronteiras a todos - os países que queiram chegar a ser (ou continuar sendo) modernos, em um mundo marcado pela globalização. A existência de um Donald Trump em seu seio não deve nos fazer esquecer desta estimulante verdade. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

MARIO VARGAS LLOSA É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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