Um bolivariano com credenciais acadêmicas

Tido como autoritário pelos opositores e amado pelos equatorianos mais pobres, o presidente do Equador, Rafael Correa, divide opiniões. Muitas vezes qualificado pelos críticos de "caudilho" e "ditador", e com a promessa de deixar a presidência em 2017, o presidente quer consolidar a sua "revolução cidadã" em seu terceiro mandato.

LUIZ RAATZ , ENVIADO ESPECIAL / QUITO, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2013 | 02h04

Filho de uma família pobre de Guayaquil, conseguiu formar-se em economia fazer pós-graduação na Bélgica e nos EUA e, com um discurso heterodoxo, estabilizou a economia do Equador. Reduziu a pobreza e o desemprego, e aumentou os gastos sociais.

Correa teve uma infância difícil. O pai foi preso por três anos por servir de "mula" para narcotraficantes que levavam drogas da América do Sul para os EUA. Conseguiu estudar economia em uma universidade privada com auxílio de bolsas de estudo.

Após trabalhar como voluntário na alfabetização de indígenas na região andina do país, entrou para o funcionalismo público, onde ocupou cargos na secretaria da Educação. Dali foi para o exterior, onde completou seus estudos econômicos na Universidade de Louvain, na Bélgica, e na Universidade de Illinois, nos EUA.

A vida pública de Correa mudou em 2005, quando assumiu o Ministério da Economia do presidente Alfredo Palacio. À época, o Equador atravessava uma longa e grave crise institucional. Entre 1997 e 2007, o país teve oito presidentes (mais informações nesta página) e 3 milhões de equatorianos emigraram após o governo congelar as poupanças e resgatar os bancos na virada do século.

Em meio ao descrédito geral da população com a classe política, Correa tentou contornar a crise com a emissão de títulos da dívida a juros baixos e defendeu gastos para diminuir a pobreza no país. Sem respaldo, demitiu-se quatro meses depois, mas deixou o ministério com apoio de 57% da população.

A popularidade alta lhe deu capital político para tentar a eleição. Ao contrário de outros líderes bolivarianos, como Evo Morales e Hugo Chávez, no entanto, Correa veio da academia e não de um movimento popular de base ou dos quartéis. Candidato à presidência, fundou seu partido, Alianza País, do zero e, seguindo a receita chavista, fez sua primeira campanha com a promessa de convocar uma Constituinte e refundar o país.

A primeira vitória eleitoral de Correa veio em 2006, quando derrotou o magnata da banana Alvaro Noboa no segundo turno das eleições. Após assumir o poder, declarou a dívida externa do país ilegal. Em 2008, entrou em crise diplomática com o Brasil, quando expulsou a Odebrecht do Equador por falhas na construção de uma usina hidrelétrica e ameaçou não honrar um empréstimo de US$ 200 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Apesar do discurso incendiário, Correa maneja a economia com mais competência do que seus congêneres bolivarianos. No Equador não há escassez e o presidente manteve a dolarização da economia, instituída no ano 2000 para amenizar a crise bancária. "Ele tem um perfil mais técnico do que Chávez", atesta o economista equatoriano Walter Spurrier. "Com o dinheiro do petróleo soube investir em infraestrutura e gastos sociais."

Com a crise financeira mundial de 2008, que derrubou em 79% os preços do petróleo, Correa recorreu a um pacote de estímulo fiscal, destinado principalmente ao setor habitacional. A commodity, na época, respondia por 62% das exportações do país e por 34% da renda do governo. Os impostos para empresas multinacionais e grandes fortunas aumentaram. Os bancos foram obrigados a manter um compulsório de 60% em seus cofres e US$ 2 bilhões em reservas foram repatriados para o Equador.

Com esse dinheiro em caixa, o governo passou a conceder empréstimos para obras de infraestrutura viária, hospitalar e escolar. Ao menos 7,8 mil km de estradas foram construídas. O investimento do Equador em obras sociais é o maior da América Latina: equivale a 11% do PIB.

Esses investimentos possibilitaram que a economia crescesse e o desemprego caísse. O país deve ter uma expansão no PIB de 2012 de 4%. O desemprego é de 4,1%.

Assim como Chávez na Venezuela, Correa também destinou esforços a ampliar o aparato de comunicação estatal. Criou a rede de TV ECTV e expropriou veículos que pertenciam a bancos envolvidos na crise de 1999, como a Gama TV. Uma quartelada policial em 2010, tratada pelo presidente como golpe de Estado, radicalizou seu comportamento contra a mídia privada - que diante da debilidade dos partidos tradicionais constitui-se na forma mais organizada de oposição a ele.

No ano passado, Correa processou o jornal El Universo, que publicou um artigo contra ele, em US$ 40 milhões. Depois de ganhar o processo na Justiça, onde a maioria dos magistrado lhe é favorável, perdoou a multa.

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