Um brasileiro à caça de dólares na Argentina

Sob o sol forte de verão das 10h em Buenos Aires, o carioca Edson Paulo da Silva, de bermuda e sandálias, aproveita a manhã de folga para ir à luta, em busca do bem mais cobiçado hoje, na Argentina: o dólar. Edinho, como é conhecido, que mora há sete anos na Argentina, planeja ir passar o carnaval no Rio, como todos os anos. Antes, não precisava se preocupar com nada: conta que chegou a trocar pesos por reais no Rio, pela cotação um a um. Agora, está preocupado com o que pode acontecer nos próximos dias com seus pesos frente ao dólar. Na San Martín, a tradicional rua das casas de câmbio do centro de Buenos Aires, está tudo fechado. O governo decretou ?feriado cambial? até quarta-feira, enquanto prepara o monumental arcabouço de regulamentações sob as quais a Argentina abandona a conversibilidade e o peso se submete ao mais rigoroso teste que uma moeda pode enfrentar: o das ruas, sem o antigo guarda-chuva da paridade, que o abrigou por quase 11 anos. Edinho apela para a agência do Western Union, de onde costuma mandar dinheiro para sua filha e para seus pais no Rio. Não funciona. Todas as transações envolvendo câmbio, inclusive as de remessa de valores, estão suspensas. Nas ruas do centro, nem sequer os ?arbolitos?, como são chamados os cambistas, estão à vista, depois que a polícia promoveu um arrastão na semana passada, coibindo a atividade ilegal. Edinho se desespera. Sua ação preventiva fracassou. Quando as casas de câmbio abrirem, nesta quarta-feira, a poupança que ele juntou com seu suado trabalho ao longo de sete anos num restaurante da Avenida Costanera, terá virado pó, na desigual flexão de músculos com o dólar. ?Quero ir embora daqui?, balança a cabeça. ?Quando cheguei, ganhava plata encima de plata?, recorda, misturando português com espanhol. ?Aqui, foi um quilombo (confusão) muito grande?, diz ele, ainda traumatizado pela onda de saques e violência do fim do ano. ?Nadie (ninguém) podia sair na calle (rua).? Um susto, não há dúvida. Que o digam os passageiros do cruzeiro Costa Clássica, que atracou no porto de Buenos Aires na manhã desta segunda-feira, com 1.300 turistas brasileiros. O empresário Marcos Zarzur, organizador do passeio, desceu primeiro, com o primo, em expedição, para ver se era seguro as famílias desembarcarem do navio e andarem por Buenos Aires. Voltaram contando que estava tranqüilo. Mas pouco mais da metade resolveu arriscar-se. Os outros ficaram no navio, alarmados com as cenas da televisão, sem saber que Buenos Aires segue sendo bem mais segura do que São Paulo, onde vivem. Depois do anúncio oficial deste domingo à noite do ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, de que o dólar está fixado em 1,40 peso para o comércio exterior e passa a flutuar livremente para todo o resto, incluindo o turismo, algumas lojas e restaurantes em Buenos Aires se renderam às evidências e começaram nesta segunda a receber pagamentos em notas de dólar pela cotação de 1,30. Numa loja da rua Córdoba, por exemplo, um par de tênis Adidas de couro, na faixa dos 65 pesos, sai por US$ 50 ? ainda acima do preço no Brasil, mas mais próximo. Na porta do restaurante La Posada de 1820, na esquina da San Martín com Tucumán, um cartaz convida o freguês a entrar para saber a ?cotação? do dólar. O gerente responde ?1,40?, ao mesmo tempo que a dona diz ?1,30?, num sinal da fluidez da situação. Mas nem todos os comerciantes se emocionam diante de notas de dólar. Nas Galerías Pacífico, elegante centro comercial da Calle Florida, as lojas continuam praticando o um a um ? ?ainda?, como dizem seus gerentes. ?Não aumentei meus preços. Prefiro que troquem os dólares e me paguem em pesos?, explica Beatriz Alhach, num quiosque de cosméticos importados. O turista sempre pode pagar com cartão, apostando na queda do peso nas próximas semanas. Claro que ter dólares não é a condição do argentino comum. A situação comum é a do casal Dario Garmendie e Nora Palau, por exemplo, que estuda comprar um ar-condicionado novo. Segundo eles, os aparelhos que antes custavam 900 pesos saltaram para 1.200, e os de 1.000, para 1.300. As remarcações são generalizadas, e não só dos importados. Um mau começo para quem quer correr da recessão sem tropeçar na hiperinflação. Leia o especial

Agencia Estado,

07 Janeiro 2002 | 19h02

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