Juan Ignacio Roncoroni/EFE
A favela Villa 31, vizinha da Recoleta, bairro nobre de Buenos Aires Juan Ignacio Roncoroni/EFE

A favela Villa 31, vizinha da Recoleta, bairro nobre de Buenos Aires Juan Ignacio Roncoroni/EFE

Um cafofo na Villa 31: como vive a classe média na mais famosa favela argentina

Às vésperas de uma eleição que tem a pobreza como tema central, o 'Estado' aluga um quartinho na mais antiga favela de Buenos Aires, onde uma classe média decadente encontra miseráveis que não conseguem ascender

Imagem Rodrigo Cavalheiro

Rodrigo Cavalheiro , Enviado Especial a Buenos Aires

Atualizado

A favela Villa 31, vizinha da Recoleta, bairro nobre de Buenos Aires Juan Ignacio Roncoroni/EFE

BUENOS AIRES - Às vésperas de uma eleição que tem a pobreza como tema central, o Estado aluga um quartinho na mais antiga favela de Buenos Aires, capital da Argentina, onde uma classe média decadente encontra miseráveis que não conseguem ascender, mesmo com estudo. Até a votação de domingo, textos, vídeos e fotos contarão, dia e noite, como se vive a eleição entre seus 40 mil moradores. 

Para Entender

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A eleição, neste domingo, dia 27, o presidente Mauricio Macri busca a reeleição. O favorito é Alberto Fernández, escolhido por Cristina Kirchner como cabeça da chapa peronista.

+Ouça o podcast sobre a disputa entre Alberto Fernández e Mauricio Macri

Ela é candidata a vice, cargo que lhe garante uma vaga no Senado e imunidade parlamentar. Cristina deixou o poder em 2015 sob acusações de corrupção, processos pelos quais é ré na Justiça.

Ao longo da semana, você verá em reportagens do enviado especial Rodrigo Cavalheiro como a crise econômica arruinou uma classe média que, pelo empreendedorismo e nível de instrução, chegou a colocar o país entre as potências mundiais na primeira metade do século passado. Hoje 35,4% da população está no nível da pobreza

Para Entender

Em cem anos, Argentina vai de potência mundial a mais de 30% de pobreza

Entenda quais motivos ocorridos no século XX levaram a Argentina a uma das maiores crises política e econômica de sua história

Confira a seguir as reportagens produzidas diretamente de Buenos Aires:

  1. Eleições na Argentina: redução da classe média se acelera no país
  2.  Guia para entender as eleições na Argentina
  3. Arquiteto argentino dá aulas, trabalha como segurança e camelô para ganhar R$ 2.300
  4. Pobreza que atinge 52% dos argentinos menores de 14 anos desafia candidatos

Veja também as reportagens em vídeos feitas pelo Estado na capital argentina

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Crise faz família trocar Recoleta por favela vizinha

Confeiteira leva filhos para morar na Villa 31, onde a taxa de homicídios é 11 vezes mais alta que em bairro de elite

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial a Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 12h00

BUENOS AIRES - A confeiteira Mariela Ayala costuma convidar as ex-vizinhas para conhecer sua nova casa, mas nem sinal delas. É que a aristocrática Recoleta e a popular Villa 31, onde ela agora vive, têm indicadores e estilos de vida antagônicos, ainda que estejam separadas por apenas uma avenida e uma linha de trens. 

A taxa de homicídios, por exemplo, é 11,3 vezes mais alta. São 6,7 mortos a cada 100 mil habitantes em toda Buenos Aires, ante 76 na favela, diz o Ministério da Segurança.

Para Entender

'Estado' acompanha eleição na Argentina dentro da principal favela de Buenos Aires

Reportagem aluga 'cafofo' na comunidade onde classe média decadente encontra miseráveis que não conseguem ascender

A crise econômica agravada no último ano e tema crucial das eleições argentinas deste domingo, 26, aumentou a pobreza e afetou diretamente a qualidade de vida da classe média, extrato social mais emblemático do país.

Famílias tiraram filhos da escola particular, renegociaram planos de saúde e buscaram aluguéis mais baratos, mas o caso de Mariela, de 46 anos, tem um simbolismo extremo. 

Depois de perder o emprego na Recoleta, ela deixou de ter garantias exigidas para um aluguel. Ficou sem cartão de crédito e comprovante de renda. Recorreu à Villa 31, onde tais formalidades são dispensáveis e a localização é praticamente a mesma.

Da Recoleta à favela

Um quarto como o alugado na favela pelo Estado nesta cobertura eleitoral, dedicada a mostrar como parte da classe média mudou seu padrão, custa 5 mil pesos (R$ 350).

Mariela trocou o ambiente de palacetes pelo de casebres depois de enviuvar pela segunda vez, aos 38 anos (a primeira viuvez veio aos 28). Chegou há quatro meses a esta favela plana, distribuída em uma área equivalente a 32 campos de futebol. Diz não ter vergonha de agora ser um dos 40 mil habitantes.

“Muita gente nessa situação teria entrado em depressão, ido morar na rua. Nem todo mundo conseguiria superar. Levanto às 8h para trabalhar e às vezes durmo de madrugada. Acho que é um exemplo para os meus filhos, para eles saberem dar valor ao que têm e não se acomodarem”, pondera. 

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Guia para entender as eleições na Argentina

Argentinos decidirão no domingo entre o retorno ao peronismo com Alberto Fernández ou a reeleição do presidente Mauricio Macri

Confeitaria para salvar a renda da família

Sem o oportunidade com carteira assinada, ela decidiu fazer tortas – principalmente para aniversários, Páscoa e Natal – e vendê-las pela internet. Assim, não paga impostos e tem uma renda 50 mil pesos (R$ 3,3 mil), o que a coloca com folga dentro da classe média.

Ao chegar à Villa 31, Mariela passou a pagar 18 mil pesos (R$ 1,2 mil) de aluguel por uma casa com três ambientes. Ela dorme no quarto com dois dos seus três filhos.

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Agora, está se mudando para um apartamento menor, mas mais novo, a duas quadras. Vai pagar 12 mil pesos (R$ 800).

O gasto total em um apartamento de duas peças hoje na Recoleta, para onde ela quer voltar, seria de 50 mil pesos (R$ 3,3 mil). “O aluguel não é muito mais caro, o problema na Recoleta é pagar condomínio, a luz, o gás e a água”, afirma. Na favela, os serviços que não são “contrabandeados” são subsidiados.

Saudades da baixa criminalidade

Dos dois anos em que viveu na Recoleta, Mariela tem saudade principalmente de não se preocupar com a segurança dos filhos, que continuam frequentando a mesma escola pública no bairro nobre bonaerense. “Iam sozinhos ao catecismo, à natação”, lembra. Na favela, eles saem somente acompanhados dos amigos. 

Na sexta-feira, Manuela observava seu filho do meio, Franco, tirar rugas de uma camisa em uma tábua de passar roupas. “Ele vai hoje para a primeira entrevista de emprego, no McDonald’s”, disse a confeiteira, com um orgulho que despertou certo constrangimento no filho, de 17 anos. 

“Não acho que faça tanta diferença morar aqui ou na Recoleta. Já estamos acostumados com o ambiente”, diz. Sua irmã, Victoria, tem opinião semelhante. “Temos nossos amigos aqui, não faço questão de me mudar. Nem de ter um quarto só para mim”, diz a adolescente de 15 anos.

Mariela sente falta de serviços básicos. “Aqui não chega o correio, não posso pedir comida, não entra táxi ou ambulância”, lamenta.

Por isso, ela não recrimina as amigas que ignoraram seus convites. “Eu também tinha muito medo daqui antes de me mudar”, admite.

Embora esteja economizando para voltar à Recoleta, um ponto preocupa a confeiteira. “A clientela aqui na favela é muito melhor. Quem mais gasta, é quem menos tem. Na Recoleta, o pessoal pede desconto, pechincha, pede prazo para pagar. Teria que manter minha clientela aqui.”

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Guia para entender as eleições na Argentina

Argentinos decidirão no domingo entre o retorno ao peronismo com Alberto Fernández ou a reeleição do presidente Mauricio Macri

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2019 | 10h23

Em plena crise econômica e em um cenário de polarização política, a Argentina decide na eleição de domingo entre um possível retorno ao peronismo pela mão de Alberto Fernández ou a reeleição do presidente Mauricio Macri.

Cerca de 33,8 milhões de argentinos deverão ir às urnas para eleger presidente e vice-presidente para um mandato de quatro anos, que terá início no dia 10 de dezembro, e para renovar parcialmente a composição do Congresso, onde atualmente o governo não conta com maioria absoluta.

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Se nenhum dos candidatos conseguir reunir ao menos 45% dos votos válidos ou 40% mais 10 pontos porcentuais de vantagem sobre o segundo mais votado, será realizado um segundo turno no dia 24 de novembro. Veja abaixo seis pontos para entender a eleição no país.

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Mudança ou continuidade?

Ainda que haja seis candidatos na disputa presidencial, as eleições se apresentam como um duelo entre Macri, que tenta a reeleição à frente da coalizão Juntos por el Cambio, e o aspirante do peronista Frente de Todos, Alberto Fernández, que tem como candidata a vice a ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015).

A votação de domingo é encarada como uma espécie de segundo turno após os resultados das eleições primárias realizadas em agosto, e as opções que poderiam ser uma terceira via entre o macrismo e o peronismo se apresentam com expectativas muito baixas.

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Macri, que chegou ao poder em 2015 após 12 anos de governos kirchneristas, busca um segundo mandato em um difícil cenário de recessão econômica, que já dura um ano e meio. O líder argentino pede agora mais tempo para resolver os problemas econômicos que assolam o país há décadas.

Por sua vez, Fernández, chefe de gabinete durante todo o governo de Néstor Kirchner (2003-2007) e os primeiros meses do primeiro mandato de Cristina, planeja um pacto econômico e social entre o Estado, empresários e sindicatos para “colocar a Argentina de pé”.

Crise econômica sacode o cenário eleitoral

Em 2018, a economia argentina entrou em um ciclo recessivo, o PIB caiu 2,5% e a inflação disparou 47%. A recessão econômica impactou em cheio os indicadores sociais e elevou a pobreza a 35,4% no primeiro semestre deste ano, o maior índice desde 2001, enquanto a taxa de desemprego subiu para 10,6%, a mais alta em 13 anos.

Este cenário econômico complicou as possibilidades de uma reeleição de Macri, que chegou ao poder com a promessa de alcançar “pobreza zero” e baixar a inflação, que tem um aumento acumulado de 37,7% nos primeiros nove meses do ano e a qual se espera que encerre 2019 em torno de 55%.

O descontentamento social em razão da crise econômica inclina a balança eleitoral para Alberto Fernández, que lidera as pesquisas realizadas até agora.

União do peronismo

Cristina Kirchner surpreendeu a todos em maio com sua decisão de ceder a candidatura presidencial a Alberto Fernández, que deixou o governo em 2008 e desde então se converteu em um dos maiores críticos da gestão dela. O confronto acabou sendo deixado de lado para unir o peronismo em sua tentativa de retornar à Casa Rosada.

Com esse movimento, o peronismo, muito dividido desde que perdeu as eleições em 2015, abriu as portas para captar os eleitores mais moderados de Cristina, que enfrenta várias acusações judiciais por suposta corrupção durante seu governo.

Macri também surpreendeu ao eleger como candidato a vice-presidente Miguel Ángel Pichetto, líder no Senado da maior parte da oposição peronista, quando todos os fatores apontavam que a fórmula ficaria completa com um membro da União Cívica Radical (UCR).

Nada decidido nas primárias

Ainda que se considerasse que nada seria decidido nas eleições primárias de agosto, já que todas as formações haviam definido suas candidaturas, a surpreendente margem de vantagem de 16 pontos porcentuais obtida por Fernández sobre Macri parece ter sacramentado esta eleição.

Macri, que espera ser o único presidente não peronista desde o retorno da democracia ao país a conseguir terminar seu mandato, que acaba no dia 10 de dezembro, apostava que teria um desempenho melhor nas primárias.

O resultado desencadeou uma tempestade financeira que se agravou com a crise econômica, o que prejudicou ainda mais as aspirações de Macri. Desde então, o peso teve uma depreciação de quase 29%, as reservas internacionais caíram de US$ 66 bilhões para US$ 48 bilhões, e a inflação disparou.

Campanha eleitoral atípica

Com Fernández dando por vencidas as eleições e Macri não se rendendo e confiando em um segundo turno, esta tem sido uma campanha eleitoral atípica na qual a maior ausência seja a de Cristina Kirchner, uma tática de campanha pensada estrategicamente, já que a imagem dela gera rejeição de parte do eleitorado.

Nesta campanha, o peronismo e o macrismo inverteram os papéis, e enquanto Fernández apenas participou de comícios e preferiu se reunir com distintos setores sociais e empresariais, o presidente Macri optou por se aproximar do povo em atos por diversas cidades do país.

A dívida argentina

O Fundo Monetário Internacional (FMI) se tornou o grande protagonista da eleição na Argentina após aceitar em 2018 dar auxílio financeiro ao país em troca de US$ 56,3 bilhões, o maior pacote da história do órgão, e que levou a um forte ajuste fiscal, muito criticado por Fernández.

O FMI já desembolsou à Argentina cerca de US$ 45 bilhões, mas deixou o restante do pagamento - inicialmente previsto para setembro - para depois das eleições, até que conheça os planos econômicos do vencedor.

No fim de setembro, a dívida da Argentina crescia a US$ 315 bilhões (equivalente a 68% do PIB), dos quais US$ 126 bilhões estão nas mãos de credores privados e US$ 75 bilhões correspondem a dívidas com órgãos internacionais.

O novo governo deverá renegociar os compromissos da dívida, já que será impossível para a Argentina honrar os pagamentos nos prazos inicialmente previstos. A dúvida é como cada candidato lidará com essa renegociação. / EFE

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    Perfil: Mauricio Macri, o empresário liberal atingido pela crise econômica

    Com país mergulhado em uma grave crise desde 2018, imagem do presidente não parou de se deteriorar; se perder eleição, enfrentará o dilema de liderar a oposição, ou se aposentar da vida política

    Redação, O Estado de S.Paulo

    25 de outubro de 2019 | 18h03

    BUENOS AIRES - Filho da elite empresarial da Argentina, o presidente Mauricio Macri tem sido o grande defensor do liberalismo no país e agora, diante de uma improvável reeleição, prega insistentemente a necessidade de defender a abertura econômica e os valores da república e da democracia.

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    Com o país mergulhado em uma grave crise econômica desde 2018, a imagem de Macri não parou de se deteriorar, e nenhuma pesquisa aposta em sua vitória nas eleições presidenciais de domingo, 27.

    Com seu caráter decidido, ressalta, porém, que "a eleição ainda não aconteceu" e assegura que dará a volta por cima depois das primárias de agosto. Nelas, o peronista de centro esquerda Alberto Fernández venceu com 48% dos votos e se estabeleceu como favorito à presidência.

    Seu triunfo há quatro anos foi visto como um marco nesse país em que apenas os peronistas, ou radicais, haviam governado em democracia, e também marcou o início de uma guinada à direita para os países sul-americanos, após mais de uma década de governos de esquerda.

    Agora, com a região em ebulição, Macri reconhece que suas medidas de austeridade foram duras. Ele afirma, contudo, que o pior já passou e pede aos eleitores uma nova oportunidade para "terminar a tarefa, agora que estabelecemos bases sólidas".

    A desvantagem da riqueza

    Engenheiro de 60 anos, Macri nasceu em uma família rica. Estudou nas mais prestigiosas escolas e universidades, trabalhou na empresa familiar, uma construtora, e sempre esteve com belas mulheres. Por essa vida privilegiada, seus opositores o acusam de viver fora da realidade e de ser insensível às dificuldades econômicas dos argentinos.

    "Macri é marcado por sua história. Ser rico inevitavelmente o coloca em um lugar. Isso não significa que ele governa para os ricos, mas na Argentina da fome é uma desvantagem, porque há coisas que ele só pode ver se lhes for dito", comenta Pablo Knopoff, do instituto de pesquisa Isonomia.

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    "Macri não frequentou escolas públicas, nunca frequentou hospitais públicos, nem se locomoveu com o transporte público. Ele é um político estranho, que aos 17 anos não colava cartazes nas ruas", explicou Knopoff. 

    As conexões familiares facilitaram seu bom relacionamento com o presidente americano, Donald Trump, que ele conheceu anos atrás em razão dos negócios no setor da construção de seu pai, Franco Macri.

    Com Christine Lagarde, que esteve à frente do Fundo Monetário Internacional (FMI), manteve um relacionamento fluido, para incômodo de muitos que na Argentina atribuem grande parte de seus males a esse organismo.

    Tecnocratas

    Para armar sua equipe governamental, Macri contou com um grupo de ex-executivos de grandes empresas e economistas liberais, com os quais se propôs a abrir a economia argentina, até então uma das mais protecionistas da América Latina. "Para Macri, o técnico prevalece sobre o exercício mundano da política", segundo Knopoff.

    Ele estudou no colégio Cardeal Newman de Buenos Aires, onde as elites são formadas. Entre seus colegas de classe, vários se tornaram seus ministros. Graduou-se na Universidade Católica e se especializou em Columbia, em Nova York.

    Foi executivo do Citibank e gerente do grupo de construção Macri. Presidiu o popular clube de futebol Boca Juniors entre 1995 e 2007, período de maior sucesso da equipe, com 17 troféus, incluindo 11 internacionais. Essa experiência serviu de trampolim para a carreira política, que começou como prefeito de Buenos Aires (2007-2015).

    A família

    Seu pai, que morreu este ano, chegou à Argentina procedente da Itália aos 18 anos. Três anos depois, já tinha sua primeira construtora. Casou-se com Alicia Blanco Villegas, pertencente a uma família tradicional de Tandil, na região dos Pampas, onde Mauricio, o mais velho dos seis filhos, nasceu e morou.

    Em 1991, foi vítima de um sequestro que o marcou por um longo tempo. Um grupo de policiais (chamado pela imprensa argentina de "gangue dos delegados") que havia atuado na ditadura (1976-83) o manteve em cativeiro por duas semanas. A família pagou US$ 6 milhões pelo resgate. Após esse episódio, passou vários anos fazendo análise, como ele mesmo contou.

    Macri tem três filhos adultos do primeiro de seus três casamentos. Hoje é casado com Juliana Awada, uma empresária da moda de 45 anos, que sempre o acompanha em eventos políticos. Juntos, tiveram Antonia, de oito anos. Se perder a presidência, enfrentará o dilema de liderar a oposição, ou se aposentar da vida política. / AFP

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    Perfil: Alberto Fernández, o peronista moderado prestes a alcançar a presidência argentina

    Com perfil moderado, peronista de 60 anos é novo presidente da Argentina após derrotar Mauricio Macri já no primeiro turno

    Redação, O Estado de S.Paulo

    25 de outubro de 2019 | 17h28
    Atualizado 28 de outubro de 2019 | 10h43

    BUENOS AIRES - Homem de perfil discreto e há anos afastado da política, Alberto Fernández se tornou presidente da Argentina ao obter 48,03% dos votos e derrotar Mauricio Macri, que teve 40,7%, na eleição deste domingo, 27. O peronista foi eleito em primeiro turno e devolveu o poder à esquerda após quatro anos.

    Peronista moderado e pragmático, Alberto Fernández foi a surpresa da eleição na Argentina, despontando como favorito em agosto, ao obter 48% dos votos nas primárias, alavancado por uma oposição peronista unificada e pela ex-presidente e companheira de chapa, Cristina Kirchner.

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    Um resultado surpreendente para alguém que disputou uma eleição popular apenas uma vez, em 2000, nas legislativas da cidade de Buenos Aires. Se conseguir repetir no domingo a mesma votação registrada nas primárias, derrotará o presidente em busca de reeleição, Mauricio Macri, já no primeiro turno.

    Seu desempenho de mais destaque foi como chefe de gabinete do falecido presidente Néstor Kirchner (2003-2007), assim como de Cristina, em 2008. Rompeu com sua agora vice ao fim do primeiro ano de mandato dela, com declarações duras, em meio ao embate da então presidente com os proprietários rurais e com os grandes meios de comunicação.

    Hoje, esse episódio surge como um argumento de demonstração da independência de Fernández, contra aqueles que o acusam de ser uma mera marionete de Cristina.

    "Fernández se afastou de Cristina Kirchner em 2008 e renunciou. Ela não conseguiu controlá-lo à época, e muito menos agora", estando na vice-presidência, em caso de vitória, afirmou o analista Raúl Aragón.

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    Argentinos decidirão no domingo entre o retorno ao peronismo com Alberto Fernández ou a reeleição do presidente Mauricio Macri

    "Liberal, progressista, peronista"

    O deputado Daniel Filmus, que foi ministro da Educação com Néstor Kirchner, destaca o presidente eleito como uma pessoa com a qual se pode "bater papo, relaxar, conversar sobre muitos assuntos".

    "É um homem que, em diversas circunstâncias, mostrou a capacidade de articular atores muito diversos e de muitas ideias diferentes para estabelecer políticas de médio e longo prazo", afirmou Filmus.

    Seus críticos o consideram camaleônico por ter acompanhado setores ultraliberais, como o de Domingo Cavallo, e populistas de esquerda, como o casal Kirchner.

    Em sua defesa, Fernández disse que se sente "um liberal de esquerda, um liberal progressista". "Acredito nas liberdades individuais e acho que o Estado tem que estar presente para o que o mercado precisar. E sou um peronista. Estou inaugurando o braço do liberalismo progressista peronista", declarou.

    Nas últimas semanas, visitou os líderes da esquerda latino-americana - Luiz Inácio Lula da Silva, o uruguaio José "Pepe" Mujica e o boliviano Evo Morales.

    Acalmando os mercados

    Na reta final da campanha, Fernández se esforçou para tranquilizar os mercados, temerosos diante da aguda crise econômica que o país atravessa.

    Embora seja crítico do Fundo Monetário Internacional (FMI), que em 2018 concedeu um auxílio por US$ 57 bilhões à Argentina, descartou um default como o de 2001.

    Também buscou tranquilizar os argentinos. "Vamos cuidar das suas economias, vamos respeitar seus depósitos em dólares. Não têm por que ficarem nervosos", prometeu.

    Justiça e Venezuela

    Entre suas declarações mais polêmicas, está o questionamento dos processos judiciais contra Cristina Kirchner. "A Justiça não está funcionando bem. Por isso, temos que buscar uma alternativa entre todos", afirmou.

    "Isso não quer dizer passar por cima de sua independência, mas vou exigir dos juízes que ajam dignamente", completou.

    Senadora desde 2017 e, por isso, com imunidade parlamentar, Cristina está sendo processada em vários casos por suspeita de corrupção. Está em curso um julgamento oral contra ela.

    "Agradeço a Cristina", foram as primeiras palavras de Fernández ao falar com jornalistas e militantes entre as grades de sua garagem no bairro de puerto Madero.

    No domingo, 27, durante o dia, ele publicou uma foto mostrando a letra L com a mão esquerda, em uma alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dias após ser indicado por Cristina, Fernández visitou Lula na prisão em Curitiba.

    Também causou polêmica sua posição sobre a Venezuela, depois de ter dito que não há ditadura no país vizinho, mas um "governo autoritário". Segundo ele, em caso de vitória, a Argentina adotará uma postura mais parecida com as de México e Uruguai, que reconhecem Nicolás Maduro como presidente e favorecem um diálogo interno.

    Com a Presidência de Macri, a Argentina reconheceu o chefe parlamentar Juan Guaidó como governante interino e tem sido um dos países mais críticos a Maduro.

    Privacidade e discrição

    Fernández é, há 30 anos, professor de Direito na Universidade de Buenos Aires, onde se formou. Sua vida privada é pouco conhecida, mas seu cão, o collie Dylan, tem contas no Twitter (@dylanferdez) e no Instagram (@dylanferdezok).

    Tem apenas um filho, Estanislao, de 24 anos, de uma relação que terminou em 2005. Hoje, vive com a jornalista de Cultura e atriz Fabiola Yáñez, em Puerto Madero, um dos endereços mais nobres de Buenos Aires.

    Entre seus hobbies, está tocar violão. Ele compõe canções românticas e é fã do rock argentino. Torce para o Argentinos Juniors, time de onde saíram os craques Diego Maradona e Juan Román Riquelme. / AFP

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      Redução da classe média se acelera no país

      Achatamento da renda é um dos temas centrais da eleição presidencial de domingo, na qual Mauricio Macri busca a reeleição 

      Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

      24 de outubro de 2019 | 05h00

      O publicitário Juan Cristóbal Miranda, de 43 anos, deixou a classe média argentina em maio. Ele já havia percebido a diminuição do trabalho, mas se surpreendeu com a demissão após dez anos na mesma agência. Ao deixar de ganhar 45 mil pesos (R$ 3 mil) para receber pouco mais da metade em trabalhos esporádicos, Juan ingressou na faixa dos considerados pobres. Este grupo hoje engloba 35,4% da população, segundo dados da Universidade Católica Argentina.

      Agustín Salvia, responsável pelo estudo, destaca que o aumento de cerca de 7 pontos porcentuais se deve justamente a casos como de Miranda. Gente que não sabia o que era pobreza, pelo menos desde a crise de 2001.

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      Em cem anos, Argentina vai de potência mundial a mais de 30% de pobreza

      Entenda quais motivos ocorridos no século XX levaram a Argentina a uma das maiores crises política e econômica de sua história

      Segundo um estudo paralelo, do Instituto de Pensamento e Políticas Públicas (IPyPP), desde 2015 2,7 milhões de argentinos deixaram a faixa da classe média. A redução regular deste grupo, durante décadas associado a um desenvolvimento maior da Argentina em relação aos vizinhos, é um dos temas principais da eleição de domingo, na qual Mauricio Macri busca a reeleição. 

      O favorito é Alberto Fernández, escolhido por Cristina Kirchner como cabeça da chapa peronista. Ela é candidata a vice, cargo que lhe garante uma vaga no Senado e imunidade parlamentar. Cristina deixou o poder em 2015 sob acusações de corrupção, processos pelos quais é ré na Justiça.

      Até o domingo, o Estado abordará diferentes ângulos do desgaste da classe média no país vizinho. O primeiro deles é o desemprego que atingiu Miranda e, por consequência, afetou a renda de Norma, encarregada de limpar o apartamento dele. 

      “Passei a limpar a casa eu mesmo, pois precisei controlar os gastos. É um efeito dominó, que atinge desde a classe média até as camadas mais populares”, afirma Miranda, ainda incluindo-se no primeiro grupo.

      À procura de um emprego

      O desemprego na argentina é de 10%, mas chama a atenção de especialistas o fato de 29% da população economicamente ativa estar procurando emprego. “Muita gente aparece como ocupada, mas está procurando trabalho porque a desvalorização do peso tornou o salário insuficiente”, diz Claudio Lozano, economista do IPyPP.

      Este é o caso de Victor Hugo Castillo, que há 11 anos se formou em direito e não consegue fazer o caminho oposto. Graduado na conceituada Universidade de Buenos Aires (UBA), mesmo lugar onde Alberto Fernández dá aulas de direito penal, Castillo conquistou formação suficiente para chegar à classe média.

      Para Entender

      Guia para entender as eleições na Argentina

      Argentinos decidirão no domingo entre o retorno ao peronismo com Alberto Fernández ou a reeleição do presidente Mauricio Macri

      Ele ficou conhecido na imprensa argentina por ter se graduado após passar pela penitenciária de Devoto, uma das mais perigosas do país. Teve alguns casos trabalhistas, mas não engrenou. Trabalha hoje numa fundação que faz obras de saneamento na Villa 31, a favela mais antiga de Buenos Aires.

      “Tenho esperança ainda de exercer minha profissão. Cheguei a ter uma renda de classe média há três anos, mas voltei à turma dos pobres”, diz.

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      Arquiteto argentino dá aulas, trabalha como segurança e camelô para ganhar R$ 2.300

      Modelo de educação da Argentina já foi referência na América Latina, mas falta de investimentos públicos vem piorando a qualidade do ensino 

      Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

      25 de outubro de 2019 | 06h00

      Aos 35 anos, César Sanabria dá aulas de desenho no primeiro ano de arquitetura na Universidade de Buenos Aires (UBA), a melhor da Argentina. São quatro horas na segunda-feira e outras quatro na quinta-feira, de 19 horas às 23 horas. Como não ganha por isso, trabalha como segurança à noite e ajuda a administrar uma rádio. 

      Sanabria também passa algumas horas como camelô, nos fins de semana, vendendo artigos para celular. Na semana que vem, além das quatro atividades, começará a trabalhar como fiscal da prefeitura, de 8 horas às 14 horas, durante a semana. No fim do mês, juntando tudo, ele ganha 35 mil pesos (R$ 2.370), que o mantém na classe média. Questionado sobre por que insiste em dar aulas de maneira voluntária, tendo de acumular cinco empregos, ele é diplomático.

      “Acho estranho não receber nada pelo trabalho de professor, mas encaro como voluntariado, uma forma de pagar o que recebi de graça. Isto me ajuda a formar uma rede de contatos e dá algum prestígio”, diz César, nascido e criado na Villa 31, a mais antiga favela de Buenos Aires, com quase 90 anos. 

      A educação argentina ainda mantém um bom nível comparada aos vizinhos, mas perdeu a vantagem que tinha, avalia o professor Axel Rivas, diretor da escola de Educação da Universidade San Andrés. Nos anos 60, o país superava a todos em quantidade de anos na escola entre os maiores de 25 anos. Em 2010, foi ultrapassada pelo Chile

      Questionado sobre a diferença entre os governos de Cristina Kirchner e o de Mauricio Macri, Rivas diz que o modelo peronista investia mais, mas “rezava” para dar resultado. O governo atual fez o contrário: propôs grandes mudanças e cortou investimentos.

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      Em 2018, o investimento em educação foi o menor da década: 5,1% do PIB, sendo que a lei determina gastos de 6% do PIB. Deste montante, 70% foi para a educação universitária, em gastos com infraestrutura e salários. Mas, mesmo privilegiado na distribuição de recurso, o ensino superior dá sinal de recuos. 

      O último ranking da consultoria QS indicou que 63% das universidades pioraram de posição em relação ao ano anterior. O aumento da pobreza, que atinge 35,4% da população, segundo a Universidade Católica Argentina, é um dos fatores que afetam a qualidade da educação.

      Segundo Manuel Álvarez Trongé, um dos maiores especialistas em educação do país, a pobreza afeta metade das crianças em idade escolar. Isso faz com que hoje 40% tenham problema de nutrição. Embora tenha havido evolução no ensino primário, metade dos estudantes não terminam o ensino médio.

      Embora a Argentina ainda seja referência regional em termos de acesso universal e gratuito à educação, há diferença de aproveitamento escolar segundo a classe social. Entre os mais pobres, 90% não resolvem um problema simples e 60% não compreendem textos. “Nossos problemas são como um iceberg, em que a inflação está na ponta. Ainda há muitos escondidos. É claro que crise afeta a educação”, afirma Álvarez.

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      'Eu como o que me dão': relatos de fome e solidão nas ruas de Buenos Aires

      Nos hospitais, nas praças e nas estações de trem, multiplicam-se pessoas que, entre cobertores e caixas, fazem da via pública seu abrigo

      Redação, O Estado de S. Paulo

      25 de outubro de 2019 | 11h00

      BUENOS AIRES - As ruas de Buenos Aires são uma janela da crise econômica argentina, a pior desde 2001. Nos hospitais, nas praças e nas estações de trem, multiplicam-se pessoas que, entre cobertores e caixas, fazem da via pública seu último abrigo.

      Desde 2018, a Argentina enfrenta uma grave crise econômica, com alta inflação (37,7% entre janeiro e setembro), aumento do desemprego (10,6%) e pobreza (35,4%, sendo que 7,7% são indigentes). Em julho, havia 1.146 pessoas vivendo nas ruas portenhas, segundo estatísticas do governo da cidade.

      Entretanto, organizações sociais contabilizaram 7.251 pessoas sem moradias, das quais 52% afirmaram estarem pela primeira vez em situação de viver nas ruas.

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      Soledad: "Eu como o que me dão"

      Soledad Sánchez, 36, tem sete filhos com idades de 2 a 19 anos, além de ser avó de um bebê. Mora a poucos metros do célebre Teatro Colón, mas bem longe de outros luxos. Passa os dias sentada à porta de um supermercado, esperando que alguém lhe dê algo para comer, e, quando cai a noite, dorme em frente a um caixa eletrônico. "Eu como o que as pessoas me dão. Se não me dão, não como", explica.

      Soledad já havia vivido na rua com a mãe quando era criança. Mas, até fevereiro de 2018, conseguia, com a soma do valor que seu marido ganhava reciclando e uma ajuda do governo, pagar uma pensão para passar as noites. Quando perderam esse subsídio, seu marido cometeu suicídio. "Ele se matou pela situação que estávamos vivendo. Eles nos ameaçavam, dizendo que, se não saíssemos do hotel, levariam os meninos, e aí, às três da tarde de uma sexta, ele colocou fogo em si mesmo", relembra.

      Sánchez ficou viúva e sem teto. "Antes tinha onde viver, onde colocar meus filhos para dormir, dar banho, dar a eles o que comer, tudo. Agora não é vida", diz, abraçada à filha de 6 anos que deixou a escola porque teve seu material escolar roubado, enquanto a outra, de 15, a observa da esquina.

      O resto de seus filhos, diz orgulhosa, são escolarizados: "Mando eles à escola para que amanhã eles sejam alguém, não como eu". Por enquanto, sair dessa situação é impossível. "Com sete filhos, o aluguel nos custa 12 mil pesos (cerca de R$ 650) e, além disso, não somos aceitos em qualquer lugar", conta.

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      José: "Na rua, sente-se muita tristeza"

      José Rivero, 37, chegou a Buenos Aires da província de Salta, ao norte da Argentina, há quatro anos. Embora não tenha conseguido um emprego formal, sempre conseguia "inventar trabalho onde não tinha".

      O último foi em uma banca de objetos usados em uma feira. Há três meses, perdeu a vaga e, com ela, a possibilidade de continuar pagando o aluguel. Atualmente, passa seus dias nos arredores de um hospital público e as noites, em um abrigo do Estado. "Fiquei sem nada", lamenta.

      Para juntar um pouco de dinheiro, ajuda duas mulheres a vender sanduíches e café em suas bancas improvisadas na porta do hospital. "Vivo um dia após o outro, ganho 200 pesos (cerca de R$ 10) por dia, mas, como tudo está caro, o que eu faço com isso?", pergunta.

      A vida na rua fica cada vez mais difícil. "Dizem por toda parte que vão me chamar para trabalhar, mas nunca acontece", comenta preocupado, pois há pouco tempo roubaram seu celular. "Na rua, sente-se muita tristeza", explica. 

      Mas ele não perde a esperança de conseguir trabalho: "Eu vim de Salta com a esperança de seguir em frente e, apesar de tudo, ainda não me rendi".

      Francisco: "Temos que aceitar a realidade"

      Há mais de uma década nas ruas, Francisco Omar Niubó, de 60 anos, nem sonha em deixar a galeria do hospital onde vive. "Temos que aceitar essa dura realidade e não ambicionar o que sabemos que não vamos conseguir", aconselha.

      Há 15 anos, começou a sofrer pela falta de trabalho, até que o dinheiro que ganhava como pintor não foi mais suficiente para pagar o aluguel. Hoje, garante que a situação está mais difícil do que nunca.

      Durante o dia, percorre a cidade com uma maleta carregada de pincéis e vidros de tinta, na esperança de que alguém o contrate para decorar um vitral ou fazer um cartaz. 

      "Cada vez se trabalha menos e se compra menos com o que se ganha", explica. "Antes, há 5 anos, nos diferentes bairros a que eu ia, quem não te dava um café oferecia um refrigerante, uma cervejinha, um sanduíche... Hoje essas pessoas não têm dinheiro nem para comer, quanto mais para me oferecer um bico. Pioramos muitíssimo".

      Niubó vive um dia de cada vez: "Antes, dizíamos 'Se Deus quiser', mas parece que Ele está de férias, pois estamos passando fome", conclui. /AFP

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