Matt Frost/ITV/Handout via Reuters
Matt Frost/ITV/Handout via Reuters

Um caminho para as eleições britânicas

Muitos eleitores do bairro de Putney já se dizem de olho no voto tático, o que pode ajudar o Reino Unido a permanecer na Europa

Timothy Garton Ash, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 06h30

“Você vai votar na gente?”, pergunta o cabo eleitoral liberal-democrata diante de uma casa chique em Putney. “Não”, responde o homem de meia idade parado na porta, “vou votar pela democracia”. Todos entendemos o que ele quer dizer: Partido Conservador vai cumprir a promessa do referendo de 2016 e não revogar o Brexit sem mais nem menos, como os liberal-democratas propõem. Meu pai, que viveu a maior parte da vida aqui perto, poderia ter dado a mesma resposta.

Putney, que à primeira vista parece um bairro bem comum do sudoeste de Londres, na verdade é um berço da democracia inglesa. Foi aqui, na Igreja de Santa Maria, que ainda resiste junto ao Tâmisa, que os soldados de Oliver Cromwell se reuniram para um debate revolucionário em 1647.

Foi aqui que Thomas Rainsborough avançou a ideia fundamental da democracia moderna com essas palavras imortais: “Creio que o mais pobre inglês tem tanta vida para viver quanto o mais rico e todo homem que vive sob um governo deve, primeiro, por seu consentimento, colocar-se sob esse governo”.

Mais de três séculos depois, a zona eleitoral de Putney pode ser um guia para a mais recente e decisiva escolha democrática da Inglaterra. Se Putney continuar nas mãos dos conservadores, Boris Johnson provavelmente garantirá ampla maioria no Parlamento – como as pesquisas de opinião estão prevendo – e tirará o Reino Unido da União Europeia em 31 de janeiro.

Se o bairro voltar ao Partido Trabalhista, ainda haverá a possibilidade de uma maioria parlamentar multipartidária para um segundo referendo, no qual o país poderia democraticamente optar por permanecer na UE. Meu pai pode ter concordado com o homem na porta da casa cara, mas eu não. Como disse David Davis, um dos principais defensores do Brexit, se uma democracia não pode mudar de ideia, ela deixa de ser uma democracia.

Para alcançar esse resultado, será necessário um voto tático hábil em larga escala, tanto aqui quanto em dezenas de outros distritos eleitorais. No referendo de 2016, 72% de Putney votou pela permanência. Suas varandas vitorianas, suas confortáveis casas geminadas eduardianas e suas mansões modernas estão cheias de conservadores renitentes.

A história eleitoral local e as recentes pesquisas da organização Best for Britain indicam claramente que, se o Brexit ainda é a questão-chave para esses conservadores, eles precisam tapar o nariz e votar no Partido Trabalhista. O mesmo deveria ocorrer com a minoria de liberal-democratas.

Voto tático

Em outros lugares como, por exemplo, no distrito eleitoral de Oxford West e Abingdon, onde moro agora, os eleitores trabalhistas devem retribuir o favor e votar no Liberal-Democrata. Atualmente, existe um alto grau de consenso entre os diferentes sites de aconselhamento para o voto tático. Todo mundo que acredita que essa eleição é nossa última chance de interromper o Brexit deve simplesmente seguir esse aconselhamento, independentemente do que acha sobre o partido ou candidato favorito.

Como cresci no bairro de Roehampton, que faz parte do distrito eleitoral de Putney, para mim é uma experiência curiosamente emocionante estar de volta entre as típicas casas de tijolos aparentes da minha juventude. Meus pais se mudaram para cá porque o tio de minha mãe era o deputado conservador local.

O tio Hugh foi eleito em 1942 e ocupou o cargo até 1964, quando os blocos de apartamentos do novo centro habitacional estatal construído em Roehampton levaram o bairro para o Partido Trabalhista. Desde então, os trabalhistas e conservadores se revezaram no cargo, mais recentemente ocupado pela merecidamente popular Justine Greening, uma das conservadoras pró-Europa que foram castigadas pelo valentão Johnson e, como resultado, agora se aposentaram da política.

Quando eu era criança, meu pai, conservador convicto, me levava quando saía atrás de votos para o partido naqueles blocos de apartamento de Roehampton. Nunca me esquecerei de cena que via se repetir do primeiro ao décimo andar: a porta se abre, alguém envolto na fumaça do cigarro oferece a meu pai pouco mais que uma variante mais ou menos educada do “não vou votar com você”. Agora estou diante dessas mesmas portas, nesses mesmos blocos, e nada mudou e tudo mudou.

Meu retorno a Putney me deixa deprimido e animado na mesma medida. Deprimido porque aqui, como em outros lugares, a desastrosa desunião do campo pró-Europa pode dar a vitória a Johnson e aos defensores do Brexit. A campanha Voto do Povo, que levou um milhão de pessoas às ruas de Londres, entrou em colapso por causa de disputas internas. Os candidatos trabalhistas e liberal-democratas não estão ajudando uns aos outros onde claramente deveriam. 

A onda amarela do renascimento liberal não se materializou, em parte por causa de dois grandes erros da líder novata Jo Swinson: propor a revogação do Artigo 50 sem um segundo referendo (democraticamente ilegítimo em princípio, taticamente tolo na prática) e se colocar na frente e no centro da campanha para nossa próxima primeira-ministra. 

Com trabalhistas e liberal-democratas fazendo campanha forte em Putney, uma sofisticada pesquisa YouGov hoje prevê que eles dividirão o voto da oposição, dando assim uma vitória estreita ao candidato conservador. E, no sistema injusto do Reino Unido, isso significa que, diferentemente dos sistemas de representação proporcional, todos os esforços dos dedicados cabos eleitorais trabalhistas e liberal-democratas que vi pelas calçadas provavelmente não valerão nada se o mais recente sucessor do tio Hugh entrar em cena.

Também fico deprimido pelo fato de que esses blocos de apartamentos estão exatamente como me lembro, apenas muito mais precários, enquanto, a poucos passos de distância, incontáveis milhões de libras foram gastas na construção das casas dos ricos. “O mais pobre inglês” não consegue pagar nem pela despensa de uma casa em Putney hoje em dia.

Quando cito uma estimativa online de que o preço médio de uma casa aqui passa de 500 mil libras, vários moradores têm a mesma reação: “oh, isso me parece um pouco baixo”. Enquanto isso, os bancos de alimentos andam mais procurados do que nunca e o padre da Igreja de Santa Maria me diz: “tivemos 35 pessoas sem-teto dormindo na igreja na segunda-feira”.

Mas também estou animado, porque, no mesmo lugar em que os ingleses reinventaram a democracia, ela está viva e prosperando. Falei com os três principais candidatos e achei que todos eram pessoas decentes, civilizadas e sérias. Por onde passei, vi grupos de cabos eleitorais indo de porta em porta, digitando suas descobertas nos smartphones. 

Embora os candidatos tenham enfrentado incidentes isolados de abuso, na maioria das vezes o povo de Putney mantém as melhores tradições inglesas de civilidade. Os eleitores na porta de casa também foram impressionantemente atenciosos, e muitos deles já se dizem de olho no voto tático. Então, esse berço improvável da democracia ainda pode ajudar a manter o Reino Unido no lugar a que ele pertence: a Europa. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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