Um caos fabricado nos EUA em território hondurenho

Análise: Dana Frank / NYT

É PROFESSORA DE HISTÓRIA NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, ESTUDA A INTERVENÇÃO AMERICANA NO MOVIMENTO TRABALHISTA HONDURENHO DURANTE A GUERRA FRIA. O COLUNISTA MAC MARGOLIS CONTESTA AS TESES DESTE ARTIGO NA PÁGINA SEGUINTE, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h08

Já é hora de reconhecer o desastre de política externa em que se tornou o apoio americano ao governo de Porfirio Lobo em Honduras. Desde o golpe de 28 de junho de 2009 que depôs o presidente José Manuel Zelaya, o país vem descendo cada vez mais fundo num abismo de direitos humanos e segurança. Esse abismo é, em boa parte, um produto do Departamento de Estado americano.

Segundo dados da ONU, Honduras tem hoje a mais alta taxa de assassinatos do mundo, e a cidade hondurenha de San Pedro Sula é mais perigosa que Ciudad Juárez no México, um centro de violência dos cartéis da droga. Boa parte da imprensa americana vem atribuindo essa onda de violência exclusivamente ao tráfico de drogas e às gangues. Mas foi o golpe que abriu as portas para um enorme aumento do crime, e desencadeou uma onda contínua de repressão respaldada pelo Estado.

O governo de Lobo chegou ao poder em uma eleição em novembro de 2009 administrada pelas mesmas figuras que forjaram o golpe. A maioria dos candidatos de oposição se retirou em protesto e todos os principais observadores internacionais boicotaram a eleição, com exceção do National Democratic Institute e do International Republican Institute, ambos financiados pelos EUA. O presidente Barack Obama reconheceu sem demora a vitória de Lobo mesmo quando a maior parte da América Latina se recusou a fazê-lo. O governo de Lobo é, de fato, um filho do golpe. Ele conserva a maioria das figuras militares que o perpetraram e ninguém foi para a prisão por isso.

Essa cadeia de eventos - um golpe que os EUA não impediram, uma eleição fraudulenta que aceitaram - permitiu que houvesse agora uma proliferação descontrolada da corrupção. O sistema judicial quase não funciona. A impunidade impera. Pelo menos 34 membros da oposição desapareceram ou foram mortos, e mais de 300 pessoas foram mortas por forças de segurança do Estado desde o golpe, segundo a organização de direitos humanos Cofadeh. Pelo menos 13 jornalistas foram mortos desde que Lobo assumiu, segundo o Comitê para Proteção de Jornalistas, com sede em Nova York.

Agentes policiais em Tegucigalpa, a capital, teriam matado o filho de Julieta Castellanos, a reitora da maior universidade do país, junto com um amigo dele, em 22 de outubro de 2011. Os altos escalões da polícia rapidamente admitiram que seus suspeitos eram agentes policiais, mas não conseguiram prontamente detê-los. Quando figuras eminentes se apresentaram para denunciar que a polícia estava infestada de esquadrões da morte e traficantes de drogas, o denunciante mais famoso foi um ex-comissário de polícia, Alfredo Landaverde. Ele foi assassinado em 7 de dezembro. Somente agora o governo começou a fazer prisões significativas de policiais.

A repressão estatal continua. Segundo a Cofadeh, pelo menos 43 ativistas camponeses que participavam da luta pela terra no Vale de Aguán foram mortos nos últimos dois anos e meio nas mãos da polícia, dos militares e do Exército de segurança privado de Miguel Facussé - mencionado nos telegramas da embaixada dos EUA que foram divulgados pelo site WikiLeaks como o homem mais rico do país, um grande defensor do regime pós-golpe e proprietário de terras usadas para traficar cocaína.

Com tudo isso, no começo de outubro, Obama elogiou Lobo na Casa Branca por sua liderança em uma "restauração de práticas democráticas". Desde o golpe, os EUA mantiveram e, em algumas áreas, aumentaram o financiamento das forças policiais e militares de Honduras e têm ampliado suas bases militares no país, segundo uma análise da Fellowship of Reconciliation. O Congresso, porém, finalmente começou a recuar. Em maio do ano passado, 87 membros assinaram uma carta à secretária de Estado americana, Hillary Clinton, pedindo uma suspensão da ajuda às forças militares e policiais de Honduras.

O deputado Howard L. Berman, da Califórnia, o democrata mais graduado da Comissão de Assuntos Externos da Câmara, escreveu-lhe em 28 de novembro perguntando se os EUA não estariam armando um regime perigoso. E em dezembro, o senador Patrick J. Leahy, democrata de Vermont, e outros obtiveram condições para uma pequena parte da ajuda averbada às forças militares e policiais hondurenhas em 2012.

Por que o Departamento de Estado saiu em defesa do governo Lobo apesar das evidências brutais da corrupção do regime? Em parte porque ele cedeu ao eleitorado cubano-americano da deputada Ileana Ros-Lehtinen, a presidente republicana da Comissão de Assuntos Externos da Câmara, e seus aliados. Eles têm sido contundentes sobre Honduras como a primeira peça de dominó a empurrar para trás a linha de governos de esquerda e centro-esquerda que venceram eleições na América Latina nos últimos 15 anos. Com sua base aérea americana, Honduras é crucial também para a estratégia militar dos EUA na América Latina.

No momento em que Honduras mergulha num abismo trágico, é hora de finalmente cortar toda ajuda às forças militares e policiais deste país. "Parem de alimentar a besta" é como a senhora Castellanos, a acadêmica cujo filho foi morto, coloca a questão. Ela, como outros defensores de direitos humanos, insiste que o governo Lobo não conseguirá se reformar.

O Departamento de Estado está começando a ajudar a enfrentar a situação por baixo do pano. Mas ativistas de direitos humanos hondurenhos, junto com muitos nos EUA que se importam com Honduras, não acreditam que este governo americano possa, ou deva, fazer uma limpeza da latrina que ele ajudou a criar ao apoiar um governo que deve seu poder a um golpe.

Em vez disso, precisamos respeitar as propostas de abordagens alternativas que a oposição e os defensores de diretos humanos hondurenhos estão começando a formular. Elas provêm de pessoas que continuam lutando contra o golpe e expostas ao risco de morte nas mãos das forças de segurança do Estado. Elas, e não o Departamento de Estado, têm o direito de liderar o resgate do seu país. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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