Remo Casilli/Reuters
Remo Casilli/Reuters

Um Caravaggio no teto para chamar de seu: vila histórica de Roma vai a leilão

A Villa Boncompagni Ludovisi, mais conhecida como Villa Aurora, tem o único mural do mestre do barroco italiano, e será leiloada em 19 de janeiro de 2022, com lance inicial de € 471 milhões

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2021 | 05h00

Corria a década de 1590, e Caravaggio estava na pindaíba. Apesar de ser um artista reconhecido e ter feito alguns quadros consagrados, o mestre do barroco italiano, Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) não tinha um mecenas, apenas contato com vendedores de obras de arte que intermediavam suas negociações.

Um desses vendedores, Costantino Spata, tinha uma loja na Piazza Navona, em Roma. Ele convenceu Caravaggio a pintar dois quadros para chamar a atenção de um certo Cardeal, Francesco Maria del Monte, que tinha relação próxima com Ferdinando I de Medici, o maior mecenas da Toscana, então epicentro das artes no mundo. Foi assim que Caravaggio pintou as primeiras versões de dois de seus quadros mais famosos, Os Trapaceiros e A Adivinha

Funcionou. O Cardeal Francesco Maria del Monte não apenas comprou os dois quadros, como deu casa, comida e roupa lavada para Caravaggio – além da garantia de vendas de quadros e um salário, ao colocá-lo entre os funcionários de sua vila em Roma.

Vila que agora está à venda, com direito à única pintura no teto feita por Caravaggio no mundo – que não é considerada um afresco, por não ter sido executada com pigmentos à base de água em gesso fresco, mas sim com tinta a óleo. 

A Villa Boncompagni Ludovisi, mais conhecida como Villa Aurora, será leiloada em 19 de janeiro de 2022, com lance inicial de € 471 milhões, quase R$ 2 bilhões na cotação atual. O leilão acontece depois de três anos de disputa judicial em torno da herança do proprietário, o príncipe Nicolò Boncompagni Ludovisi. 

O príncipe Nicolò Boncompagni Ludovisi era um bon vivant, que passou a vida frequentando a alta sociedade. Descendente dos papas Gregório XIII e Gregório XV, ele herdou a Vila Aurora . 

Quando ele morreu, em 2018, uma disputa judicial feroz pelos seus bens começou entre os filhos do primeiro casamento e sua terceira mulher, a americana Rita Jenette. A Vila Aurora será executada porque nenhum deles pode pagar por sua manutenção. O valor inicial é de € 471 milhões.

Lar, doce lar

A vila foi a morada de Del Monte por décadas. “Del Monte comprou lá uma propriedade, que reestruturou antes de contratar Caravaggio para pintar o mural no seu laboratório, que era apenas uma sala muito pequena”, disse Alessandro Zuccari, professor de História na Universidade Sapienza em Roma, responsável pela supervisão da avaliação do mural, citado pelo The Guardian.

A obra é intitulada Júpiter, Netuno e Plutão, tem 2,75 metros de largura e retrata os três deuses que dão nome ao mural com seus respectivos animais – Júpiter com sua águia, Netuno com seu hipocampo (criatura mítica meio cavalo, meio peixe), e Plutão com seu Cérbero, o cão de três cabeças. 

A cena alegórica representa o interesse do cardeal Del Monte pela alquimia: Júpiter, representando o ar e o enxofre, Netuno, água e mercúrio, e Plutão, terra e sal. O globo translúcido no centro da cena mostra o sol em órbita ao redor da Terra e os signos do zodíaco: Peixes (no qual Júpiter coloca a mão), Áries, Touro e Gêmeos, uma referência ao início e desenvolvimento do processo alquímico. Acredita-se que os rostos dos deuses sejam baseados no do próprio Caravaggio. “É uma obra extraordinária e difícil de avaliar, visto que foi o único mural de Caravaggio, não tínhamos nada para comparar”, contou Zuccari ao jornal britânico The Guardian. 

A propriedade possui 2,8 mil m² e foi construída por ele no final do século XVI, como um pavilhão de caça, já dentro do extenso retiro campestre Villa Ludovisi – nome dado em homenagem ao nobre Ludovico Ludovisi. 

Em 1620, o cardeal vendeu a vila para Ludovisi e no final do século XIX toda a propriedade foi vendida para o governo da cidade de Roma, onde grande parte dos edifícios foram destruídos para dar lugar à Via Veneto. O que sobrou foi apenas a Vila Aurora – seus jardins e suas obras de arte, entre elas a pintura no teto de Caravaggio.

Os jardins foram projetados por André Le Notre, o arquiteto dos jardins de Versalhes, e o escritor francês Stendhal os considerou entre os mais bonitos do mundo. Além de Caravaggio, o local abriga outras pinturas e obras de arte valiosas, como um afresco de teto em sua sala central, pintado em 1621 pelo artista barroco Guernico, que mostra a deusa Aurora.

Quem adquirir o imóvel terá de despender mais € 11 milhões em restauração. Por ser protegido pelo Ministério da Cultura da Itália, a propriedade pode ser adquirida pelo Estado, que terá o direito de cobrir o valor pago em leilão. “O Estado tem intenção de cobrir, mas não se sabe se terá dinheiro para tanto”, disse Zuccari. 

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