Um Caribe mais limpo após protestos na Venezuela?

Com a economia venezuelana em crise, caribenhos que dependem do petróleo do país vizinho aceleram movimento por fontes de energia renovável

EZRA , FIESER, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2014 | 02h07

Quando firmado em 2005, o pacto energético da Venezuela com seus vizinhos caribenhos, o Petrocaribe, tinha em parte como objetivo ajudar as ilhas a se afastar dos combustíveis fósseis. Quase uma década depois, o Caribe está em vias de atingir esta meta - apesar da aliança construída.

Dezessete países recebem petróleo venezuelano por meio do Petrocaribe, com opção de pagamento em 20 anos ou mais a taxas de juros com desconto. Como parte do acordo, os governos deveriam traçar um novo caminho em direção à independência energética, incluindo redes elétricas eficientes e desenvolvimento de fontes renováveis. As importações de energia mais barata também seriam um meio de subsidiar os preços internos. Mas alguns países nada fizeram, vendo naquele pacto um meio de financiamento a curto prazo. A República Dominicana, por exemplo, recebe petróleo barato e depois o vende a preços de mercado, embolsando a diferença.

Como resultado, os países do Caribe devem à Venezuela bilhões de dólares e até recentemente pouco haviam feito no sentido de uma independência energética. Agora, as preocupações aumentaram porque a empresa estatal de petróleo venezuelana logo fechará as torneiras e venderá o produto no mercado aberto para escorar uma economia atribulada que tem provocado protestos em massa no país. E também, reconhecendo que as altas tarifas elétricas tornaram as economias caribenhas que dependem muito do turismo menos competitivas, os líderes regionais se colocaram na linha de frente do movimento por energia renovável.

Os países caribenhos aceleraram a criação de fazendas eólicas, parques de painéis solares e usinas geotérmicas. E tomaram a decisão, cara e de longo prazo, de abandonar fontes que produzem gases com efeito estufa, que contribuem para a elevação dos níveis dos oceanos e ameaçam a própria existência do Caribe.

Hoje Aruba retira 20% da sua energia de fontes como o vento; a República Dominicana construiu dois campos eólicos que geram eletricidade suficiente para substituir importações de petróleo equivalentes a três dias; os moradores de Barbados podem instalar painéis solares e vender o excesso de eletricidade para redes elétricas; e Montserrat vem extraindo energia do próprio vulcão que devastou a ilha.

Aruba, a líder do movimento caribenho, prometeu em 2012 extrair toda a sua eletricidade de fontes renováveis em 2020. Aplicou US$ 300 milhões na modernização de turbinas eólicas e usinas de dessalinização de água, inaugurou uma fazenda eólica e tem projeto para uma segunda. Com isso, reduziu em 50% seu consumo de diesel desde 2012. "Temos observado uma mudança para as energias limpas, mas este é um processo para alcançar uma capacidade suficiente", disse Maria Dukharan, economista da RBC Caribbean em Trinidad & Tobago que estuda mercados de energia caribenhos.

Países voltados para as fontes de energia renováveis conseguem reduzir seus déficits uma vez que gastam menos em importações de combustível. Diversos países caribenhos estão tão endividados que credores multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) consideram a dívida insustentável, com os altos custos de eletricidade freando sua competitividade. "Os gastos com energia destroem nossos lucros", disse Carlos Sánchez, que administra uma empresa de turismo e um hotel, em Santo Domingo, República Dominicana.

No momento os consumidores caribenhos arcam com tarifas de energia elétrica cinco vezes maiores do que nos Estados Unidos. E a oferta de energia é irregular, obrigando muitas empresas - e moradores - a comprar geradores. Não confiando na rede elétrica pública, Sánchez instalou geradores a diesel em seu hotel e escritório. "Não podemos competir com as cadeias maiores porque nossos custos são muito altos", disse ele.

Com base no pretenso socialismo de Hugo Chávez, a Venezuela decidiu dividir seu petróleo com os países caribenhos em troca de apoio político. Os países correram rapidamente para se beneficiar das condições favoráveis. Hoje, os 17 beneficiários do pacto Petrocaribe atendem 43% de suas necessidades energéticas pelo acordo, segundo a estatal venezuelana PDVSA.

Mas desde a criação da Petrocaribe, a Venezuela deixou de explorar suas vastas reservas e a produção caiu. No fim do ano passado a produção de petróleo era de 2,45 barris diários, uma queda em relação aos 2,9 barris por dia produzidos no ano anterior, de acordo com estudo da Bloomberg.

Ao mesmo tempo, enquanto mais petróleo venezuelano tem sido prometido para parceiros estrangeiros como a China, em troca de empréstimos, os países caribenhos lutam para resgatar suas dívidas. A República Dominicana devia US$ 3,4 bilhões para a Venezuela desde o ano passado. Segundo o acordo firmado com a Venezuela, a República Dominicana pode pagar parte da sua dívida num prazo de 23 anos a uma taxa de juro de 2%.

Mas, em vez de pagar parte dessa dívida em dólares americanos, dos quais Caracas necessita, os dominicanos enviam alimentos para o país, o que é permitido pelo acordo do Petrocaribe. Para a Venezuela, esse acerto não é o ideal. A inflação alta, a escassez de dólares para pagar as importações e as divisões políticas alimentaram os protestos que causaram a morte de mais de 30 pessoas, incluindo policiais, civis e manifestantes.

Mas mesmo com esses protestos, a Venezuela diz a seus parceiros caribenhos que a aliança se manterá segura. Mas os governos da região não compartilham dessa confiança, embora não o afirmem publicamente. "Você não vai ouvir nenhum país beneficiário dizer em público 'parece que a Venezuela está com problemas'. E não ouvirá a Venezuela dizer que o futuro da Petrocaribe está em risco, porque no momento o país precisa de todo o apoio político possível", disse um consultor com sede em Caracas que trabalha com assuntos energéticos, incluindo o acordo Petrocaribe. "Não acho que os governos da região não percebam o que vem sucedendo. É insano esperar que a Venezuela terá recursos para continuar fornecendo combustível para toda a região, como tem ocorrido". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA

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