Um caso que expõe a hipocrisia saudita

Riad é aliada dos EUA na luta contra o Estado Islâmico, mas pode decapitar intelectual acusado de apostasia por questionar o papel da religião na política

TRUDY RUBIN , THE PHILADELPHIA INQUIRER

11 de abril de 2015 | 02h01

Nada simboliza melhor as loucura do Oriente Médio e as contradições da política americana do que o caso do blogueiro saudita condenado a mil chibatadas por defender a liberdade de expressão. Escrevi sobre Raif Badawi em janeiro após ele ter recebido suas primeiras 50 chibatadas. Desde então, uma campanha global lançada por grupos de defesa dos direitos humanos e por sua corajosa mulher, que recebeu asilo no Canadá, impediu a continuação do castigo.

Mas Badawi, que também está cumprindo pena de 10 anos de prisão, está sendo ameaçado com um novo julgamento por acusações de apostasia, que são puníveis com a morte. Ele poderá ser decapitado.

A importância desta história vai além da necessidade de salvar um corajoso defensor dos direitos humanos de uma sentença bárbara. O caso Badawi expõe ao ridículo a suposta aliança entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita para pôr fim ao "califado" do Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Badawi foi preso porque seu blog, o Saudi Free Liberals Forum, ousou criticar a dura interpretação saudita do Islã - e o papel da religião na política. Mas o ramo saudita do Islã, conhecido como wahabismo, tão evidente na condenação de Badawi, não é tão diferente dos jihadistas que eles desprezam.

Essa interpretação estreita é uma variante da doutrina salafista cujos seguidores procuram viver como os primeiros muçulmanos. Ela é intolerante com outras religiões e mesmo com outras seitas muçulmanas, enquanto criminalizam todos os infiéis. Ela conclama os muçulmanos a rejeitar os valores e normas ocidentais.

Durante décadas, o reino saudita gastou centenas de milhões de dólares para disseminar sua versão da fé por todo o mundo muçulmano, financiando escolas religiosas e livros didáticos da Ásia Central a todos os Estados árabes. Dezenas de milhares de sírios e egípcios, que vieram à Arábia Saudita como trabalhadores convidados, também absorveram essas ideias. Sauditas privados estavam na linha de frente de financiamento de grupos radicais islâmicos que lutam contra Bashar Assad na Síria (ainda não está claro se todo este financiamento terminou).

A diferença entre a versão saudita radical do Islã e a dos jihadistas é que grupos como o Estado Islâmico levaram seu pensamento um passo além. Enquanto clérigos sauditas conclamam a uma obediência total ao governante, os jihadistas rotulam os dirigentes árabes atuais de "infiéis" e procuram derrubá-los pela força.

Badawi, por sua vez, estava tentando encorajar o tipo de debate pacífico que é fundamental para as nações árabes saírem do atraso que alimentou a fracassada Primavera Árabe.

Segundo o famoso Relatório sobre Desenvolvimento Humano Árabe das Nações Unidas de 2002 - compilado por intelectuais árabes -, o mundo árabe vem sendo tolhido por um déficit de liberdade, um déficit de conhecimento (escolas fracas, pouca tradução de livros estrangeiros) e um déficit na capacitação de mulheres. O relatório também sugeriu nas entrelinhas que a religião pode ter jogado um papel nesses déficits.

Seus autores dizem que pouca coisa mudou desde o relatório original.

Esses fracassos levaram muitos jovens às ruas na Primavera Árabe de 2011. Badawi só estava tentando discutir estes problemas online. Suas questões eram especialmente pertinentes na Arábia Saudita, pois ele questionava o papel do Islã intolerante no bloqueio da criatividade árabe.

"Tão logo um pensador começa a revelar suas ideias", escreveu Badawi em 12 de agosto de 2010 (conforme tradução do jornal The Guardian), "você encontrará centenas de fatwas que o acusavam de ser um infiel só porque ele teve a coragem de discutir alguns tópicos sagrados. Eu realmente receio que pensadores árabes migrem em busca de ar fresco e para escapar da espada das autoridades religiosas". Em setembro de 2011, Badawi criticou clérigos sauditas como o pregador que defendeu na TV a punição de astrônomos com base em que eles encorajavam o ceticismo sobre a sharia (a lei islâmica). Pouco antes de ser preso, Badawi escreveu sobre o motivo que o atraía para o liberalismo, e por que clérigos extremistas viravam pessoas contra este motivo. "Para mim o liberalismo significa apenas viver e deixar viver", escreveu. Isso é o oposto do que pretendem os que têm um "monopólio exclusivo da verdade".

O Estado Islâmico especializou-se em reclamar esse monopólio e decapitar os que o contestam. Todos que discordam são proclamados infiéis e devem morrer.

Como aceitar, então, que o principal aliado dos EUA no Golfo, a Arábia Saudita, possa exibir uma intolerância similar com Badawi? Questionadas a esse respeito, autoridades sauditas insistem que não tolerarão nenhuma interferência em seu "Judiciário independente". Essa é apenas uma cortina de fumaça para sustar o debate sobre o impacto da ideologia religiosa no país e no exterior.

Sessenta membros do Congresso americano conclamaram o governo saudita a soltar incondicionalmente Badawi e outros prisioneiros de consciência, entre eles seu advogado Waleed Abu al-Khair, que foi condenado a 15 anos por ousar assumir o caso. A Anistia Internacional pediu a libertação imediata de ambos.

E o governo Obama deveria defender com firmeza ante seu aliado saudita: vocês não podem combater o EI ao mesmo tempo que promovem uma ideologia religiosa que encoraja uma mentalidade semelhante. Não podem ameaçar decapitar um intelectual que busca a reforma religiosa desesperadamente necessária em seu país e na região. Enquanto Badawi permanecer na prisão, a campanha saudita contra o Estado Islâmico é uma piada. / Tradução de Celso Paciornik

* É colunista

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