Um chinês faz falta

Dentro de poucos dias, em meados de outubro, a China terá um novo dirigente supremo. Hu Jintao, atual líder do Partido Comunista e presidente do país, sairá de cena para deixar o lugar para seu sucessor, que será entronizado pelo 28.º Congresso do PC chinês. Já se sabe o nome do homem que governará 1,3 bilhão de pessoas: trata-se do atual vice-presidente, Xi Jinping.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2012 | 10h08

O inconveniente é que ele anda sumido. Foi citado ontem brevemente pela mídia estatal, em uma declaração conjunta de condolências pela morte de um general, mas não é visto há 12 dias. Um encontro programado com Hillary Clinton foi cancelado. Outro, com o primeiro-ministro de Cingapura, também. Assim como um terceiro, com o primeiro-ministro dinamarquês. De repente, a web chinesa ficou congestionada.

De acordo com as últimas informações, a imprensa de Hong Kong fala em tom tranquilizador. Xi Jinping estaria em plena forma, preparando o congresso e projetando uma ampla reforma política. O longo silêncio e esses "falsos compromissos" constituem um acontecimento político em um império tão apegado a rituais. Analisemos as diferentes hipóteses que circulam em Pequim.

A mais frequente é a da "dor nas costas" de que Xi Jinping estaria sofrendo em consequência de um intenso exercício de natação. No entanto, paradoxalmente, até agora, os especialistas da China ignoravam que Xi Jinping fosse um grande nadador.

Há também hipóteses políticas: ele teria sido vítima de um atentado. Cercado por dois jipes enquanto viajava em seu carro, acabou atingido na cabeça e perdido os sentidos. O atentado seria obra de uma facção de militares próximos de um personagem de destaque, Bo Xilai, ex-prefeito da enorme cidade de Chongqing, caído em desgraça em razão de um escândalo (a mulher de Bo Xilai foi até condenada à morte por ter mandado assassinar um britânico envolvido em negócios escandalosos do marido, mas teve direito a sursis).

Terceira hipótese: Xi Jinping teria sido informado de que o atual número 1, Hu Jintao, manobraria para manter, mesmo depois do fim de seu mandato, uma vasta influência no país. Hu pretenderia ocupar, por mais três anos, o cargo de presidente da comissão militar central, o posto mais importante da China. Segundo boatos que circulam em Pequim, Hu Jintao já teria designado o sucessor de Xi Jinping para 2017. Tais manobras teriam preocupado o "delfim" designado, que temeria não passar de um presidente de transição, despido de verdadeiro poder.

Como escolher entre essas hipóteses? Todo esse teatro desenrola-se na sombra e no silêncio. É provável que nenhuma das três seja a verdadeira. E também é possível que, na realidade, Xi Jinping esteja cuidando tranquilamente de suas ocupações, como afirma a maioria dos jornais de Hong Kong.

Nós damos muita importância a esses boatos e nos limitamos a mostrar até que ponto o protocolo da vida política da China, sobretudo no momento da transferência do poder supremo, é regido por regras tão obscuras que alguém habituado à democracia ocidental não consegue compreender. Aguardaremos pacientemente a abertura do 28.º Congresso do PC chinês, essa grandiosa reunião que costuma ocorrer em meados de outubro, embora ninguém em Pequim saiba a data certa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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