Mike Segar/Reuters
Mike Segar/Reuters

Um comando militar arriscado

Presidente está fora de sua área de competência e parece despreparado para liderar a maior força armada do mundo

Paul Krugman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 03h00

Nos últimos meses, pessoas poderosas vêm advertindo sem alarde que o governo de Donald Trump pode levar os EUA a uma crise em política externa, até mesmo a uma guerra.

Em parte, essa preocupação refletia a mania de Trump de fazer declarações bombásticas e abusar de bravatas, que soam espetaculares no site Breitbart e na Fox News, mas não são bem aceitas pelos governos mundo afora. Refletia também uma fria visão dos incentivos que o novo governo teria de encarar: quando os eleitores da classes trabalhadora começaram a se dar conta de que as promessas do candidato Trump sobre emprego e assistência médica não eram sinceras, as distrações externas se tornaram cada vez mais atraentes.

O provável ponto decisivo parecia ser Pequim, tema de falas duras de Trump, pelas quais as disputas a respeito das ilhas do Mar do Sul da China poderiam facilmente tornar-se conflitos militares. Mas, ao que tudo indica, a guerra com a China terá de esperar. Em primeiro lugar vem a Austrália, depois o México, depois o Irã, e então a União Europeia (jamais a Rússia.) E embora possa haver um cálculo cínico em algumas tentativas de provocar crises, essa se assemelha cada vez menos a uma estratégia política e cada vez mais a uma síndrome psicológica.

O confronto com o premiê australiano, Malcolm Turnbull, chamou a atenção da imprensa em geral, provavelmente por ser tão estranha e gratuita. Afinal de contas, a Austrália é com certeza o amigo mais fiel dos Estados Unidos em todo o mundo, uma nação que muitas vezes combateu ao lado dos americanos.

Evidentemente, há divergências, como acontece com tantas nações, mas nada que deva comprometer a força da aliança – principalmente porque a Austrália é um dos países nos quais os EUA terão de confiar num eventual confronto com a China.

Mas essa é a era Trump. Em um telefonema a Turnbull, o presidente dos Estados Unidos gabou-se da vitória nas eleições e lamentou a existência de um acordo segundo o qual os Estados Unidos ficariam com alguns dos refugiados que estão com a Austrália, acusando o premiê australiano de enviar “futuros terroristas de Boston”. Em seguida, encerrou abruptamente a conversação que durou apenas 25 minutos.

Pelo menos, Trump não ameaçou invadir a Austrália. Mas em sua conversa com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, ele fez exatamente isso. Segundo a agência Associated Press, ele disse ao líder democraticamente eleito do país vizinho: “Você tem aí um bando de ‘homens maus’. E não está fazendo o suficiente para detê-los. Acho que seu Exército está com muito medo. O nosso não está, então posso mandá-lo aí para cuidar disso”.

Fontes da Casa Branca agora afirmam que essa ameaça – lembremos que os EUA na realidade já invadiram o México, e os mexicanos não se esqueceram disso – não passou de uma brincadeira.

Suas explosões com o México e a Austrália encobriram uma guerra convencional de palavras com o Irã, que no domingo testou um míssil. Essa foi definitivamente uma provocação. Mas a advertência da Casa Branca de que o Irã estava avisado, levanta uma pergunta, avisado de quê? Considerando que o novo governo está afastando os aliados, sanções mais rigorosas não vão acontecer. Estamos preparados para uma guerra?

Contraste. Há ainda um curioso contraste entre a resposta do Irã e a resposta a outra provocação mais grave: a escalada da Rússia em sua guerra por procuração na Ucrânia. O senador John McCain pediu ao presidente Trump que ajude a Ucrânia. Entretanto, curiosamente, a Casa Banca não falou absolutamente nada a respeito das ações da Rússia até que, na noite de quinta-feira, Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU, emitiu uma condenação ao Conselho de Segurança. O que está ficando um tanto óbvio, não é mesmo?

Ah, e mais uma coisa: Peter Navarro, chefe do Novo Conselho Nacional do Comércio de Trump, acusou a Alemanha de explorar os Estados Unidos com uma moeda subvalorizada. A este respeito, teria de haver uma interessante discussão econômica, mas não cabe a representantes do governo fazer esse tipo de acusação, a não ser que estejam preparados para travar uma guerra comercial. Eles estão?

Duvido. Na realidade, esse governo parece despreparado em todas as frentes. Os telefonemas agressivos de Trump não parecem fazer parte de uma estratégia econômica, nem política – planejadores astutos não perdem tempo gabando-se de sua vitória e choramingando por afirmações da mídia sobre o tamanho do público.

Não, o que ouvimos parece mais um homem que não está em sua esfera de competência e está fora de controle, que nem mesmo finge dominar a própria insegurança. Suas duas primeiras semanas na presidência têm sido um caos e a situação só poderá se agravar – talvez porque ele responde a cada desastre com uma tentativa desesperada de mudar de assunto, o que só leva a um novo desastre.

Os Estados Unidos e o mundo não têm condições de suportar mais isso. Pensem um pouco: se vocês tivessem um funcionário se comportando dessa maneira, o demitiriam imediatamente de qualquer posição de responsabilidade e insistiriam para que ele buscasse ajuda profissional. Esse sujeito é o comandante-chefe das Forças Armadas mais poderosas do mundo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

 

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