Um conflito que foi além da disputa territorial

Correspondente do 'Estado' em Paris, Gilles Lapouge narrou o conflito desde seu início até os festejos da independência em Argel

LIZBETH BATISTA / DO ARQUIVO, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h09

Existem guerras que transcendem a disputa territorial entre duas nações, ou entre povos. Alguns conflitos representam o choque entre dois mundos. A Revolução da Argélia, uma guerra de descolonização que transformou a Argélia num país independente da República da França, em 1962, é um deles.

Os quase oito anos de guerra expuseram o pior dos dois lados. A França e sua arrogante irredutibilidade em rever a condição política da Argélia, ignorando o direito à autodeterminação do povo argelino, viu sua superioridade militar desmontar-se diante da guerrilha, melhor adaptada tanto às regiões selvagens e montanhosas quanto à zona urbana de Argel, contando com o apoio da população local.

Contrariando seus cálculos militares à medida que os franceses venciam uma batalha, a insurreição alastrava-se por todo o território argelino.

O novato e talentoso correspondente do Estado percebeu a trágica matemática dessa guerra. Gilles Lapouge, escrevendo de Paris, expressou o que atormentava os franceses: "Não será inquietante verificar que o ímpeto dos rebeldes não deixa de crescer, na medida em que aumentam suas baixas? É como se tivessem uma reserva de homens inesgotáveis e a violência da réplica francesa, abrindo uma brecha maior entre muçulmanos e europeus, tivesse como resultado recrutar incessantemente novos rebeldes".

Gilles, até hoje correspondente do Estado na França, acompanhou e narrou todos os capítulos sombrios e perturbadores da guerra: as ações da Frente de Libertação Nacional (FLN), os métodos de tortura empregados pelo Exército francês sob o comando do general Jacques Massu, o momento quando o terror contra civis em Argel e Orã cruzou o Mediterrâneo e chegou aos cafés de Paris, o surgimento da organização paramilitar clandestina dos partidários da "Argélia francesa" e a Organisation Armée Secrète (Organização Exército Secreto, a OAS), que justificava suas ações como contraterrorismo.

Lapouge, que descreveu a escalada de ódio racial que permeou o conflito, foi o enviado especial do jornal para os festejos da independência em Argel, em julho de 1962. "Todas as guerras são absurdas, mas o epílogo patético de uma das maiores tragédias do pós-guerra demonstrou-o com uma rara clareza", narrou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.