Um continente sob as cinzas de um vulcão

Independentemente da globalização, as supostas características nacionais dos países[br]europeus seguem intactas, como demonstrou a crise aberta pelo Eyjafjallajokull

, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2010 | 00h00

O Eyjafjallajokull, aquele vulcão de nome impronunciável, provocou inevitáveis comentários sobre a impressionante fúria da natureza e a inadequação das invenções humanas que tentam domá-la. Em geral, os europeus costumam se esquecer da Islândia até que uma nova calamidade atraia outra vez as atenções para o país. A última catástrofe foi a implosão do sistema bancário, e a piada que circula no continente diz o seguinte: depois que sua economia bateu as botas, o último desejo da Islândia era que suas cinzas fossem espalhadas sobre a Europa.

As outras piadas são ainda piores.

Apesar de imprevista, a erupção parece ter permitido aos europeus que se dedicassem um pouco aos estereótipos - afetuosamente evocados, apesar de previsíveis e antigos - a respeito uns dos outros. Independentemente da globalização, as supostas características nacionais se mostram resistentes e, num certo nível, podem ser instrutivas.

Demora. Assim, inicialmente, as autoridades italianas se demoraram num segundo cafezinho enquanto pensaram estar diante de uma crise restrita ao norte do continente. Então tudo passou a lembrar a produção de uma ópera de Zeffirelli. A Agência Italiana de Proteção Civil foi obrigada a montar centenas de catres e colchões de ar no aeroporto Leonardo da Vinci, em Roma. Enquanto isso, as estações de trem foram tomadas pela multidão, com filas intermináveis se formando diante de máquinas de passagens que levavam séculos para funcionar (quando funcionavam).

Felizmente, os italianos são um povo piedoso e os sindicatos nacionais do transporte público (trens, ônibus e metrôs) adiaram uma greve marcada dias antes - ao contrário dos sindicatos franceses.

Fazendo jus à fama, os trabalhadores franceses - no caso, da rede de trens SNFC - recusaram-se a interromper uma greve que começara antes da chegada das cinzas, pouco se importando com o vulcão. Assim, era teoricamente possível (apesar das multidões) viajar de trem de Paris a Genebra, por exemplo, mas não de Paris a Bordeaux, exacerbando o nível geral de caos e descontentamento. Quando as viagens aéreas foram liberadas, a greve chegou ao fim.

Os gregos não quiseram ser deixados para trás e, num agito defensivo decorrente do derretimento econômico que o país infligiu a si mesmo, aproveitaram o momento para começar uma greve ou duas. Os servidores públicos gregos decidiram cruzar os braços. O mesmo fez um sindicato apoiado por comunistas, prejudicando o funcionamento do serviço de balsas.

Enquanto isso, os britânicos enviaram a frota (o que mais poderia ser?), incluindo o HMS Ark Royal, resgatando turistas ingleses que estavam isolados em Calais e em lugares problemáticos como Ibiza, junto com soldados que voltavam do Afeganistão. Isso permitiu ao sitiado primeiro-ministro Gordon Brown - atrás nas pesquisas eleitorais - brincar de Lord Nelson por um tempo.

E na Rússia, como relatado pelo New York Times, um mercado negro de passagens aéreas - das quais nem todas eram legítimas - surgiu da noite para o dia. Imensas filas na estação Belorussky deixaram de olhos marejados os nostálgicos do período soviético.

Os alemães, por sua vez, disseram inicialmente que ninguém deveria ser responsabilizado pelo problema. Não havia culpados. Mas quando as empresas aéreas alemãs começaram a se queixar dos lucros perdidos e a imprensa do país começou a reclamar da atitude do governo alemão-- que, desempenhando o eterno papel de irmão mais velho ansioso para agradar ao pai, tinha uma vez mais acatado as determinações mais amplas da União Europeia, aceitando a proibição aos voos sem enviar seus próprios balões meteorológicos para a realização de testes -, a questão foi transformada num problema empresarial e num escândalo econômico.

É verdade que os estereótipos são detestáveis, apesar dos europeus gostarem tanto de perder seu tempo com eles, sejam de si mesmos ou dos demais povos. Apesar de traiçoeiros, os estereótipos evocados a partir das diferentes respostas ao vulcão sublinham o quanto a Europa permanece diversa do ponto de vista cultural, e o quanto a unidade tão ostentada pela União Europeia pode se mostrar frágil e fragmentada.

Com base na cooperação econômica, a União teve cada vez mais que enfrentar uma série de temas morais, culturais e étnicos, como a imigração e o respeito aos direitos humanos. São questões que não podem ser separadas do bem-estar econômico, mas que representam desafios para a soberania nacional - o tipo de problema contra o qual os EUA se debatem desde a sua fundação.

O vulcão. A natureza elaborou a metáfora perfeita para o fardo da união, obrigando os europeus a reconhecerem, por bem ou por mal, que estão no mesmo barco, uma família de países, apesar de terem na Islândia a figura do primo extravagante e levemente inconveniente que se senta à cabeceira da mesa de jantar e ainda acredita em elfos.

Elfos. De acordo com a agência de notícias russa Interfax, uma organização chamada de Associação dos Especialistas Ortodoxos manifestou-se durante a crise provocada pelo Eyjafjallajokull na tentativa de associar as cinzas vulcânicas ao papel desempenhado pela Islândia enquanto "centro do neopaganismo europeu de tonalidades arianas ocultas".

Parece que, além de suas preocupações legítimas, a Islândia é também a base da Associação de Religiões Étnicas Europeias, que negociou uma fusão entre a Assembleia Mundial Pagã e a Aliança Pagã Internacional.

Enfim. A questão é que as famílias precisam se unir quando enfrentam problemas, como fizeram aqueles italianos presos em Londres na Victoria Station.

Eles se reuniram, estabeleceram uma amizade, alugaram uma van e voltaram para casa. Depois, um deles escreveu a um jornal italiano falando sobre a redescoberta "do grande espírito da solidariedade" que antes parecia ter-se perdido no país.

Eis aí outro estereótipo dos italianos: na maior parte do tempo, constituem um país apenas enquanto ideia, mas são capazes de se transformar numa família em questão de instantes. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA, CRÍTICO DE ARTE E

ESPECIALISTA EM CULTURA E

SOCIEDADE EUROPEIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.