Um debate sobre liberdade e barba no Egito pós-Mubarak

Muçulmanos reivindicam o direito de ser barbudo

É JORNALISTA, STEVE, HENDRIX, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, STEVE, HENDRIX, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h05

Fazer a barba toda manhã era menos reconfortante do que pecaminoso para Ahmed Hamdy, um tenente de polícia muçulmano do sul do Egito. Deixar a barba crescer era seu dever perante Deus, assim ele acreditava. No entanto, trabalhar com a barba feita era o código não escrito de quase todo emprego público do país.

"Todos os dias, quando eu me barbeava, costumava pedir perdão a Deus", disse Hamdy, de 26 anos. Assim foi que, em fevereiro, um ano após a queda de Hosni Mubarak, Hamdy decidiu que era hora de usar sua identidade religiosa no queixo. Certa manhã, após umas férias, ele chegou ao trabalho como policial barbado e, imediatamente, tornou-se parte da confusa luta que o Egito trava para redefinir sua relação com o Islã na era pós-revolução.

Por todo país, homens muçulmanos estão pedindo para usar barbas - e mulheres muçulmanas, o hijab, para cobrir os cabelos - em postos policiais, bancos, companhias aéreas, programas noticiosos na TV e outros lugares onde, por muito tempo, eles foram proibidos pela lei ou pelos costumes.

Para muitos, isso significa um florescimento da atitude perigosa durante um regime que equiparava a devoção islâmica ao terrorismo, quando ter uma barba era razão suficiente para ser recolhido por agentes de segurança do Estado ou atrair a atenção extra no aeroporto. Para outros, é parte da ascensão de governos islâmicos na esteira da Primavera Árabe e uma intrusão desconcertante de identidade religiosa na esfera pública.

"De repente, o controle do Estado sumiu", disse Ziad Aki, sociólogo do Centro de Estudos Políticos e Estratégicos Al-Ahram. "Há muita islamofobia no Egito porque Mubarak não só reprimiu os muçulmanos, como criou uma imagem demoníaca deles." Agora que Mubarak se foi, os muçulmanos têm mais espaço para se expressar. "Muitas pessoas de inclinação secular, porém, que ainda temem a islamização da sociedade, estão vendo barbas por toda as partes", disse Aki.

O lugar mais chocante para vê-las, contudo, talvez seja o palácio presidencial. Mohamed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana, que assumiu o cargo mais alto do Egito no mês passado, não é apenas o primeiro presidente democraticamente eleito que os egípcios veem - é também o primeiro presidente barbudo.

"Como muçulmanos, quando vemos o presidente Morsi, nos sentimos como os negros nos EUA se sentem sobre Barack Obama", disse Ali el-Banna, um advogado e simpatizante da Irmandade Muçulmana. "Eis alguém que se parece comigo, que me representa. Nunca tivemos isso antes." Banna é um dos advogados que representa Hamdy e mais de 60 policiais em todo o país que foram suspensos por usar barba. A maioria, como Hamdy, foi afastada de suas funções com uma fração do seu salário.

Cinco agentes em Alexandria continuam barrados, apesar de terem vencido ações judiciais movidas contra o Ministério do Interior. "Meu supervisor disse que eu não poderia usá-la durante as horas de trabalho", recordou Hamdy sobre sua primeira manhã com barba. "Como se fosse uma barba falsa que eu pudesse pôr e tirar. Era um absurdo."

Neste mês, um grupo de comissários de bordo entrou com uma ação contra a Egyptair, exigindo o direito de usarem barbas "bem aparadas" na cabine, como outras companhias aéreas permitem. Pelo menos um piloto uniu-se à iniciativa, segundo um ativista que está trabalhando na causa.

Algumas comissárias de bordo muçulmanas, por sua vez, querem cobrir seus cabelos. Em resposta, o Ministério da Aviação Civil criou um comitê para estudar o pedido. Uma de suas sugestões? Reformar os uniformes com um motivo faraônico, com a coroa fazendo o papel do hijab, a cobertura tradicional dos cabelos e do pescoço de uma mulher muçulmana.

"As comissárias recusaram", disse Maysa Abdelhadi, uma das comissárias que tomou parte nas negociações. "É um modelo imprestável." A questão é apresenta essa dificuldade toda para os egípcios, em parte, porque o país não tem uma forte tradição de liberdades individuais ou proteções para eles na lei.

Uma nova Constituição deve ser escrita e ratificada ainda este ano. No entanto, esse processo, provavelmente, será dominado por islamistas. Observadores locais ficariam surpresos se o documento codificasse uma tolerância ampla à liberdade individual.

"Se a Constituição fosse dizer que qualquer um pode usar barba, ela também teria de dizer que qualquer uma pode usar biquíni", disse Aki. "Espero que ela não vá tão longe." Egípcios seculares e cristãos coptas parecem ter visões conflitantes sobre a nova visibilidade da devoção islâmica. A barba é um símbolo poderoso para muitos, uma representação do extremismo que eles veem nos países fundamentalistas. No entanto, eles também valorizam a ideia de um Egito moderno e cosmopolita, onde as pessoas não são perseguidas pelo que usam no queixo ou no cabelo.

"Se um homem quiser cultivar uma barba, ele deve poder fazê-lo", disse Mohamed Ahmed, engenheiro de sistemas de 20 anos que saiu com amigos para um restaurante chique. "Mas, se os garçons aqui tiverem barba, algumas pessoas não frequentam o local. Para o dono, trata-se de uma decisão comercial."

Para Lameaa Mowafi, uma conhecida repórter policial da TV estatal egípcia, a decisão de cobrir seu cabelo foi pessoal. Certa manhã, antes da revolução, ela veio ao estúdio de hijab e foi imediatamente proibida de aparecer diante das câmeras. No ano passado, porém, enquanto as multidões enchiam a Praça Tahrir e Mubarak cambaleava, ela foi ao ar com o cabelo coberto e assim tem ido desde então.

"É um sonho que virou realidade", disse Mowafi, que transmite diariamente do palácio presidencial e é uma das muitas jornalistas que usam o hijab. "Era impossível até imaginar que uma apresentadora aparecesse com véu ao vivo em algum canal em qualquer parte do Egito. Agora, eu estou cobrindo a presidência." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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