Um desastre estratégico

Por que os EUA deveriam se preocupar com a ação russa na Síria

Marc. A. Thiessen*, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2015 | 02h04

Donald Trump diz: "Deixemos (a Rússia) cuidar do Estado Islâmico. Que diferença faz para nós?" A pergunta é pertinente: há algum problema em permitir que Vladimir Putin assuma a luta na Síria? A resposta: muitos.

Primeiro, a Rússia não está combatendo o EI. De acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra, os ataques russos são voltados principalmente contra áreas controladas por outros grupos sunitas que o presidente Bashar Assad enxerga como ameaça, incluindo rebeldes treinados pelos americanos.

Isso porque o objetivo estratégico da Rússia não é destruir o EI, e sim fortalecer Assad, aliado do Irã - e obrigar o Ocidente a seguir o mesmo rumo. Com a destruição da oposição moderada, ao mundo restaria escolher entre Assad e o EI. Barack Obama parece não compreender isso. Na semana passada, ele declarou ingenuamente que a Rússia não deveria atacar os rebeldes aliados dos EUA porque será necessária uma oposição moderada para a transição após a queda de Assad. É precisamente por isso que Putin os está atacando.

Segundo, a intervenção russa só fortalecerá o EI. Ao eliminar a oposição moderada, a Rússia empurrará todos os grupos sunitas para os braços do EI e da Al-Nusra, aliada da Al-Qaeda - tornando esses grupos a única opção para a maioria da população que se opõe a Assad, ainda que não partilhem da ideologia radical dos terroristas. Isso vai radicalizar o conflito e transformar a Síria num ímã ainda mais poderoso para os jihadistas. E isso ajuda Assad, que precisa da ameaça do EI para justificar a continuidade de seu governo como obstáculo ao grupo.

Terceiro, a nova presença da Rússia na Síria fortalece o Irã. O crescimento de Teerã, que representa o lado xiita do radicalismo islâmico, está em marcha no Oriente Médio e a intervenção da Rússia reforça sua busca pelo domínio regional. Os dois lados são beneficiados.

A Rússia obtém uma base permanente no Oriente Médio, com uma grande base aérea e um porto de águas quentes no Mediterrâneo do qual poderá projetar seu poder e desafiar os EUA e seus aliados. O Irã recebe armas (como o sistema de mísseis avançados terra-ar S-300 para se proteger contra ataques ao seu programa nuclear) e uma nova coalizão oposta à influência americana se forma, composta por Rússia, Irã, Iraque, Síria e Hezbollah libanês.

Seria um desastre para os interesses americanos. Como explicou o general Jack Keane no programa Fox News Sunday, uma "aliança entre Rússia e Irã altera todo o quadro estratégico do Oriente Médio. É algo que terá impacto em cada país do Oriente Médio e deve diminuir a influência dos EUA".

Quarto, a intervenção da Rússia transmite uma perigosa mensagem de fraqueza americana. Obama declarou guerra ao EI e prometeu "destruir" a rede terrorista. A premissa da intervenção russa diz que os americanos estão perdendo a briga e a Rússia chega para salvar o dia.

A fraqueza dos EUA na Síria pode ter consequências que vão além da região. Foi o fracasso de Obama em responder de maneira enérgica após o uso de armas químicas por Assad que encorajou Putin a anexar a Crimeia. Com novos sinais de fraqueza, Putin pode testar ainda mais a determinação dos EUA em defender seus aliados da Otan no Báltico ou outros com os quais têm obrigações por tratado. Ele agora tem uma base aérea que põe caças russos a apenas 5 minutos da Turquia, aliada da Otan. Outros adversários americanos, como China e Coreia do Norte, também podem se sentir tentados a testar a determinação americana.

Quinto, a campanha de bombardeios da Rússia indica que os EUA não são um aliado confiável. Quando a Rússia alerta os EUA para "saírem do caminho" enquanto ataca forças recrutadas e treinadas pelos americanos na luta contra o EI, outros que dependem da proteção dos EUA perdem a confiança no país. O governo iraquiano acaba de estabelecer com Irã e Rússia um acordo de compartilhamento de informações dos serviços de espionagem. E o primeiro-ministro iraquiano disse que a Rússia pode usar o território do país para lançar ataques contra o EI.

Já estamos em negociações com os russos para "limitar os conflitos" entre nossas operações aéreas, uma forma de cooperação militar. Ao apoiar ou tolerar atividades russas, fortalecemos a crescente crença na região segundo a qual seríamos aliados de Rússia, Irã, Assad, Hezbollah e as milícias xiitas iraquianas, contra todos os nossos aliados tradicionais.

Obama diz que não devemos nos preocupar com nada disso. Putin age para não demonstrar "fraqueza", insiste ele, e estaria se metendo num "atoleiro", como foi a invasão soviética do Afeganistão em 1979.

Mesmo que fosse verdade, isso traria pouco conforto. O que houve quando os soviéticos finalmente deixaram o Afeganistão? O Taleban assumiu o poder e convidou a Al-Qaeda, convertendo o país numa base da qual foram planejados os ataques do 11 de Setembro. Em outras palavras, a intervenção russa na Síria é um desastre geoestratégico para os EUA.

É por isso que faz muita diferença para nós./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*É colunista do 'The Washington Post'

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