Um dia a sorte acaba

Os EUA escaparam de pelo menos cinco atentados e é preciso combater a fonte do terror antes que isso aconteça

THOMAS L.FRIEDMAN / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2010 | 00h00

Uma das coisas mais chocantes sobre as recentes eleições de meio de mandato é que a política externa absolutamente não influiu na votação - e por isso temos de agradecer à sorte, e a um bom trabalho de inteligência. Com efeito, no ano passado os EUA ganharam cinco vezes seguidas na loteria. Vamos conferir: tivemos a sorte incrível de que o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, inspirado na Al-Qaeda, não tenha conseguido detonar os explosivos costurados em sua cueca, quando o avião da Delta, com 278 passageiros, estava se aproximando do aeroporto de Detroit no dia de Natal. Idem para Faisal Shahzad, cujo carro-bomba não explodiu numa Times Square em 1.º de maio. Em fevereiro, graças a um trabalho de inteligência, o afegão Najibullah Zazi declarou-se culpado de conspiração com a Al-Qaeda para lançar um atentado suicida no metrô de Nova York perto do aniversário do 11 de Setembro.

Aí, na semana passada, foram encontrados pacotes-bomba em aviões de carga em Londres e em Dubai que seguiam para Chicago. Acredita-se que as bombas, programadas para detonar sobre os EUA, teriam sido montadas pelo mesmo jihadista saudita, Ibrahim Hassan al-Asiri, que projetou a bomba do Natal. Uma dica da inteligência saudita fez o plano fracassar.

Imaginem se as cinco houvessem explodido? Estariam checando a cueca de cada passageiro de avião e a indústria global de transporte aéreo de carga estaria em pânico, pois todo pacote teria de ser cheirado por um cão farejador.

Portanto, ganhamos na loteria cinco vezes. Mas um desses dias nossa sorte vai acabar, pois a loucura que emana da Al-Qaeda, de indivíduos que ela inspira e de suas franquias só está crescendo.

Uma semana atrás, uma igreja de Bagdá foi atacada. Militantes islâmicos armados e ligados à Al-Qaeda ordenaram ao padre que ligasse para o Vaticano para pedir a soltura de mulheres muçulmanas que, segundo eles, eram mantidas presas pela Igreja Copta no Egito. Quando o padre disse que não podia fazer isso, os pistoleiros o mataram e a vários fiéis que estava no primeiro banco. Quando a polícia invadiu o local, muitos outros foram mortos no tiroteio. Na sexta-feira, suicidas explodiram duas mesquitas no Paquistão, matando 60 fiéis.

Quando jihadistas estão dispostos a metralhar ou explodir pessoas desarmadas no meio da oração isso significa que não sobraram restrições morais, culturais ou religiosas. Precisamos fazer tudo que pudermos para eliminar suas fontes de energia.

Isso significa encerrar nossos negócios no Afeganistão e no Iraque, resolver o conflito palestino-israelense, e tirar nossos militares da região. Mas existe hoje uma guerra civil no Islã entre as forças de decência e modernismo e os jihadistas. Ela só vai parar quando as forças islâmicas da decência triunfarem - e deslegitimarem e esmagarem a barbárie da Al-Qaeda.

Não podemos deixar que nossa resposta seja fechar nossa sociedade. Precisamos secar o financiamento para os grupos terroristas. E isso significa trabalhar para acabar com o vício em petróleo.

É odioso ouvir políticos republicanos dando lição ao presidente Barack Obama sobre como ele precisa manter o curso no Afeganistão enquanto eles não têm um pingo de coragem para votar pelo aumento do imposto sobre a gasolina ou os padrões de energia renovável que reduziriam o dinheiro que estamos enviando às pessoas que nossos soldados estão combatendo. Nada disso parece muito relevante agora. Mas parecerá - no dia em que a nossa sorte acabar./ TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA E PRÊMIO PULITZER

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