Ahmed Jadallah/Reuters
Ahmed Jadallah/Reuters

Um dia após admitir ''engano'', Otan é acusada de matar mais 15 civis na Líbia

Governo líbio diz que bombardeio em Zurtan tinha como alvo Khoweildi al-Hamidi, um assessor próximo de Kadafi; aliança atlântica reconhece ter lançado o ataque depois de desmenti-lo, mas afirma ter atingido comando de controle do ditador

, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2011 | 00h00

TRÍPOLI

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) voltou a ser acusada de matar civis em bombardeios na Líbia. Segundo o governo líbio, ao menos 15 pessoas morreram na madrugada de ontem em um ataque à residência de Khoweildi al-Hamidi, um assessor próximo do líder Muamar Kadafi, em Surman, a 70 km de Trípoli. Na véspera, a Otan tinha admitido pela primeira vez a morte de civis num ataque com mísseis, no sábado.

A Otan, em princípio, negou a nova acusação energicamente. "Não operamos em Surman. Nosso único ataque aconteceu em Trípoli, em um outro horário", disse um porta-voz da aliança atlântica. Ao longo do dia, porém, a coalizão acabou admitindo ter bombardeado Surman. Mas o comando da Otan ressaltou que o alvo era um controle de comando e controle militar.

"Esse bombardeio vai reduzir consideravelmente a capacidade das forças de Kadafi de prosseguir seus ataques bárbaros contra o povo líbio", disse o comandante da operação Protetor Unificado, o general canadense Charles Bouchard, que acrescentou não saber se houve vítimas no ataque de ontem. "Qualquer que seja o lugar no qual Kadafi tente esconder seus centros de comando, nós os encontraremos e os destruiremos."

Segundo o governo líbio, oito mísseis atingiram o complexo por volta das 4 horas de ontem, no horário local. Al-Hamidi é um aliado próximo de Kadafi desde o golpe que o levou ao poder em 1969. Há relatos de que ele comandou o ataque a Zawiya, que pôs fim à resistência rebelde na cidade em março.

O assessor de Kadafi escapou dos ataques porque o prédio do composto que o abrigava não foi atingido, mas, diz o governo líbio, dois de seus netos e uma terceira criança teriam morrido no bombardeio. "Eles (a Otan) estão atacando civis. A lógica é a intimidação", declarou o porta-voz de Kadafi, Ibrahim Moussa. "Eles querem que os líbios desistam da luta e nos desestimular."

Representantes do líder levaram jornalistas ocidentais ao local do ataque. Dois prédios do complexo foram destruídos e um terceiro, parcialmente atingido. As bombas abriram duas grandes crateras no chão. Equipes de resgate com cães farejadores procuravam sobreviventes e ainda havia fumaça no ar, mas uma escola e uma mesquita, localizadas próximas ao composto, estavam intactas.

Na cidade de Sabratha, perto de Surman, médicos mostraram aos repórteres os corpos de ao menos oito pessoas que estariam entre as vítimas do ataque. O hospital era guardado por soldados de Kadafi e havia retratos do ditador nas paredes.

Segundo a agência oficial líbia, Jana, houve também ataques a civis em Sabha, no sul do país. Quatro funcionários da Defesa Civil teriam morrido e dez ficaram feridos ao chegarem ao local de um bombardeio sobre uma área residencial.

No domingo, a aliança atlântica divulgou um comunicado admitindo responsabilidade pela morte de civis em um de seus ataques a Trípoli. "A Otan lamenta a morte de civis inocentes e toma um grande cuidado em seus ataques contra um regime que usa a violência contra seus próprios cidadãos", diz o texto.

Eficácia contestada. A intervenção na Líbia foi autorizada pela Resolução 1.973 do Conselho de Segurança da ONU para proteger a população dos ataques de Kadafi. Desde março, o coronel enfrenta rebeldes que pedem sua renúncia. Eles controlam o leste do país, mas a ação da Otan não lhes deu uma vantagem substancial no terreno.

China e a Rússia, críticos da ação liderada por França, Grã-Bretanha e EUA, não veem com bons olhos a morte de civis. Ainda ontem, o governo da Itália, com relações históricas e comerciais com a Líbia, manifestou preocupação. "A Otan está colocando sua credibilidade em risco. Não podemos matar civis", disse o chanceler Franco Frattini

Ataque. Três foguetes disparados por forças de Kadafi contra a cidade de Misrata, uma das poucas controladas pelos rebeldes no oeste do país, deixou um adolescente de 13 anos morto e outras duas crianças feridas, disseram moradores da cidade.

Os dissidentes têm conseguido defender a cidade, que desde março está sitiada pelas tropas do coronel. Os rebeldes pedem mais ataques da Otan para avançar para oeste. / AP, REUTERS E AFP

CRONOLOGIA

Afeganistão e Kosovo tiveram morte de civis

2002

Afeganistão. Ataque aéreo americano,matou 44 pessoas, na Província de Uruzgan. O presidente George W. Bush teve de fazer um pedido de desculpas..

2011

Afeganistão. Ataque da coalizão que luta contra forças do Taleban no país matou 14 pessoas na província de Helmand, em maio

1999

Kosovo. Cerca de 500 pessoas morreram em ataques da Otan que atingiram civis durante operação para protegê-los das tropas sérvias

 

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