Um diplomata indispensável

A morte do inovador e brilhante Holbrooke deixa um vácuo na diplomacia dos EUA

ALBERT R. HUNT, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2010 | 00h00

Charles de Gaulle, autor da frase "Os cemitérios estão cheios de homens indispensáveis", estava equivocado. Richard Charles Albert Holbrooke foi essa rara pessoa indispensável. Holbrooke, que morreu aos 69 anos na semana passada, foi o enviado especial do presidente Barack Obama ao Afeganistão e ao Paquistão. E foi o diplomata americano mais inovador e bem-sucedido dos últimos 50 anos.

Em Washington, uma cidade cheia de personalidades de enorme destaque, poucas delas poderiam se igualar a Holbrooke: ele era brilhante, convencido, leal, charmoso, manipulador, generoso, exigente, compassivo e engraçado, às vezes tudo isto na mesma conversação. Ele era uma força, como nenhum outro.

Prestes a se formar na Brown University, em 1962, ele estava indeciso entre tornar-se editor executivo do New York Times ou secretário de Estado. O jornal não quis empregá-lo, então, ele ingressou no Departamento de Estado. Serviu no Vietnã e foi assessor especial de dois embaixadores. Tornou-se assessor do presidente dos EUA e escreveu um capítulo dos históricos Papéis do Pentágono com a crônica da Guerra do Vietnã. Não tinha 30 anos.

Foi diretor da revista Foreign Policy. Tentou seguir carreira nas finanças, mas, como um dos seus chefes lembra, nada que o entusiasmasse. Sua paixão era o governo e a política externa.

No governo Carter foi secretário de Estado adjunto para assuntos asiáticos, contribuindo para intermediar as relações diplomáticas com a China.

Quando o presidente Bill Clinton foi eleito, Holbrooke queria ser embaixador no Japão, mas aceitou a missão na Alemanha. Embora tenha permanecido no cargo menos de um ano, 20 anos mais tarde poucos americanos são mais respeitados do que ele no país. Sua realização mais lembrada foi a conclusão dos acordos de paz na Bósnia em 1995, por ele intermediados, onde sua combinação de habilidade, firmeza, paciência e capacidade de persuasão obrigou alguns brutamontes a recuar, pondo fim ao genocídio e salvando milhares de vidas. É difícil imaginar outro diplomata capaz de obter tudo isso.

No final do governo Clinton, ele se tornou o mais formidável embaixador na ONU dos últimos tempos. Sempre se destacou pela coragem, correndo frequentemente risco de vida em missões dos Bálcãs à Ásia. Não foi nenhum santo. Teve tanto detratores quanto defensores. Podia ser uma pessoa brutal e presunçosa, desprovida de sensibilidade. Na função mais recente de Holbrooke, o embaixador foi atacado pelo ex-comandante-chefe americano no Afeganistão, general Stanley McChrystal, e por funcionários da Casa Branca e do Conselho de Segurança Nacional. Eles achavam que Holbrooke os tratava como inferiores; e eram mesmo. Perto do fim, ele foi um idealista calculista, inflexível, pragmático que acreditava profundamente que os EUA, apesar dos erros no Vietnã e no Iraque, são a maior esperança para o mundo e têm a obrigação de cumprir esta missão. Holbrooke foi um verdadeiro patriota./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EDITOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.