Um dissidente chinês perdido na América

Chen Guangcheng, ativista cego que deixou a China após fuga cinematográfica, se envolveu na política americana com posições conservadoras

ISAAC , STONE FISH, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2014 | 02h02

Cerca de dois anos depois de sua chegada aos EUA, o dissidente chinês Chen Guangcheng, que caiu nas graças dos círculos de Washington, está convencido de que o Partido Comunista Chinês procura por ele. "Com tantas pessoas que estão aqui nos EUA, não sou o único que sente a pressão do partido", disse Cheng em sua primeira entrevista importante desde junho de 2013.

Naquele mês, ele acusou a New York University (NYU), onde trabalhava como professor visitante, de ceder à pressão de Pequim. Sua saída da universidade ocorreu em um clima áspero e, desde então, ele tem evitado a imprensa. No entanto, ainda defende seu ponto de vista. "Por que ninguém fala nada?", questionou. "O Partido Comunista será realmente tão assustador?"

Advogado militante que lutou para proteger os pobres dos abusos do governo, Chen foi catapultado para a fama internacional em abril de 2012, quando fugiu da prisão domiciliar e buscou asilo na Embaixada dos EUA em Pequim.

Exatamente poucos dias antes de uma visita a Pequim da então secretária de Estado Hillary Clinton, sua emocionante fuga (Chen, que é cego, quebrou o pé ao escalar o muro de casa e caiu pelo menos 200 vezes ao tentar alcançar um militante que o conduziria para a liberdade), o transformou num astro internacional e provocou uma tempestade diplomática entre EUA e China.

Pelo acordo negociado por Hillary, a NYU ofereceu a Chen um emprego por um ano como professor visitante. Dias mais tarde, ele viajou para os EUA com a família. Chen, que está escrevendo um livro sobre a fuga, não fala muito do que ocorreu, mas existem ressentimentos profundos.

Respondendo a uma pergunta sobre Hillary e o papel do embaixador americano, Gary Locke, ele disse que se as pessoas refletissem sobre o que ocorreu naquela época, "perceberiam que foram novamente enganadas pelo Partido Comunista". "Não é incomum o governo chinês mentir para o seu povo, mas agora ele está mentindo para os EUA, e até para o mundo", disse.

Mas a verdade é frágil. Conheci Chen em outubro de 2012, em seu escritório na NYU, num quarteirão longe do barulho, cinco meses depois de ele deixar a China. Estava calmo e tinha a tendência de interromper minhas perguntas, inclinando-se para frente ao explicar suas convicções. No entanto, estava claro que suas provações não tinham chegado ao fim. "É difícil que quem nunca esteve na prisão entenda", disse. "Não é nada fácil recuperar-se uma pessoa que foi perseguida."

No entanto, Chen parecia ter adquirido status de crítico do Estado chinês por excelência. Jerôme Cohen, professor de direito da NYU, muito próximo a Chen, o descreveu como uma pessoa "calma, inteligente, com uma profunda determinação". "A sociedade chinesa o considerava um Gandhi", disse.

Em junho de 2013, porém, Chen anunciou que estava sendo obrigado a deixar a universidade. Já em agosto e setembro de 2012, ele escrevera, num documento, que os comunistas chineses haviam começado a "exercer uma enorme pressão" sobre a universidade. A decisão surpreendeu muitos de seus defensores. "Acho que ele pode ter se equivocado", disse Kelley Currie, pesquisadora do Project 2049 Institute, que se dedica aos direitos humanos na China e é admiradora de Chen.

O dissidente chinês afirmou que redigiu o documento porque achou que tinha "a responsabilidade de explicar aos americanos que os ditadores exercem uma forte influência sobre o mundo livre". "Se vocês não tiverem consciência disso, estarão se arriscando", afirmou. Por e-mail, o porta-voz da NYU, John Beckman, declarou: "Continua sendo um lamentável mistério para nós o motivo pelo qual ele afirma que a suspensão de sua bolsa ocorreu em consequência das pressões do governo chinês. Não é verdade."

Tanto Beckman quanto Cohen dizem que a NYU gastou muito dinheiro com Chen. "Proporcionamos a ele e à sua família um enorme e dispendioso apoio", disse Beckham. Cohen afirmou que nunca viu Chen apresentar alguma prova que corroborasse suas alegações. "Não se deve cuspir no prato em que se come. A NYU foi generosa com a família Chen", disse Cohen à revista Foreign Policy, em junho de 2013.

Chen ainda se nega a explicar como a universidade se curvou à pressão chinesa. E observa evasivo: "Sei que o Partido Comunista prefere desviar os conflitos entre a ditadura e a democracia de maneira a concentrar-se nos conflitos no interior da própria sociedade democrática".

Ajuda. Alguns observadores da China acreditam que um pouco mais de orientação e de interação por parte do governo teriam ajudado Chen. Um funcionário do Departamento de Estado, falando nos bastidores, disse que, desde a chegada de Chen, as autoridades estiveram com ele em diversas ocasiões, mas que Hillary não se encontrou com ele em público nos EUA. Indagado sobre o motivo disso, Chen respondeu com um sorriso: "A barreira da língua".

Ele não se lembra de ter tido reuniões com o Departamento de Estado. A negociação sobre o seu destino foi um sucesso diplomático para Hillary, mas sua importância foi minimizada no âmbito mais geral das relações entre EUA e China. "O Departamento de Estado foi obrigado a dar uma solução para a situação e tentaram transformá-lo numa vitória no campo das relações públicas", afirmou Currie. "No entanto, assim que Chen encontrou uma moradia na NYU, a dor de cabeça do Departamento de Estado acabou e eles consideraram que podiam seguir cuidando de suas obrigações."

Em outubro, Chen anunciou que aceitara uma bolsa no Witherspoon Institute, um grupo de acadêmicos conservadores contrários ao aborto. A decisão provocou críticas à incapacidade de Chen de dar um rumo à sua vida nos EUA. "Depois de uma fuga épica, o exilado está atolado na política partidária dos EUA", dizia a manchete do New York Times. A matéria citava o famoso ativista chinês Hu Jia, que contactava Chen pelo Skype, dizendo: "Acredito que ele esteja perdido".

Outros acham que Chen se enganou ao aproximar-se do pastor Bob Fu, pertencente à direita radical, presidente da China Aid, uma organização cristã de direitos humanos sem fins lucrativos. Como Cohen, Fu assessorou Chen durante as tensas semanas depois da fuga. Em uma entrevista em meados de dezembro de 2013, Fu rejeitou as afirmações de que teria influenciado Chen. "Essa informação é absolutamente falsa", afirmou. "Ele sabe tomar suas próprias decisões."

No dia 5 de dezembro, Chen participou de uma audiência da Subcomissão de Assuntos Internacionais da Câmara dos Deputados, em Washington, sobre liberdade na China. Cinco jovens chinesas, filhas de dissidentes presos, fizeram parte de um painel ouvido por um grupo de parlamentares. "Como exemplo de esperança, Chen está sentado imediatamente atrás de vocês", disse o deputado republicano Christopher Smith, que há muito defendia a causa de Chen. "Ele realizou façanhas hercúleas até chegar à embaixada americana e hoje é um homem livre."

Fu participou do painel seguinte e referiu-se à perda de "claros ideais fundamentais dados por Deus" nos EUA, o que prejudicava a campanha pelos direitos humanos na China. Ele questionou se os deputados queriam se colocar ao lado da seita nazista do Partido Comunista, que trairia Deus e deixaria a marca da vergonha. Dois deputados deixaram a sala abruptamente depois que Fu, pela quinta vez, mencionou o termo "nazista".

No jantar daquela noite, Chen falou de sua suposta adesão ao cristianismo reacionário. "Não acredito em nenhuma religião", afirmou. Sua esposa, Yuan Weijing, que estava presente, acrescentou: "Ele só acredita na verdade e nos fatos".

Chen contou a história horrenda de uma mulher grávida que foi praticamente enterrada viva por violar a política do filho único. "Qual é a questão: o aborto ou os direitos das mulheres?", questionou. O que importa é que se trata de uma barbárie que deve ser proibida e não se ela se coaduna ou não com a visão democrata ou republicana.

Esquecimento. No entanto, é difícil afirmar que Chen não perdeu parte do brilho. Entretanto, não é o único: quase todos os dissidentes chineses importantes perdem sua influência depois que deixam o país. Wei Jingsheng, o primeiro dissidente de maior projeção a deixar a China na era pós-Mao, foi logo esquecido. Chai Ling, líder estudantil nos protestos da Praça Tiananmen, em 1989, agora é conhecida por ter processado os realizadores de um filme sobre os protestos.

À pergunta se ele temia ser esquecido nos EUA, Chen respondeu que nesta era de hiperconectividade, "as coisas acontecem onde quer que as pessoas estejam". "Promover a democracia não significa afirmar que todo mundo precisa ficar em primeiro plano."

No entanto, Chen, sempre modesto, desfruta claramente de uma fama peculiar nos EUA. Ele elogiou Christian Bale, o astro de Batman, que, em dezembro de 2011, tentou visitá-lo quando ele estava em prisão domiciliar na China, mas foi obrigado pela segurança a voltar antes que os dois pudessem encontrar-se. Perguntei a ele se outras pessoas como Bale tentaram visitá-lo. "Sim", ele respondeu. "Mas posso afirmar com certeza que Obama não foi uma delas. Bale teve coragem de perder o mercado chinês", disse Chen. "Nem todo mundo faria uma coisa dessas." /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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