The New York Times
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Um dissidente chinês tentou viajar para ver sua mulher doente nos EUA e depois desapareceu

Amigos e familiares perderam o contato com Yang Maodong, que foi parado em um aeroporto de Xangai

Chris Buckley / The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2021 | 07h00

XANGAI - Depois de saber que sua mulher tinha câncer, Yang Maodong, um proeminente ativista pela democracia na China, correu para conseguir um visto e uma passagem aérea para se juntar a ela nos Estados Unidos. Mas Yang nunca pousou no país.  

Oficiais de inspeção de fronteira no Aeroporto Internacional de Pudong, em Xangai, o impediram de embarcar em um voo para São Francisco na semana passada, disseram sua irmã mais velha e amigos. “Devo ir imediatamente para os Estados Unidos e dedicar todas as minhas energias para cuidar dela”, escreveu Yang em uma carta aberta aos líderes chineses um dia antes de seu voo planejado. Ele escreveu que a esposa “deu tudo por mim, e hoje é minha vez de dar tudo por ela.”

Porém, depois que Yang enviou mensagens do aeroporto, ele desapareceu, disseram sua irmã e amigos. Chamadas para seu telefone nos últimos dias não foram atendidas.

“Ele esperava desferir um golpe pelo direito dos cidadãos de viajarem ao exterior normalmente”, disse Yang Zili, amigo e colega ativista que se mudou da China para os Estados Unidos em 2018, em entrevista por telefone. “Estávamos esperando uma palavra, mas não houve nada desde que ele desapareceu no aeroporto.”

A detenção de Yang gerou apelos por sua libertação na China e no exterior. Seu caso pode se tornar um primeiro sinal de como Pequim e o governo Biden lidam com questões controversas de direitos humanos.

O Departamento de Estado disse na última sexta-feira, 29, que estava preocupado com o desaparecimento de Yang, informou a Voice of America. Um porta-voz da embaixada dos Estados Unidos em Pequim disse por e-mail na terça-feira que não poderia confirmar se Yang recebeu um visto porque tais registros são confidenciais. Ele não fez comentários imediatos sobre o caso.

Um policial no Aeroporto Internacional de Pudong, em Xangai, não respondeu a perguntas sobre o paradeiro de Yang, encaminhando-as ao escritório de segurança pública da cidade, onde os policiais também não ofereceram respostas. Em um retorno por fax à perguntas sobre o desaparecimento de Yang, um assessor de imprensa do Ministério das Relações Exteriores da China respondeu: “Não sei sobre este assunto.”

A irmã de Yang, Yang Maoping, disse que as autoridades chinesas indicaram inicialmente que o deixariam viajar para os Estados Unidos. A esposa dele, Zhang Qing, mora lá e recentemente fez uma operação de câncer de cólon, e está prestes a iniciar os meses de quimioterapia. “Agora é um momento crítico para a esposa dele”, disse a irmã. “Esperamos que este seja um problema temporário.”

Yang, 54, há muito é um dos ativistas democráticos mais obstinados da China e passou mais de uma década na prisão. Mais conhecido por seu pseudônimo, Guo Feixiong, ele participou dos protestos pró-democracia de 1989 e ganhou a vida como um pequeno editor e romancista antes de concentrar suas energias em campanhas populares e debater o futuro político da China.

Yang está entre os dissidentes chineses que preferiram gestos e manifestações apaixonadas a métodos discretos, como litígios e petições online. Ele tornou-se um ativista combativo ao organizar aldeões perto de Guangzhou, no sul da China, em 2005, para protestar contra os confiscos de terras que eles disseram ser corruptos.

Ele foi condenado à prisão em 2007 por acusações de atividades comerciais ilegais relacionadas com suas publicações. Após sua libertação em 2011, ele mergulhou de volta no ativismo e, em 2013, juntou-se aos protestos no jornal Southern Weekend, em Guangzhou, onde jornalistas haviam denunciado o endurecimento da censura.

Em 2015, Yang foi condenado a seis anos de prisão sob a acusação de perturbar a ordem pública e “causar brigas e provocar problemas” – uma vaga acusação frequentemente dirigida a dissidentes – por seu papel no protesto do jornal, bem como por apoiar uma campanha pública para a China ratificar um pacto de direitos internacionais.

Enquanto Xi Jinping, o líder do Partido Comunista Chinês, reforçou a censura e a punição para dissidentes, muitos ativistas recuaram do confronto ou desistiram de fazer campanha.

Yang disse que repensou suas táticas, mas nunca recuou da oposição ao governo de um partido ou de sua crença de que a China acabaria por abraçar a democracia constitucional. Ele disse que recusou oportunidades de se mudar para os Estados Unidos, onde sua esposa e dois filhos se estabeleceram em 2009 depois de deixar a China.

“Ele disse que quem acredita na liberdade também deve ser patriota”, disse Chen Min, um ex-editor do sul da China que conhece Yang, por telefone. “Ele estava decidido a não deixar esta terra, mas não imaginava que sua esposa pudesse ter câncer.”

Em uma breve entrevista na semana passada, Yang disse que oficiais de segurança em Guangzhou lhe disseram inicialmente que simpatizavam com seus planos de ir para os Estados Unidos.

Posteriormente, os oficiais de segurança disseram a ele que queriam que Yang viajasse para sua província natal, Hubei, no centro da China, para discutir as condições de sua ida ao exterior. Ele estava desconfiado de fazer isso. A polícia chinesa muitas vezes exige que os dissidentes fiquem em silêncio se forem autorizados a deixar o país. Em vez disso, Yang voou de Guangzhou para Xangai na quinta-feira, na esperança de pegar um voo para São Francisco naquela noite.

Mas funcionários do aeroporto disseram que ele não teria permissão para embarcar no avião porque era considerado um “risco para a segurança nacional”, disse Yang, em uma série de mensagens. Ele disse que faria greve de fome em protesto.

Logo depois, Yang parou de enviar mensagens.

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