Um drama africano na Itália

Imigrantes fogem da guerra, mas encontram outro tipo de dificuldade em um país em crise

ELIZABETTA, POVOLEDO, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, ELIZABETTA, POVOLEDO, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2013 | 02h06

O prédio abandonado da universidade nos arredores de Roma, conhecido como Palácio Salaam, era um abrigo improvisado, com pouca gente, onde imigrantes vindos da África, fugindo da guerra, de perseguições e de problemas econômicos ocupavam para criar seu próprio refúgio.

Com os anos, aos colchões espalhados pelo chão foram acrescentadas paredes feitas com placas de madeiras, portas improvisadas e móveis encontrados nas ruas. Hoje, a infinidade de pequenos aposentos abrange um pequeno restaurante e um salão comum. Em um dia frio, recentemente, um banheiro foi adicionado a um apartamento de um quarto onde a porta do fogão estava aberta para aquecer o local.

Mais de 800 refugiados vivem hoje no Palácio Salaam e seu estado de ruína tornou-se uma lembrança vívida do que seus moradores e outros dizem ser o fracasso da Itália para ajudar e integrar aquelas pessoas que obtiveram asilo com base nas leis italianas.

O Palácio Salaam e a população que aumenta nos cortiços que existem por todas as partes são resultado do que as agências de ajuda aos refugiados afirmam ser um paradoxo italiano no que se refere aos requerentes de asilo. "A Itália é muito boa com relação aos procedimentos de asilo, reconhecendo de 40% a 50% dos candidatos em alguns anos", disse Laura Boldrini, porta-voz do comissário para refugiados das Nações Unidas na Itália. "O problema crucial é o que vem depois."

Ela e outras pessoas que trabalham com refugiados dizem que a negligência e a ausência de recursos aumentam desnecessariamente as privações das vidas já em farrapos e estão criando uma situação que pode levar a distúrbios sociais.

A Itália tem cerca de 3.150 locais que integram o seu sistema de proteção aos refugiados, que é financiado pelo Estado, onde eles recebem ajuda do governo. As listas de espera são longas, deixando muitos na obrigação de tentar se defender sozinhos. "Se você não tem a sorte de receber ajuda, está sozinho. Tem de encontrar uma maneira de se sustentar, aprender a língua, conseguir uma casa e um emprego", disse Boldrini.

Essa, com certeza, é a experiência vivida por aqueles que moram no Palácio Salaam. Alguns estão no prédio desde 2006, quando ele foi ocupado por um grupo de refugiados com a ajuda de uma associação de invasores de edifícios desocupados.

Muitos fugiram da guerra e de outras aflições no Sudão e no Chifre da África. Quase todos desfrutam do estatuto de refugiado ou têm alguma forma de proteção, mas não conseguem encontrar trabalho em Roma. A crise econômica da Itália tornou esse desafio ainda mais difícil. "Escapamos de uma guerra para encontrar outro tipo de batalha: 800 pessoas apinhadas em um palácio" , disse Yakub Abdelnabi, que deixou o Sudão, em 2005, e vive no Salaam.

Em meados deste ano, Nils Muizniek, comissário de direitos humanos do Conselho da Europa, visitou o Palácio Salaam e, de acordo com relatório da instituição, divulgado em setembro, "viu as condições horríveis em que homens, mulheres e crianças estão vivendo no prédio, onde um chuveiro e um banheiro são usados até por 250 pessoas".

"Além dos voluntários, os moradores não têm nenhuma orientação ou assistência para encontrar trabalho, para ir a uma escola ou lidar com questões administrativas", indica o relatório. "Isso, efetivamente, relegou esses refugiados e outros beneficiários de proteção internacional às margens da sociedade."

As autoridades locais podem exigir documentos para conceder assistência social, documentos impossíveis de serem obtidos pelos refugiados. Projetos de assistência financiados pelo Estado têm pouco efeito, segundo os próprios moradores.

Embora os imigrantes tenham acesso a atendimento médico, muitos têm receio de usar o complicado sistema de saúde italiano e, por essa razão, em um dia tempestuoso de dezembro, estudantes de medicina, voluntariamente, foram ao local para ministrar vacinas contra a gripe para alguns moradores, estabelecendo uma clínica improvisada em meio a pontas de cigarros e garrafas vazias de cerveja.

"Esta é a pior época do ano, quando o risco de epidemias é alto", disse Donatella D'Angelo, presidente da associação de voluntários que presta atendimento médico para os moradores do Palácio Salaam.

Nas últimas semanas, ela e sua equipe vacinaram mais de 100 moradores contra a gripe. "É uma gota d'água no oceano", disse. "Veja as condições em que vivem e diga-me se não é provável que transmitam a gripe um para o outro?", questionou.

As pessoas que se queixam de doenças são levadas para hospitais e clínicas do Estado, mas os médicos pouco podem fazer quanto à fraqueza psicológica que toma conta de muitas delas. "A depressão, em várias formas, é comum aqui", disse Marta Mozza, uma voluntária.

Em razão de sua situação geográfica, a Itália está mais exposta aos fluxos migratórios da África e tem solicitado ajuda a outros países da União Europeia. Mesmo assim, o país tardou na sua própria resposta ao problema, de acordo com as agências para refugiados.

Com base nas regras da União Europeia, os requerentes de asilo precisam permanecer no país em que entraram na Europa e podem ser enviados de volta se forem para algum outro local. Muitos moradores do Palácio Salaam dizem que procuraram algo melhor, na França, na Grã-Bretanha ou na Alemanha, mas tiveram de voltar a Roma.

"Ninguém acredita que podemos viver dessa maneira na Itália", disse Bahar Deen Abdal, de 28 anos, sudanês que vive há quatro anos no Palácio Salaam. "Este lugar é como uma prisão". Outros 900 refugiados em Roma vivem nas mesmas condições miseráveis, às vezes piores, segundo um recente estudo feito com um grupo que ocupa uma favela próximo do Rio Tibre.

Em termos de prioridades, a ajuda aos refugiados está bem abaixo na lista do governo no momento em que os italianos vivem suas próprias dificuldades econômicas. No entanto, as agências de apoio aos refugiados afirmam que a Itália tem todos os incentivos para ajudar os requerentes de asilo.

"Naturalmente, isso significa um empenho financeiro, mas vale a pena transformar essas pessoas em cidadãos contribuintes de imposto. Achamos que o investimento vale", disse Christopher Hein, diretor do Conselho Italiano para Refugiados.

Os que vivem no Palácio Salaam tentam se ajeitar. Há uma cantina administrada pelos próprios moradores, onde as necessidades básicas, incluindo os pães eritreu e etíope, convivem com o tradicional molho de tomate e espaguete. Yohanes Bereket, de 35 anos, conseguiu ser aceito como refugiado há três anos, vindo da Eritreia, onde era sapateiro. Moradores do Palácio Salaam dificilmente podem comprar sapatos sob medida. Assim, hoje, ele se sustenta consertando roupas e colocando solas em sapatos. "Pelo menos eu tenho um lugar para dormir. Não é uma maravilha, mas faço o que posso", afirmou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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