Um escudo cuja eficiência foi pouco testada

Análise: Kevin Baron / Foreign Policy

É ESPECIALISTA EM TEMAS MILITARES, DE , DEFESA, SEGURANÇA NACIONAL, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2013 | 02h04

No mês passado, o Pentágono enviou uma força considerável de B-2 a submarinos nucleares para a Península da Coreia com o objetivo de lembrar à Coreia do Norte com quem ela está lidando. Mas a indicação preocupante de que os EUA estão levando a sério a ameaça é o que está ocorrendo em Guam.

O Pentágono anunciou na quarta-feira o envio a Guam do sistema de defesa móvel de mísseis com base em terra, Thaad (Terminal High Altitude Area Defense). É o sinal mais recente de que os EUA acreditam que a Coreia do Norte poderá de fato lançar um míssil - talvez até mesmo um míssil armado com uma ogiva nuclear - através do Pacífico contra um alvo americano.

O sistema de mísseis instalado num caminhão foi projetado para disparar mísseis balísticos de curto e médio alcance a até 250 quilômetros de distância, proporcionando um guarda-chuva de proteção para grandes teatros de operações. Também pode atingir mísseis fora da atmosfera, o que lhe proporciona um alcance mais alto do que o sistema Patriot.

O Thaad é elogiado por funcionários da Defesa e representantes do setor; entretanto, os críticos da indústria de armas não o consideram confiável e pronto para entrar em ação. Segundo a GlobalSecurity.org., somente duas das seis baterias planejadas receberam certificação para "capacidade operacional inicial" em 2012, o que corresponde a um nível de prontidão abaixo do que a "plena capacidade operacional". Novos testes exigidos pelas diretrizes do Exército deverão ser realizados até 2017, o que adiará a "entrega completa" das baterias para as Forças Armadas.

"O Thaad é eficiente do ponto de vista operacional contra ameaças de mísseis balísticos de curto alcance dos tipos testados até o final de 2012. Entretanto, não foi submetido a testes contra ameaças de médio alcance", segundo o grupo. Mas, com base nos testes iniciais, o grupo acredita que o Thaad "provavelmente"será eficiente contra mísseis de médio alcance. Portanto, é "adequado em termos operacionais", porém, "limitado".

Sua utilização segue-se ao anúncio do secretário da Defesa, Chuck Hagel, de que o Pentágono gastaria US$ 1 bilhão para aumentar o número dos controvertidos mísseis interceptadores terra-ar (GBI), no Alasca, embora o último teste bem-sucedido deste sistema tenha ocorrido em 2008.

Uma declaração do Pentágono definiu a decisão de utilizar o Thaad em Guam apenas como "uma medida de precaução com o objetivo de fortalecer a posição de defesa regional contra a ameaça dos mísseis balísticos norte-coreanos".

Mas o especialista em armas, John Pike, diretor do GlobalSecurity.org, disse que o sistema Thaad ainda está parado em algum ponto entre a fase de testes e sua real prontidão operacional.

Pike disse lembrar dos anos 50, quando bombas nucleares não testadas do programa de testes dos EUA eram classificadas como "EC", ou seja com "capacidade em emergências".

"Acho que, neste momento, o Thaad é um EC", disse Pike numa entrevista. E acrescentou que "se sabia que essa defesa funcionaria em certas ocasiões, pelo menos de acordo com o princípio de que é melhor prevenir do que remediar, ou seja, alguma coisa é melhor do que nada".

Neste momento, Pike está preocupado com o fato de a Coreia do Norte definir-se como um país acuado e, portanto, que precisa levar a cabo suas ameaças para não correr o risco de perder o respeito e a credibilidade. Lançar uma bomba nuclear em Guam é bastante plausível, o que torna a decisão do Pentágono de utilizar o sistema antimísseis Thaad "totalmente sensata".

"O fato de ter armas nucleares implica a disposição de usá-las", disse Pike. "Se a liderança norte-coreana achasse que uma demonstração contra um alvo militar teria algum valor, a explosão de uma bomba sobre Guam seria uma das opções". Neste caso, ela seria detonada a certa altitude, ainda no ar, o que seria preferível a uma explosão em terra. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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