Um ex-presidente que não quer se afastar

Uribe, que bancou uma emenda constitucional e ganhou dois mandatos, vive num quartel de Bogotá, de onde ataca o presidente Santos pelo Twitter

É AUTOR DO LIVRO DE MEMÓRIAS OBLIVION, HÉCTOR, ABAD, THE NEW YORK TIMES, É AUTOR DO LIVRO DE MEMÓRIAS OBLIVION, HÉCTOR, ABAD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h04

Alguém já disse que ex-presidentes são como móveis velhos. Fazem pensar numa arca reverenciada por sua aparência nobre, mas que não é mais usada e está roída por cupins. Desde que a medicina moderna fez da longevidade a regra e não a exceção, países vêm acumulando essas relíquias. Quatro ex-presidentes vivem, hoje, nos Estados Unidos: o 39.º, o 41.º, o 42.º e o 43.º; é muito provável que o 44.º ocupe algum canto empoeirado até aproximadamente a metade do século 21.

Entretanto, o ex-presidente da Colômbia Álvaro Urine está se recusando a fazer seu papel.

Durante muitos anos, a presidência da Colômbia seguiu o modelo mexicano: um governante monárquico por um único mandato, e a reeleição proibida por lei como uma vacina contra dirigentes fortes que ficam enfeitiçados pelo poder. Era uma regra sábia, dado que os líderes latino-americanos com frequência preferiam o sistema eleitoral do Vaticano: um presidente que permanece no cargo até morrer ou, em casos raros, se estiver enfermo demais para governar. Fidel Castro é um desses casos e, após manipularem reformas constitucionais que lhes permitiram buscar a reeleição, Daniel Ortega na Nicarágua e Hugo Chávez (às voltas com um câncer) na Venezuela tentam seguir suas pegadas.

A Colômbia caminhou nessa direção. Graças a seu combate bem-sucedido contra os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), e de ter restaurado a fé do país no futuro, Uribe foi um presidente muito popular. Ele também é muito apegado ao poder. Por essa razão, bancou uma emenda constitucional que, em 2006, lhe permitiu concorrer à reeleição e permanecer no cargo por oito anos em vez de quatro. Em 2010, Uribe propôs um referendo que lhe permitiria concorrer a um terceiro mandato, mas - num ato de rara dignidade em nossa região - a proposta foi declarada inconstitucional pela Suprema Corte do país.

Com relutância, Uribe desistiu do poder. A última coisa que fez foi escolher a dedo seu sucessor, Juan Manuel Santos, ex-ministro da Defesa, que venceu facilmente a eleição.

Naquele estágio, Uribe devia ter se retirado para sua fazenda de gado, montar cavalos e criar uma fundação para a defesa de seu legado político. Em vez disso, ele decidiu viver, supostamente por razões de segurança, num quartel de polícia da capital, Bogotá. Ali, ele pode se reunir com agentes policiais, entre os quais sempre foi popular por sua posição dura contra a guerrilha, e fazer críticas a seu sucessor.

'Presos políticos'. Entre os principais motivos de queixa de Uribe estão os chamados "presos políticos" - apoiadores de Uribe que foram presos sob acusações de corrupção, ou de participar de um esquema de gravações ilegais de juízes da Suprema Corte, ou por laços com grupos paramilitares, ou por assassinatos extrajudiciais. Para grande espanto, em se considerando suas conexões com o ex-presidente, Santos deu seguimento a esses casos e Uribe não o perdoará por isso.

Uribe nunca escreveu muito; ele não é o tipo de pessoa que gosta de desenvolver um argumento nas páginas de um ensaio. Mas é viciado no Twitter (@AlvaroUribeVel tem 1,3 milhão de seguidores) e adora frases curtas: mais slogans que pensamentos. Ele passa seu tempo, dia e noite, disparando (ele próprio usa este verbo: "disparar") no presidente Santos e nos seus alegados atos de "traição". Santos vendeu a alma a terroristas e a Hugo Chávez, dizem os tuítes, e está levado o país ao caos. Segundo Uribe, a paz conquistada pela Colômbia a duras penas desmoronará com o ressurgimento da violência da guerrilha financiada pelas drogas.

Sua fúria levou alguns oficiais da reserva a falar da necessidade de um golpe de Estado contra o presidente. Um golpe é muito improvável, mas outra reforma constitucional permitindo que o messiânico Uribe concorra novamente em 2014 é possível; seus seguidores já estão promovendo isso. Se não funcionar, o que podemos esperar é a criação de um novo partido de direita, com um testa de ferro como candidato presidencial e Uribe como o verdadeiro líder. Isso significa que daqui a dois anos não estaremos avançando, mas retrocedendo: a eleição será um plebiscito, de novo, a favor de Uribe ou contra ele.

Os gregos antigos tinham uma instituição venerável para defender a democracia contra a tirania: o ostracismo. Segundo Plutarco, o ostracismo - que consistia na expulsão da cidade-Estado por dez anos - não era uma punição, mas uma medida protetora, um modo de tornar o eminente humilde novamente. É uma resposta melhor para o problema da sucessão do que algumas outras.

Há muitos de nós na Colômbia que gostariam de ver nosso vigoroso ex-presidente dando palestras de autoajuda no exterior ou consultoria para corporações estrangeiras. Infelizmente, ele prefere ser um incômodo na Colômbia, tuitando e semeando problemas e se regozijando toda vez que as Farc tentam assassinar alguma figura política ou plantam uma bomba. Cada derrota militar de Santos é um triunfo para Uribe: para ele, o país vem caminhando para o abismo desde que saiu de suas mãos. Mas nunca, nas últimas décadas, os números econômicos (inflação, desemprego, crescimento) estiveram tão bons. E se a situação de segurança continua difícil, as taxas de homicídio não são maiores do que eram no tempo de Uribe. Aliás, elas ainda estão caindo.

É por isso que muitos colombianos sonham com algo parecido com o ostracismo e desejam que essa peça velha de mobiliário chamada Álvaro Uribe pare de atrapalhar o caminho de todos no meio da sala de visitas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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