Um exemplo para o México

A falta de autoridade do Estado, que abriu espaço para que tiranos ganhassem poder na Colômbia há 25 anos, pode se repetir no vizinho do norte

Héctor Abad*, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2014 | 02h06

Quase todo mundo concorda: a única coisa pior do que matar é ser morto. Se nossa vida é ameaçada, temos o direito de nos defender com a força se necessária. Numa sociedade civilizada, essa defesa é delegada ao Estado. Mas nem todos, aparentemente, vivem numa sociedade civilizada.

Nos anos 90, a Colômbia registrou um aumento dos grupos de autodefesa formados por justiceiros. Em sua impotência e desespero por não conseguir vencer a guerra contra o exército guerrilheiro (que era essencialmente um cartel de drogas) e contra o exército particular do chefão da droga, Pablo Escobar, o Estado permitiu a formação desses grupos - chamados Convivir.

Constituídos por trabalhadores agrícolas, eram treinados por soldados e financiados por proprietários de terras e pelo agronegócio. Quando começaram a extorquir dinheiro dos próprios empresários que os financiavam, foram declarados ilegais. Mas já era tarde demais. Tornaram-se grupos paramilitares clandestinos e usavam as mesmas armas daqueles que combatiam: o sequestro, o assassinato de inocentes e o narcotráfico.

O que vem acontecendo nos últimos meses no México, no Estado de Michoacán, me leva a temer que a mesma coisa esteja acontecendo lá atualmente. Os grupos de autodefesa organizaram-se para expulsar o cartel de drogas, conhecido como Cavaleiros Templários. Depois de exigir inicialmente que os justiceiros debandassem, o governo do presidente Enrique Peña Nieto agora os sancionou como parte dos corpos de Defesa Rural - pelo menos nominalmente sob o controle dos militares.

O que acontece é o seguinte: o Exército, com o consentimento das autoridades centrais, busca um aliado, um mal menor entre os poderes locais. Comparados aos cruéis e sanguinários Cavaleiros Templários, os grupos de autodefesa desfrutam do apoio popular e têm permissão para operar. Ao mesmo tempo, o governo ignora o fato de que alguns destes justiceiros podem ser financiados pelos inimigos dos Cavaleiros Templários - por exemplo, gangues de traficantes rivais ou outro cartel do Estado vizinho de Jalisco. O governo permite que os justiceiros atuem por algum tempo, mas quando tentar voltar atrás, os grupos de autodefesa já terão se tornado um poder armado de fato, com o qual o governo terá de selar um pacto, pois, sem eles, o Estado não conseguirá afirmar sua autoridade na região.

O México, como vários países latino-americanos, consegue garantir a segurança e o respeito à lei somente em algumas zonas. A seiva da lei e da ordem consegue fluir até as proximidades do coração do poder, ao redor das grandes cidades, mas, quanto mais nos afastamos, mais fraco fica o pulso, e em alguns lugares, desaparece. Os policiais são poucos e corruptos, os juízes vivem ameaçados pelos déspotas e pelos homens fortes locais, e as autoridades legítimas são pagas pelas autoridades ilegais. É como o Velho Oeste americano, mas com armamentos do século 21 e exércitos particulares financiados pelo fluxo torrencial de dinheiro do narcotráfico. Não há nenhuma perspectiva de que uma autoridade justa apareça para restaurar a calma.

Às vezes, os EUA - que entendem tão bem seus próprios problemas, mas são extremamente equivocados a respeito das realidades latino-americanas - pedem aos governos dos países amigos do sul que travem batalhas heroicas. Os americanos pedem a eliminação das culturas ilícitas, a guerra total às drogas ou o extermínio das forças guerrilheiras. Os governos mais obedientes ignoram as possíveis soluções reais - como a eliminação da fonte dos lucros gigantescos dos cartéis legalizando as drogas - e, em vez disso, tentam atender a estas solicitações, enviando seus Exércitos para empreender a tarefa ingrata de lutar contra os próprios compatriotas. Foi o que Felipe Calderón, o ex-presidente do México, tentou fazer.

Mas essas guerras mortíferas sempre fracassam. O que elas geram são poderes locais que se defendem armando-se até os dentes e transformando territórios em campos de batalha onde a vida é impossível para civis indefesos. A economia e o turismo desapareceram, o número de mortos aumentou vertiginosamente (para 80 mil no México) e o vitorioso não é o Estado, mas inevitavelmente alguns narcoditadores com seu próprio Exército de mercenários.

Foi o que aprendemos na Colômbia: quando o Estado não está presente são os tiranos locais que assumem o poder e brutalmente impõem as suas regras, que não são nada mais do que a defesa dos seus privilégios. O antigo conceito Hobbesiano, que no estado natural da humanidade o homem é lobo do homem, parece se confirmar nestes experimentos involuntários na América Latina. O lobo mais forte e mais rico (com o tráfico de drogas e a mineração ilegal) domina os outros lobos.

Naturalmente cada país é diferente. Mas temo que hoje o México esteja repetindo o mesmo erro que a Colômbia cometeu há 25 anos.

Os justiceiros parecem ser uma solução - são considerados salvadores -, mas na realidade fazem parte da doença, criando mais um Exército ilegal, agindo sem restrições e financiados pelo dinheiro sujo.

Na Colômbia os grupos de autodefesa eram perseguidos até que, em 2003, 25 mil integrantes foram forçados a se desmobilizar. Como eram também traficantes de droga, alguns chefões paramilitares acabaram extraditados para os EUA. Mas seu legado persiste. Seus descendentes vivem na Colômbia e ainda têm poder: hoje pertencem a gangues criminosas e ainda praticam extorsão e assassinatos financiados pelo dinheiro da droga e da mineração ilegal.

No início, os justiceiros assassinavam sequestradores, traficantes de droga e chantagistas, mas logo começaram a eliminar seus parentes e depois seus amigos ou aqueles que pensavam ser seus amigos. Na sequência, mataram as famílias dos amigos, até todos se tornarem suspeitos e baterem na sua própria porta, como ocorreu na Colômbia com meu próprio pai, quando foi morto a tiros nas ruas de Medellín.

Permitir que esses Exército privados, mesmo que, aparentemente, atuem em autodefesa, é criar um monstro como a Hidra: se cortar uma cabeça, duas outras crescerão.

*Héctor Abad é autor do livro "El ovido que saremos".

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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