Um Exército de uma pessoa só

São pessoas como Malala Yousafzai que farão a diferença no Afeganistão, não os trilhões de dólares dos Estados Unidos

David Rothikopf, Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2012 | 07h04

CABUL - Imran Khan, jogador de críquete que se transformou em político no Paquistão, conseguiu algo quase impossível no fim de semana. Primeiro, por sua causa, chegamos a nos simpatizar, pelo menos por um momento efêmero, com o presidente afegão Hamid Karzai. Em segundo lugar, numa única jogada publicitária desastrada, ele desviou a atenção da notável história da reação de seu país e do mundo à covarde tentativa do Taleban de assassinar Malala Yousafzai, a corajosa garota que teve a coragem de denunciar as medidas do grupo radical para impedir a educação de meninas.

Após uma visita ao hospital em que Malala se encontrava e numa nítida tentativa para tirar proveito da preocupação com a sorte da menina observada em todo o país, ele usou a ocasião para justificar as atividades do Taleban no Afeganistão como uma "jihad legítima". "Quem luta por sua liberdade está combatendo uma jihad", declarou Khan, segundo o jornal britânico The Guardian, que supostamente seria uma frase do Alcorão. "As pessoas que lutam no Afeganistão contra a ocupação estrangeira estão combatendo uma jihad."

O ministério do Exterior afegão condenou imediatamente os comentários feitos por ele. A razão pela qual Khan escolheu esse momento particular para defender o Taleban suscita profundas dúvidas sobre a capacidade de discernimento desse homem que claramente ambiciona governar seu país algum dia. Pior, a situação se torna mais desagradável em razão de sua recusa anterior de citar o Taleban pelo nome como os agressores de Malala, aparentemente por temor de que isso colocasse seus partidários em risco.

Por toda a parte, a difícil situação de Malala provocou uma reação impressionante que culminou, no fim de semana passado, com a sua transferência para um hospital especializado na Grã-Bretanha, graças à cooperação dos governos paquistanês, britânico e dos Emirados Árabes Unidos.

Dezenas de milhares de paquistaneses se concentraram no domingo numa praça em Karachi para protestar contra a tentativa de assassinato da garota e expressar seu apoio a ela e a sua causa. Os clérigos locais declaram que o ataque contra Malala é "contrário aos princípios do Islã".

"A tentativa contra a vida de Malala não foi apenas uma agressão contra uma menina indefesa, mas um ataque contra ela e o direito de todas as meninas a um futuro não limitado pelo preconceito e a opressão. Seus agressores devem ser denunciados e levados à Justiça. Malala enfrentou corajosamente os extremistas que tentavam proibir as meninas de frequentar uma escola. Devemos ser solidários com ela promovendo a tolerância e o respeito", afirmou o xeque Mohamed bin Zayed al-Nahyan, de Abu Dabi, em comunicado à imprensa emitido por seu governo.

Em um artigo no site Daily Beast, o ex-primeiro ministro britânico Gordon Brown, que encabeça uma iniciativa global para promover o ensino para meninas afegãs, escreveu: "A frase 'eu sou Malala', que vimos em camisetas, cartazes e websites, foi adotada pelos jovens por toda parte, desafiando corajosamente o Taleban e afirmando o direito de todas as meninas à educação."

O jornalista paquistanês Owais Tohid nos deu uma explicação da razão pela qual Malala tornou-se essa figura galvanizadora num artigo para o Christian Science Monitor, publicado na semana passada. Ele se encontrou com ela para conversar sobre seus protestos contra a tentativa do Taleban de suprimir o ensino para meninas no Vale do Swat e também sobre suas postagens anônimas num blog falando da violência que observava em torno dela.

"Queria gritar, berrar e dizer para o mundo o que estávamos passando. Mas não era possível. O Taleban me mataria. E a meu pai e minha família. Eu morreria sem deixar uma marca. Então, decidi escrever com um nome diferente. Deu certo e o meu vale foi libertado", disse ela.

Involuntariamente, é claro, os deploráveis comentários de Khan evidenciam o poder de Malala e o vigoroso apoio que ela está despertando. A frase "quem luta por sua liberdade está travando uma jihad" aplica-se muito mais diretamente a ela do que aos bandidos do Taleban que desvirtuaram o Islã para justificar a violência e a repressão - tanto no Vale do Swat como no Afeganistão.

E também repercute de modo incômodo na discussão sobre o envolvimento dos EUA na região, que voltou à baila novamente no debate dos candidatos à vice-presidência, há duas semanas. Independentemente de seu convincente desempenho, o vice-presidente, Joe Biden, deixou clara a trágica inutilidade do envolvimento americano no Afeganistão ao enfatizar que os Estados Unidos sairão do país em 2014 de qualquer maneira. O que significa dizer que o objetivo de Washington é sair do país independentemente das consequências.

Não importa que o governo deixado ali pelos americanos seja fraco e corrupto e as forças afegãs que treinamos não irão oferecer nenhuma segurança para o país. Partimos, apesar das mais de 2 mil vidas perdidas e das centenas de bilhões de dólares gastos, com pouca coisa para mostrar além das cabeças de Osama bin Laden e de alguns dos seus sequazes. O Taleban sabe disso e só está aguardando o momento oportuno. Embora seu ressurgimento seja péssimo para o Afeganistão, certamente será muito pior para as mulheres afegãs.

Não erramos em deixar o país. O Exército dos Estados Unidos já deveria ter partido há muito tempo. Devíamos ter entrado no Afeganistão apenas para caçar e matar os responsáveis e facilitadores dos atentados de 11 de setembro de 2001. E não nos envolvermos na inútil tarefa de construir uma nação num país montanhoso, sem acesso para o mar e a milhares de quilômetros de distância.

No entanto, assim foi feito e a grande pergunta no Afeganistão, no Paquistão e no Oriente Médio é esta: "E agora?" Qual deve ser a estratégia política dos Estados Unidos após nossos fracassos nessa parte atribulada e fraturada do mundo? Que estratégias políticas vamos adotar se não temos mais apetite por guerras?

Curiosamente, essas questões ainda devem ser levantadas nos debates. Em vez de uma conversa simplista e sem profundidade sobre como ser mais forte ou mais duro e de que maneira podemos matar mais bandidos, vamos elevar mais nossos valores. Da Tunísia ao Paquistão, essa é uma região que se encontra no meio de uma profunda convulsão social e não temos ainda um novo conceito, nenhuma política coerente que possa ser comunicada ao povo americano ou ao mundo.

Como observou um diplomata americana, há duas semanas, além do assessor para a segurança nacional, Tom Donilon, ele não saberá para quem telefonar se precisar contatar alguém do alto escalão do governo que acorde diariamente com a exclusiva responsabilidade de resolver esses problemas complexos e interligados.

Contudo, talvez haja uma resposta. Naturalmente, os Estados Unidos terão de se envolver. Vamos de ter de continuar nossos ataques contra os maus elementos que nos ameaçam periodicamente e teremos de usar nossa influência econômica e diplomática da melhor maneira possível para apoiar aqueles que, nessa região, compartilham dos nossos objetivos.

Contudo, talvez a lição de Malala e a resposta a ela seja similar à de Neda, a mártir simbólica da Revolução Verde do Irã, ou à dos jovens líderes da Praça Tahrir, no Egito. E também, apesar dos programas políticos e das filosofias muito diferentes, semelhante à lição oferecida pelos líderes dos Emirados Árabes Unidos, enviando um avião ambulância para o Paquistão, ou pelos países do Golfo, agindo em conjunto com a Turquia contra Bashar Assad na Síria.

Pode ser que a resposta à pergunta dos diplomatas árabes seja esta: Por que estão nos chamando? Talvez seja hora de entender que a resposta para os problemas desses Estados, regiões e povos interconectados será dada por eles. Não serão exatamente as transformações que esperaríamos ou mesmo aquelas que os povos da região mais necessitam. Não serão transformações sistemáticas. E ocorrerão grandes retrocessos. No entanto, somente mudanças concebidas localmente é que criarão raízes.

Apesar de todas as evidências de que a corrupção, a intolerância e a violência arraigadas continuam, precisamos reconhecer também que as "Malalas" vêm proliferando, ganhando força e moldando o debate de uma maneira que, até o momento, pensávamos ser impossível. Nós, no Ocidente, podemos ajudá-las. Mesmo que nossas tropas deixem o Afeganistão, é crucial não fugirmos dessas responsabilidades.

Na verdade, a maior homenagem que podermos prestar aos nossos soldados é fazer tudo o que for possível para apoiar as iniciativas em favor das mulheres da região, em favor da educação, da tolerância, em favor da criação de oportunidades reais que sejam criadas na região para todos. E temos de reconhecer que, em alguns casos, nosso apoio ou intervenção, quando bem-intencionados, podem não contribuir para algum avanço.

Precisaremos ter estratégias, paciência e tolerância com relação aos avanços irregulares. Encontrar aliados confiáveis entre os ativistas e líderes mais moderados da região para criarmos juntos uma nova aliança que não seja liderada por potências estrangeiras, mas apoiadas por elas.

No entanto, precisamos também reconhecer que Malala, Neda e as milhares de pessoas da Praça Tahrir ou aquelas que se reuniram em Karachi fizeram mais para mudar para melhor essa parte do mundo do que os nossos trilhões de dólares, nossos sacrifícios e nossas Forças Armadas reunidas. Se apreendermos essa lição, então, os nossos esforços não terão sido totalmente em vão, como também o futuro dessa região atribulada poderá ser um pouco melhor. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* ANALISTA DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.