Um fato e suas profundezas

Histórias sobre mineiros sempre mexeram com o imaginário - pelo perigo de[br]desabamento, pela sensação claustrofóbica, pela umidade e sujeira causadoras de doenças

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

Artigo

O que é uma grande história? É a que causa surpresa, gera expectativa, reverte rumos e é recheada de detalhes significativos? Sim, claro. E também poderíamos dizer: é a história que qualquer pessoa imediatamente percebe que é grande e quer acompanhar. O resgate dos 33 mineiros chilenos no Deserto do Atacama logo chamou a atenção do planeta. Houve quem comparasse o evento a um reality show, por causa do confinamento, mas as diferenças são muitas: não há escolha prévia dos personagens e de suas rotinas, nem contrato específico em torno do resultado; o drama comoveu por ser inesperado, involuntário, e por pertencer a diversos contextos. Era a realidade em seu caráter duro e complexo, não um simulacro, não uma imitação maquiada - e sim o fato em si, o fato que teima em existir numa era em que tudo seria apenas versão e diversão.

Histórias sobre mineiros sempre mexeram com o imaginário, porque mesmo quem nunca visitou uma mina centenas de metros abaixo partilha aflição pelo perigo de desabamento, pela sensação claustrofóbica, pela umidade e sujeira causadoras de doenças. Billy Wilder partiu disso em A Montanha dos Sete Abutres, em que Kirk Douglas faz um jornalista interessado em prolongar a agonia de um homem preso numa mina. George Orwell foi como repórter viver algumas semanas com mineiros na Inglaterra, como descreveu em O Caminho para Wigan Pier, e observou que os sofrimentos já começavam no longo túnel onde precisavam engatinhar até chegar ao local de garimpo. As grandes histórias, enfim, mostram a natureza humana sob pressão e nos projetam nos personagens, nos fazem perguntar o que faríamos em seus lugares.

Na mina de Copiapó, teve tudo isso e mais ainda. A única maneira de evitar a tragédia, num país já afetado por um terremoto neste ano e com uma história que se confunde com a história da mineração, envolvia esses pequenos grandes recursos de que a humanidade dispõe diante do que não pode controlar: planejamento, trabalho em equipe, tecnologia. Por mais que erros tenham sido cometidos antes - da falta de segurança aos salários baixíssimos -, a decisão de transformar esse drama num exemplo de reação e criatividade, em sintonia com um país latino-americano que se destaca por seu desenvolvimento humano, ficou muito maior. O mesmo espírito que se viu fora, com ajuda de outros países e tudo o mais, se viu antes dentro: os mineiros se organizando e se comunicando, tentando racionar o atum e alimentar o humor, controlando os impulsos destrutivos e autodestrutivos que o tipo de situação costuma induzir.

Quantos de nós faríamos a mesma coisa em seus lugares? Vivemos muito passivos, diante das TVs, reclamando por não ter o impossível. Por isso, queremos mais ainda aplaudir aqueles que não se deixam soterrar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.