Um filme ao contrário

A impressão que se tem é a de que assistimos a um filme que passa ao contrário. Em janeiro de 2011, o mundo inteiro olhava fascinado para a Praça Tahrir, no Cairo, onde multidões heroicas lutavam para derrubar o ditador Hosni Mubarak. Hoje, na mesma praça, o mundo assiste há três dias aos mesmos conflitos. Desta vez, o alvo das multidões furiosas não é mais o ditador envelhecido, mas um Exército que, suspeitam os jovens revoltados, pretende confiscar em seu proveito a revolução de janeiro.

É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2011 | 03h02

As revoltas são violentas e a repressão implacável. Os mortos já chegam a 33. Se a ordem não for restabelecida rapidamente, devemos temer que as eleições do dia 28 não se realizarão.

Adiar o pleito ou suprimi-lo seria muito grave. Ele é, de fato, o primeiro passo para que a longa noite da tirania seja substituída por um processo democrático. A realização ou não das eleições e seu resultado serão o termômetro que permitirá medir as esperanças ou as decepções da revolução egípcia. O voto responderá à pergunta que atormenta todos os observadores: a Primavera Árabe, que liquidou a tirania em três países (Tunísia, Egito e Líbia), desembocará nas respectivas democracias ou entregará as chaves de três países libertados nas mãos dos radicais islâmicos? No Egito, eles estão presentes há muito tempo. A Irmandade Muçulmana nasceu ali, em 1928. Ela está na origem da imensa deriva do islamismo que, há 20 anos, avança sobre o mundo. A Irmandade, que evidentemente foi proibida de atuar por Mubarak, continua lá. Numerosa, disciplinada e muito organizada, é a favorita nas eleições do dia 28. Aproveitará ela para assegurar o seu predomínio e transformar o Egito num Estado islâmico radical? Não há nada que indique isso. A Irmandade de 2011 tem um discurso mais pacífico. É muito religiosa, mas se diz democrata, inimiga da violência e pouco propensa à sharia, a lei islâmica. Alguns suspeitam que o discurso moderado não passa de um artifício. Ela o utilizaria com o propósito de ganhar as eleições. E, uma vez instalada no poder, poderia impor a sua ordem, a do Islã radical. No entanto, dois sinais fazem pensar que, na realidade, a Irmandade se moderou.

O primeiro sinal é seu comportamento durante os recentes tumultos da Praça Tahrir. No primeiro dia, estava lá ao lado dos jovens revolucionários que desafiavam os soldados, mas, nas noites seguintes, desapareceu. Posteriormente, nos bairros do Cairo, a Irmandade pregava a calma, o bom senso e desaprovava as provocações dos jovens "raivosos" da Praça Tahrir.

E o segundo sinal: a Irmandade é superada pelos salafistas. Esse movimento a vê como conservadora, grandiloquentes e degenerada. E pretende adotar a interpretação literal do Alcorão.

Os salafistas rejeitam todo intermediário entre Deus e os homens que não seja o Profeta. Condenam o culto aos santos, a veneração dos xeques sufis ou a dos imãs xiitas considerados infalíveis. Os salafistas querem demolir tudo o que destrói o princípio essencial da unicidade de Deus. Por enquanto, os salafistas não ameaçam a Irmandade, mas se as eleições se realizarem de fato apesar dos tumultos da Praça Tahrir, então, além do combate no qual a ordem civil se opõe ao poder militar, se travará talvez outro, ainda mais acirrado, mais sombrio: o confronto entre dois islamismos rivais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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