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Um francês na China

O presidente francês, François Hollande, chega hoje à China. Ele precisou de cerca de 12 meses, depois da eleição, até encontrar tempo para finalmente visitar a segunda maior potência mundial. Entretanto, não será uma visita demorada: Hollande permanecerá 37 horas no país. Em comparação, a alemã Angela Merkel já visitou a China duas vezes em 2013 e cinco no total.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2013 | 02h07

Sejamos otimistas. A viagem mostra que Hollande começa a compreender, um tanto tardiamente, que a geografia do mundo mudou nos últimos 50 anos e o destino da Europa está sendo jogado também na Ásia. Os americanos já tomaram nota dessa mudança há muito tempo. A França chega com atraso, assim como está atrasada no seu intercâmbio comercial com o gigante asiático.

Alguns dirão que, nesse começo caótico de mandato, Hollande está um pouco inquieto. Mas não é só isso. Ficamos estarrecidos ao ler o que o mesmo Hollande disse recentemente ao jornalista Eric Dupin, em seu livro La victoire empoisonnée. Dupin entrevistou Hollande ainda durante a campanha, antes das eleições do ano passado. Na época, não faz tanto tempo assim, Hollande considerava que a China era um "adversário". "Os chineses trapaceiam em tudo", disse.

A primeira prova a que todos os dirigentes ocidentais devem se prestar na China é falar de direitos humanos. De que maneira Hollande evitará a armadilha? Com o máximo cuidado. Aliás, devemos reconhecer que o presidente está sem sorte. No dia 18, chegaram a Paris dois personagens extremamente explosivos: Lobsang Sangay, primeiro-ministro do Tibete, exilado em Londres, e Rebiya Kadeer, a mais famosa dissidente dos uigures.

Evidentemente, Hollande não tem nada a ver com essas visitas. Ele tomou o cuidado de não receber o tibetano e a uigur no Palácio do Eliseu às vésperas de voar para Pequim. Mas os dois personagens, verdadeiros demônios para os chineses, foram recebidos com pompa na Assembleia Nacional. Em Pequim, as autoridades torceram o nariz.

E os chineses torcerão ainda mais o nariz se descobrirem o que disse, anos atrás, o atual ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, durante visita de Hu Jintao à França: "Não devemos confiar nele. É um ditador que zomba dos direitos humanos".

Hoje, Hollande encontrará 30 segundos para denunciar os crimes do regime de Pequim? Sem dúvida. Mas entre paredes e tossindo bem alto para que as frases soem distorcidas. Ou dirá o que quer, correndo o risco de bloquear a venda de aviões, trens e tecnologia nuclear?

Um especialista, Jean-Louis Rocca, professor da Escola de Ciências Políticas, aconselha sabiamente: "Na China, os ocidentais devem falar da questão dos direitos humanos sem falar nela. E os chineses devem se irritar sem se irritar". Rocca explica: "Pois, antes de mais nada, é preciso fazer negócios".

Tradução de Anna Capovilla.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris.
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