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Um freio ao avanço do autoritarismo

Eleição de Gabriel Boric no Chile, derrotando José Antonio Kast, é um exemplo de como políticos antidemocráticos têm tido dificuldades nas urnas

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 05h00

O ano termina com a eleição do candidato de esquerda Gabriel Boric no Chile, o país mais próspero da América Latina. Alguns viram nisso a confirmação de uma onda de esquerda varrendo a região. Mas o desfecho da eleição chilena ajuda a contar outra faceta da história deste ano: uma resposta em várias partes do mundo aos avanços do autoritarismo.

Boric não era o candidato preferido dos chilenos. No primeiro turno, o conservador José Antonio Kast saiu na frente, com 28% dos votos, seguido por Boric, com 26%. O restante dos votos se dividiu entre candidatos que vão da direita populista até a centro-esquerda. Sua vitória no segundo turno foi impulsionada pelo desejo de bloquear a chegada ao poder de Kast, que defende a ditadura de Augusto Pinochet.

Boric, um ex-líder estudantil de 35 anos, prometeu aumentar em 50% o salário mínimo, perdoar as dívidas do crédito estudantil do ensino superior, criar um sistema público de saúde e de previdência, elevar o imposto em 5% do PIB nos próximos 4 anos, sobretaxando famílias de renda mais alta e grandes empresas, e aumentar o papel do Estado em áreas como telecomunicações e energia elétrica.

Essas propostas atendem às insatisfações de muitos chilenos com a desigualdade e a falta de um estado de bem-estar social. Do ponto de vista econômico, elas significariam jogar o bebê juntamente com a água do banho: eliminar o ambiente favorável à iniciativa privada que explica por que o Chile tem a maior renda per capita e expectativa de vida da América Latina.

Os chilenos elegeram um Parlamento que impedirá Boric de cumprir suas promessas mais delirantes. A frente de esquerda Aprovo Dignidade, que o apoia, conta apenas com 37 dos 155 deputados e 4 dos 43 senadores. Boric terá de negociar com o Novo Pacto Social, que reúne a centro-esquerda e a centro-direita que governaram o Chile a maior parte dessas três décadas de democracia, e possui 37 deputados e 8 senadores. E ainda com o Chile Podemos Mais, do atual presidente Sebastián Piñera, da direita moderada, com 53 deputados e 12 senadores.

Portanto, a eleição chilena foi menos uma vitória da esquerda do que uma derrota da extrema direita autoritária. E a confirmação de duas tendências mundiais: a polarização e a rejeição aos partidos tradicionais.

Do ano passado para cá, o centro e a direita derrotaram a esquerda no Uruguai, com Luis Lacalle Pou; no Equador, com Guillermo Lasso, e nas eleições parlamentares argentinas. A esquerda venceu no Peru, com Pedro Castillo; na Bolívia, com Luis Arce, e em Honduras, com Xiomara Castro. Nicarágua e Venezuela não contam, porque são ditaduras.

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